Variedades - 1 de outubro de 2018

Dr. Ensch: Humano, demasiadamente humano

Afonso Torres da Silva
Antes que os infundados ciúmes de Dª Ceci fossem afastando, aos poucos, o Dr. Ensch da Usina Monlevade, sua presença por aqui era constante. Sempre simples e cordial, percorria as secções cumprimentando a todos, muitos pelo nome, amigos que eram desde os primórdios tempos da Usina de Sabará. Homem de ação, empregava todos os esforços e pertinácia, sem esmorecimentos, em favor da grandeza de “sua” Usina que já se transformara numa verdadeira Universidade Siderúrgica, criadora e aperfeiçoadora de técnicos e operários, segundo o Dr. Edmundo da Luz Pinto e conquistando a posição de fundadora da siderurgia nacional, nas palavras do, então Presidente da República, Dr. Getúlio Dorneles Vargas.

Contando com a estima e simpatia de todos, cuidava de melhorar e ampliar as instalações, sempre atento ao seu amplo entorno, mas, quando as necessidades de serviço exigiam, ele podia tornar-se severo e intransigente

Entre 1921 e 1939 foram fundadas vinte e cinco empresas no ramo de siderurgia no país e a maior delas, para seu orgulho e contentamento, era a Companhia Siderúrgica Belgo Mineira.

A 9 de abril de 1941 foi fundada a Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda no Estado do Rio de Janeiro, se tornando um símbolo de progresso e marco industrial do Estado Novo. Sua proximidade de 100km com a, então, capital do país, a cidade do Rio de Janeiro, que estava iniciando a construção do “maior estádio de futebol do mundo”, o Maracanã, atraiu muitos dos nossos jovens operários para aquelas redondezas, entre eles o Nicolau Tolentino Monlevade ( o caçula da S’Anninha do Baú e do João Paschoal Monlevade) e o Mário Quaresma, irmão do Ayres Quaresma, que veio a falecer na Batalha do Monte Castelo, na distante Itália, durante a Segunda Grande Guerra, cedendo seu nome à Praça do Cinema. Era começo da exportação da nossa reconhecida mão de obra.

Dr. Ensch não se descuidava e fazia visitas a estas empresas recém-fundadas. Por cortesia, mas também com um velado intuito de comparação com a sua “Menina dos Olhos”.
Num desses retornos de viagem, chapéu na cabeça e bengala na mão passou pela Usina indignado, desferindo golpes de bengala por todos os lados, chutando tudo que encontrava pelo caminho, proferindo esbaforidos impropérios entre uma tragada e outra de seu permanente charuto, ocorrência aquela nada costumeira a seus fiéis auxiliares...

Cabeça ainda mais erguida, feito um pai a admoestar seus filhos impertinentes, o Dr. Ensch não fazia questão de esconder sua insatisfação, pelo contrário, exibia-as com o mesmo fervor que usava para insuflar animo a seus homens nas horas de dificuldades de outrora, ou mais!...

Motivo de tanta alteração? O desleixo que ia identificando em cada canto dos estabelecimentos por onde passava: peças em desuso abandonadas, estopas sujas de óleo e graxa, sujeiras do cotidiano acumuladas nos lugares mais inesperados foram alterando o humor do Grande Chefe, até que veio a explosão, enfim, achava aquilo tudo uma imundície só, principalmente se comparado com a organizada CSN, recém-inaugurada e sob administração de disciplina militar.

Assim era este nosso Grande Homem: humano, demasiadamente humano...