História - 1 de outubro de 2018

NOSSA TERRA NOSSA GENTE

Professor Dadinho



IGREJA DE SÃO JOSÉ OPERÁRIO: UM TEMPLO HISTÓRICO (IV)

São os sinos que anunciam para os fiéis da Igreja não apenas a Hora do Ângelus e o horário das missas, mas também suas festividades e eventos mais significativos e importantes. Não é, entretanto, apenas por esse motivo que gostaria de ouvi-los tocar neste final de setembro, excepcionalmente festivo para a Igreja Primaz de João Monlevade. E é primaz mesmo, porque a primeira no tempo. Igreja Matriz, cada paróquia tem a sua, mas em João Monlevade, que abriga quatro paróquias, a Igreja Primaz é a de São José Operário, que sedia a paróquia mais antiga.
É exatamente na esperança de que os sinos toquem festivamente conclamando toda a população para a comemoração do Septuagésimo Aniversário da ereção canônica da Paróquia de São José Operário, que continuo revisitando as “lápides” da belíssima publicação, patrocinada pelo Arcebispo Dom Helvécio em 1945, dedicada aos operários monlevadenses. Principalmente porque vou focalizar, daquela publicação, a página – ou lápide - que registra a inscrição inserida nos Sinos de nossa Igreja. Aproveitando o ensejo, vou ilustrar, com pequena crônica, a bênção dos sinos, ocorrida em 1946, na Festa de São José, um ano e meio antes da inauguração da paróquia.

I – Lápide contendo a inscrição dos sinos
Texto latino:Locus iste sanctus est in quo orat sacerdos - Inscriptio campanae cui nomen Eligius - Helvetii baculus me fecit vocem canoram olim qua cecinit malleus Eligii. Pastorali baculo Archiepiscopus Helvetius, benedicens, hanc tetigit campanam, quae sonitum nunc edit pium, quo artífices Monlevadenses invitantur ad ecclesiam. Malleo ferrum percutiente, ictibus resonabat officina Sancti Eligii, qui operariis sociis magno erat probitatis exemplo et justitiae.

Texto traduzido:/b> Este é um lugar santo onde reza o sacerdote - Inscrição do sino chamado Elói - Foi por ter-me tangido o báculo de Helvécio que eu canto Santo Elói na voz de seu martelo - Ao sagrar este sino, o Arcebispo Dom Helvécio tocou-o com seu báculo pastoral, e desde então um sonido de piedade chama o povo devoto de Monlevade para a Igreja. É a mesma voz de piedade que ressoava na tenda de Santo Elói, quando seu martelo vibrava no ferro, e sua alma se moldava reta e santa para exemplar e modelo dos operários de então e de hoje.
Comentário: Nesta página, como nas outras, a frase que inicia o texto está dividida em duas metades no alto e em seu rodapé: trata-se de trecho do responsório da Festa da Dedicação da Igreja (na realidade do Ofício Divino ou Liturgia das Horas), que assim se expressa em sua versão completa: “Este lugar é santo, e nele reza o sacerdote para o perdão dos delitos e dos pecados do povo”. Novamente em pauta o poder da oração, e é para a oração que o sino, tocando, nos convida. A seguir o texto informa que Dom Helvécio, tendo tocado o sino com seu báculo de pastor, fê-lo soar para chamar o povo monlevadense para a Igreja. E prossegue: o som deste sino é o mesmo que soava na oficina de Santo Elói, o qual, enquanto malhava o ferro, moldava também a sua alma para servir de modelo a todos os trabalhadores.

II – Os Sinos da Igreja de São José Operário
Existem quatro sinos na torre da Igreja de São José. No dia em que o Arcebispo Dom Helvécio os abençoou, em 19 de março de 1946, festa de São José, algumas pessoas da sociedade monlevadense, especialmente ligadas à Companhia Siderúrgica Belgo Mineira, construtora do templo, foram convidadas para serem seus padrinhos. Cada sino tem um nome, conforme o santo a que foi dedicado. Observe-se que o tamanho e peso do sino tem menos relação com a santidade do padroeiro a que foi dedicado que com a importância e notoriedade de seu padrinho. O Sino Santo Elói (800 kg), foi apadrinhado pelo Dr. Louis Ensch; o Sino São José (420 kg), teve como padrinho o Dr. Joseph Hein; O Sino Maria Santíssima (240 Kg), foi inaugurado pelo Dr. Paulo Gonzaga; e o Sino Santa Bárbara (175 Kg) foi o arquiteto da Igreja, Dr Yaro Burian, que o apadrinhou.
Os sinos de nossa Matriz, apesar de diferentes no tamanho, no peso e no nome, contêm uma mesma inscrição em relevo, um dístico latino da lavra do Pe. Pedro Sarneel, latinista exímio, então professor no Colégio do Caraça: “Helvetii baculus fecit me vocem canoram / Olim qua cecinit malleus Eligii”. Observe o prezado leitor que é o mesmo dístico citado acima, encontrado na lápide analisada na primeira parte dessa crônica. Esse dístico, com tradução reproduzida na referida publicação, recebe aqui, conforme registros no Livro de Tombo da Paróquia, tradução excelente feita pelo próprio autor do texto latino, ficando assim em português: “Porque me tocou o báculo sagrado de Dom Helvécio, / Eu agora faço ressoar a voz piedosa e forte de Santo Elói”.
O Pe. Sarneel, presente à inauguração, deixou belo relato, transcrito cuidadosamente pelo jovem pároco Pe. Higino, no Livro de Tombo da paróquia: : “Sua Excia, rodeado de seu clero, rezando e cantando as orações do Pontifical, lavando primeiro, por fora e por dentro, com a água que ele mesmo antes benzera, os quatro grandes e artísticos sinos, ungindo-os em seguida, cada um por sua vez, com o sinal de doze cruzes, lançou, finalmente, nos enormes fogareiros colocados em baixo, punhados não só de incenso, mas ainda de várias substâncias perfumadas. Enquanto a fumaça cheirosa e sagrada enchia a parte interior dos sinos, o Senhor Arcebispo e os padrinhos fizeram vibrar pela primeira vez, com o auxílio de fitas presas aos badalos, os bronzes assim purificados e santificados, cujas notas harmoniosas, “fá”, “lá”, “dó” e “ré bemol”, retumbaram durante alguns minutos nas duas naves da igreja, enchendo os corações de santa alegria”.
Imensamente feliz com essas informações sobre a história da construção deste templo santo, que me aprouve recolher, compartilho-as com o prezado leitor, que certamente delas não tinha conhecimento. E volto, agora com ênfase redobrada, ao desejo apenas insinuado no início dessa crônica: Como gostaria de ouvir os sinos dessa Igreja Septuagenária cuja imagem está perenemente gravada em minhas retinas! Tomara que eles retumbem com mais frequência por esses dias, marcando os setenta tempos de sua história. E tenho certeza: “nossos corações se encherão de uma santa alegria!”