Social - 1 de outubro de 2018

O SUIÇO

Stanley Baptista de Oliveira

Em Belo Horizonte, eu estava num órgão da Prefeitura para resolver um problema relacionado ao IPTU, assentei-me ao lado de um senhor magrelinho, usando camiseta regata, bermuda, sandálias tipo franciscana, boné com propaganda de loja. Rosto com rugas, pelancas no pescoço e um bigodinho ralo. Mal assentei-me ao seu lado, ele falou que o atendimento estava péssimo, demorado, muita burocracia, atendentes sem educação.
- Eu não moro no Brasil, moro no exterior, não estou acostumado a ser mal atendido.
Olhei surpreso para ele, sem conseguir imaginar em qual país ele morava, usando roupas tão simples e uma aparência, digamos, tão suburbana.
- Eu moro na Suíça, em Genève, há 18 anos, respondeu à minha pergunta.
- Geneve, Suíça, falei, sacudindo a cabeça, incrédulo.
- Meu nome é Moacir. Tenho uma irmã que mudou-se para Genève há 20 anos, casou-se com um suíço e eles têm uma pousada. O negócio deu certo, ela me convidou para trabalhar na pousada onde faço todos os serviços de manutenção, cuido do jardim, ajudo na portaria, carrego malas e outras atividades. Vim ao Brasil, depois de 18 anos, para resolver uns problemas com a casa que minha mãe deixou como herança depois que morreu.
- Como você está achando o Brasil depois de tantos anos fora?
Ele olhou para mim, fechou a boca numa careta, custou um pouco para responder.
- Estou assustado com muita coisa. No segundo dia que cheguei a Belo Horizonte fui assaltado na rua, roubaram minha carteira, relógio (suíço), tênis e me bateram com a coronha do revólver na cabeça. Tirou o boné para mostrar a ferida. Levei seis pontos.
Depois falou que estava impressionado com tanta gente na rua, tantos carros, tanta buzina, tanto barulho. Horrorizado com as mulheres usando “shorts” tão curtos, falando palavrões, bebendo cerveja nos bares e fumando mais que os homens. Irritado com quase todas as pessoas andando e falando ao celular, aos berros, uma verdadeira praga, a gente é obrigada a ficar escutando aquele papo furado até dentro de elevadores! Estou assustado, irritado, com medo, doido para voltar para minha Genève.
Levantou-se, despediu-se e foi ao guichê quando o número da sua senha foi chamado.
Fiquei olhando aquele brasileiro afastar-se, canelas finas, pés magrelos dançando nas sandálias, bonezinho de pano barato na cabeça. Pensei nos brasileiros que, ao contrário de Moacir, terão que continuar morando no Brasil, convivendo com as coisas que o assustaram e que também me assustam, aborrecem, irritam. Lembrei-me de duas cenas que assistira hoje ao chegar a Belo Horizonte, vindo de Monlevade, e que jamais ocorreriam na Suíça: um carro muito bonito, Volvo, ultrapassando outros carros, pela contra-mão, na ponte sobre o rio das Velhas. Pouco depois, na Serra, bairro onde tenho meu apartamento, outra cena: um automóvel da marca Mercedes-Benz estacionou na vaga destinada a deficientes físicos, cadeirantes da Drogaria Araújo. Desceu um senhor muito bem vestido, acompanhado de uma garotinha, atravessou a rua, entrou na “lotérica”, depois na papelaria ao lado, onde permaneceu uns quinze minutos, depois voltou ao seu carro com a garotinha e foi embora na maior desfaçatez.
Aqui no Brasil é assim, Moacir, e a tendência é piorar.