Gerais - 1 de outubro de 2018

“João Peixe” e o caso do aluno do Senai que foi obrigado a colar um galho

Marcelo Melo.
Conta a história que a direção da Cia. Siderúrgica Belgo-Mineira vinha sendo pressionada pelas mulheres da alta cúpula da Usina de Monlevade, porque necessitavam de um professor de Natação. O Social, primeiro clube a ser construído na Vila Operária, em meados dos anos 1940, e onde somente podiam frequentar os “gringos” e a chefia, e negro era proibido entrar, era o ponto de encontro entre as “madames”. Mas elas queriam algo mais, ou seja, aprender a bater os braços nágua. E acabou a empresa, através do Dr. Louis Ensch, contratando o professor, no início da década de 50. Nascido em Juiz de Fora, o saudoso João de Oliveira Freitas chegava a Monlevade, com sues 20 anos de muita saúde e, pelo fato de ter vindo aplicar aulas de Natação, logo herdou o apelido que ele detestava, “João Peixe”. E, na mesma época, chegava a João Monlevade o descendente de italiano, Aldo Nastrini, que deixava sua cidade-natal, Poços de Caldas, para dar aulas de Tênis às mulheres dos engenheiros no Social Clube. Mas isto é história para as próximas edições!


Falemos de João de Oliveira Freitas, cujos causos são muitos ocorridos em Monlevade. Aliás, ele ficou famoso mesmo foi como educador, pois deu aulas de Natação apenas por um período curto. Logo depois começou sua lida na área educacionale, pelo estilo disciplinador e que muito lembrava o regime militar, acabou se tornando famoso, principalmente entre os alunos da Escola Profissionalizante do Senai, onde foi diretor entre as décadas de 1960/70. Literalmente, todos tremiam na hora em que eram obrigados a “enfrentar” Seu João, como o chamavam. Na hora da fila indiana que era feita todos os dias antes do início das aulas, Seu João, como se fosse um chefe de Estado em revista da tropa, passava olhando um por um. Tudo era reparado: cabelos tinham de estar bem cortados, unhas aparadas, roupas limpas e bem passadas, sapatos lustrosos. Ai de quem desrespeitava esta regra. E, claro, havia sempre um que não cumpria as regras e era severamente punido. Quem estivesse de cabelo grande era imediatamente levado para uma improvisada barbearia ali mesmo na escola e tinha o cabelo cortado ao estilo “Príncipe Danilo”, muito comum na época. Passava Máquina Zero na parte de trás e deixava um topete bem aparado à frente.


Mas ocorreu uma história hilária, envolvendo um aluno que pagou muito caro por ter quebrado um galho de uma árvore que ficava dentro do Senai. Era hora do recreio, hoje chamado intervalo. Todos ali descansando ao seu modo, até que um mal avisado e distraído aluno encosta sob uma árvore para fugir do sol e pega em um de seus galhos. Não se contendo, ela acaba arrancando-o. Só não contava com a astúcia de Seu João “Peixe”, que do outro lado do pátio o observava. Com seu estilo de militar, chamou o menino e o repreendeu severamente. Mandou que os colegas se afastassem e voltassem às salas. E começou o sermão, bem ao seu estilo áspero. Até que falou para o aluno ficar ali e foi para a diretoria. Sem entender o que estava acontecendo, o “réu” – vamos assim chamar – ficou ali, olhando o movimento parado de frente para o estádio Louis Ensch, na Vila Tanque. O diretor volta com uma vasilha de cola, e dá a ordem: - “Olha só, você só vai embora hoje daqui quando conseguir colar este galho na árvore. No mesmo local em que ele foi arrancado”. Ordem dada, ordem quase cumprida! 4 horas da tarde, 5 horas e dá o sinal para o final da aula. E lá estava o aluno, com os braços cansados de tanto segurar um ao outro, e as mãos trêmulas, tentando colar o galho naquele tronco. E ele suava, sob os olhares de sargento do Seu João “Peixe”. Todos já tinham ido embora e só ficaram o diretor, o aluno e seu pai. Obviamente que o galho não foi colado, mas aquele episódio, com certeza, serviria como exemplo para toda a vida àquele jovem. Ou seja, nunca mais arranque o galho de uma árvore. Sem contar a surra que deve ter tomado em casa.


E, passados muitos anos, precisamente em 2012, estava eu e o amigo José Roberto da Paz, no “Bar do Waltinho”, bairro Santa Cruz, numa sexta-feira, saboreando uma feijoada, acompanhada de uma cerveja e uma canjibrina. Nisto chega um colega, também chamado Zé Roberto, residente no bairro. Apresento-o ao xará, que logo se lembram do tempo que fizeram juntos o Senai. E papo vai, papo vem, começamos a nos relembrar de alguns causos do Seu João “Peixe”, quando diretor da escola. E falo do caso do aluno que tentou colar o galho no tronco da árvore. Surge uma tremenda gargalhada. Era o Zé Roberto, do Santa Cruz. Afinal, teria sido ele o protagonista do causo. Não teve coisa melhor na noite, e vimos o quanto este mundo é pequeno, ainda mais numa mesa de bar (rs)”!