Gerais - 4 de setembro de 2018

Cabresto, Não!

Para viabilizar a construção da Usina, foi necessária a construção, ao seu redor, de uma infraestrutura adequada, para isso a direção da mesma decidiu promover um concurso lançado em forma de edital nos maiores jornais do país. Treze candidatos apresentaram seus planos urbanísticos, dispostos a vencer a original topografia acidentada, sem desfigurá-la - exigência que constava entre as cláusulas do edital publicado – entre eles estava o jovem Lúcio Costa, o arquiteto que, no futuro, elaboraria o Plano Piloto de Brasília.

A comissão incumbida de analisar os projetos, liderada pelo arquiteto belga Leopoldo Bouvier, optou pelo Plano Urbanístico do Dr. Lincoln Continentino, um arquiteto que já tinha uma experiência anterior em núcleos urbanos - projetara a cidade balneária de Araxá - e a implementação do mesmo ficou sob a responsabilidade do engenheiro Paulo Gonzaga.

Para realizar o Plano de Urbanismo da Cidade de Monlevade foram contratados os serviços de várias construtoras, que foram montando seus acampamentos e contratando a mão de obra que se pôs ao trabalho incessante de erguer uma cidade às margens do Rio Piracicaba, em meio a uma desbravada Mata Atlântica.

Entre estas empreiteiras estava uma destacada cliente da C.S.B.M.. a Construtora Christiane & Nielsen, que ficou encarregada da edificação do Hotel Cassino e das residências das ruas Siderúrgica e Beira Rio, que abrigariam a primeira turma de técnicos luxemburgueses e vários dos operários por eles treinados na unidade se Sabará.

Trabalho praticamente concluído, visando coroar a sua obra, a Construtora ofereceu, como presente à população, construir gratuitamente o majestoso templo católico já projetado pelo Dr. Yaro Burian, um arquiteto contratado pela Companhia em 1936. Nascido e formado na antiga República da Tchecoeslováquia, se fez monlevadense através de seus quatro filhos com Dª Maria Burianová: Eva, Olga, Maria Helena e Yarinho.

Uma vez aprovado o projeto de concepção originalíssima, cheio de regozijo o fiel rebanho católico monlevadense compareceu em massa ao lançamento da Pedra Fundamental. Filhas de Maria, com seus vestidos brancos e as fitas azuis cobrindo o peito, acompanhadas dos Congregados Marianos cobertos por suas opas vermelhas e das senhoras da Irmandade do Coração de Jesus com suas fitas vermelhas, foram testemunhas das bênçãos derramadas pelo Arcebispo de Mariana, D. Helvécio Gomes de Oliveira sobre a primeira pedra do templo que ali seria erguido com mais muitas outras pedras sustentadas pelo ferro produzido nos alto-fornos da Belgo-Mineira com o minério do nosso solo, e regado pelo suor de seus operários.

Erguida em tempo recorde em local privilegiado, dominando grande parte da Vila Operária, acabou por se tornar a imagem símbolo do futuro município. Já em 1944, antes mesmo de ser construída a longa escadaria que compõe o belíssimo conjunto arquitetônico que lembra o formato de um cálice, vários dos sacramentos eram ministrados em seu interior pelo Padre Almir de Rezende Aquino, Capelão-Cura encarregado de preparar a criação da paróquia. Até então batizados urgentes, confissões e casamentos eram realizados na Capela criada pelo capelão que o antecedeu, o Conego Domingos Martins nas dependências da Fazenda Solar, onde antes existia a Ermida erigida a São João Batista, santo de devoção de nosso pioneiro, João Dissandes de Monlevade.

Baixinho, claro e gordinho, o Padre Almir era um homem convicto de suas obrigações e as cumpria devotamente, sempre assistido por sua fiel escudeira, a Dª Neide, esposa do Sr. Zé Mota, carpinteiro da Usina. Não que fosse indisciplinado, longe disso. O longo tempo de estudos realizados na clausura dos seminários de então não o permitiriam. Acontece que reinava no quase distrito um “código de conduta” orquestrado pela toda poderosa C.S.B.M: todos, independente de nacionalidade, cor ou condição social tinham de andar de acordo com seus desígnios, se quisessem progredir na empresa, além de ter responsabilidade e amor ao trabalho.

Indisposto com alguma interferência na Companhia em sua forma de conduzir a Capelania e seu vasto rebanho, o pequeno padre se exaltou, declarando em alto e bom som, não se importando com quem ouviria, que ele, Padre Almir de Rezende Aquino não era homem a quem se colocasse “cabresto”. ‘Tava pra nascer!...

Claro que tal declaração, como sempre, foi aplaudida por uns enquanto desagradava a outros. Numa bela manhã, ao abrir a porta de seu sobrado situado à beira do rio na Rua Tapajós, o Padre Amir, que veio a se tornar Monsenhor, encontrou depositados em sua soleira, não se sabe por quem, um pacote de milho e uma ferradura!...

Ele, o Padre Almir, não deixou por menos: ao fazer seu último registro no Livro do Tombo da Paróquia de São José Operário escreveu: “A vida da Igreja é a vida do Evangelho, nem que seja com o empalidecimento de seu semblante humano (...) Por isso chegou o momento de dizer : “Até a poeira de vossa cidade que se grudou aos nossos pés, sacudimos contra vós (Lc 10,11)”.



Legenda:

Aqui uma foto do Padre Almir, que deixou João Monlevade por se sentir ofendido.