Especial - 13 de março de 2018

Causos, Casamento e a Mudança para Monlevade

Seu Geraldinho sempre foi comerciante, Tinha o tino desde criança. Afinal, quando ia para a escola, já levava no embornal, além das pedras para estudar Tabuada, cachos de bananas, que vendia aos professores e colegas de sala, a alguns contos de réis. Era para ajudar nas despesas pessoais. Mas trabalhou também como farmacêutico em Sem Peixe; com tecidos; na lavoura e na mata, com medição de madeira. Mas o forte era o comércio. Começou como empregado em Santa Cruz do Escalvado até montar seu próprio negócio num local que era conhecido como “Ponte do Soberbo”, à beira do Rio Doce. E foi ali, segundo ele, onde ficou por dez anos, que conseguiu juntar suas primeiras economias. Sua venda comercializava cereais, capado, um pouco de tudo. “Era um lugar pequeno, bem apertado. Mas tinha uma boa freguesia. E ali consegui juntar um dinheirinho bom”, relembra saudosista, como dos banhos diários às 5 horas da tarde nas águas do rio Doce. Ou caçando paca no meio da mata, já que atirar era seu forte. E isto o fez ter sucesso quando serviu Exército no Tiro de Guerra em Ouro Preto, onde foi considerado um dos melhores atiradores. Este fato ele também relatou com orgulho. Tudo bem colocado em sua memória. Relatou ainda outros casos, como este, que se dava sempre durante a safra da cana de açúcar, lá pelos anos 1930. “Fazia um frio danado na região de Ponte nova. E eu só dormia sem coberta, porque senão pegava no sono. Aí, quando dava por volta de 1 hora da manhã o frio me acordava. Levantava, pegava o candeeiro e começava a moer a cana para fazer a rapadura. Os empregados da fazenda acabam acordando também e falavam que eu não deixava ninguém dormir. Tinha de aproveitar a safra” (rs).
Outro caso que Seu Geraldinho fez questão de contar foi sobre o dia que parou de fumar. E nos surpreende com a riqueza de detalhes em sua memória de garoto. “Nunca me esqueço desta data. Era dia 3 de outubro de 1941. Às 7 horas da noite. Estava vindo da região de Urucânia, a cavalo, onde fui pagar uns capados que comprava para minha venda. Como não fumava na frente de meu pai, parei em frente à Fazenda do Soberbo, de minha tia, e ascendi um cigarro. Mas aí me deu uma dor terrível no abdômen. Suava e a dor aumentava. Joguei o cigarro fora e entrei na casa de minha tia. Ela viu que estava estranho e mandou eu jantar. Naquele tempo os fazendeiros guardavam aquelas carnes nas panelas para dar aos viajantes. Eu jantei e depois fui para casa. Cheguei por volta de 11 da noite e deu vontade de fumar. Mas peguei o cigarro seco e joguei tudo fora. Nunca mais fumei na minha vida e também a dor nunca mais voltou, graças a Deus”, disse em tom de alívio.
No entanto, chegava o dia da vida ficar mais séria e, como diz o ditado, “atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher”. E o amor de Seu Geraldo havia desabrochado ainda menino, quando já brincava com a prima de 1º grau, Maria Vieira Barcelos, um ano apenas mais nova. O namoro surgiu ainda na adolescência e eles se casaram em 23 de julho de 1933. Ele com 22 anos e ela com 21. As datas são todas memorizadas pelo Seu Geraldo. Diz na ponta da língua, sem pestanejar. O casal teve seis filhas moças. Delas, 10 netos, 18 bisnetos e 6 tataranetos.
Tendo conhecido João Monlevade em 1939, a passeio, Sr. Geraldo acabou mudando-se para a cidade do aço, exatos 20 anos depois, em julho de 1959, com a esposa e a família. Uma das filhas, a mais velha, “Naná”, casada com Oswaldo Gomes, já residia em Monlevade. O genro trabalhava na Belgo-Mineira. Sua primeira morada foi na Rua Paracatu, numa modesta casa. Depois mudou-se para a Rua Gomes Batista, e continua até hoje na mesma rua, tendo se mudado apenas de casa. “Recebi o convite de um amigo, o Anselmo de Oliveira Coura, Cicinho, para entrar de sócio em uma Mercearia na Praça do Mercado. Então resolvi me mudar pra cá. Era ali ao lado das Loterias do José Geraldo. Ficamos juntos por 9 anos na sociedade, até 1968. Aí desfizemos e montei meu próprio negócio, uma feirinha, na parte de cima da Praça, perto da Delegacia. Ali fiquei por 13 anos, até me aposentar, em 1981”, contou em detalhes. Ficou conhecida como a “Feira de Seu Geraldinho”, que vendida de tudo um pouco, ente doces, queijos, leite, ovos, condimentos, temperos, amendoim, balas, linguiça etc. Uma verdadeira Venda do Interior! E, segundo ele, o movimento era muito bom. “A gente vendia bastante. Tinha de fechar o caixa pelo menos umas três vezes por dia. Lembro que uma vez fui roubado por um açougueiro. Ele me levou 3 maços de notas. Mas não tinha como provar e fiquei no prejuízo. Mas no geral era bom. E tirando esse episódio, era tranquilo. Demoramos a ter portas de aço. Antes fechávamos a barraca só com lona e ninguém roubava nenhuma mercadoria. Era um tempo feliz, de gente boa e vizinhança honesta”, contou com olhos de saudade, lembrando de um feirante vizinho, que abriu sua barraca de frutas e verduras em 1969, ao lado da sua, Sr. Michael Maroun e a esposa D. Regina. Ele lembrou com saudade do casal, e foram grandes amigos.
Mas, mesmo aposentado, não se afastou do trabalho. Logo depois foi convidado pelo genro, Geraldo Cota (Macogel) e Teotônio Cota a trabalhar no Supermercado Comil. Devido à vasta experiência na área, trabalhou como controlador na reposição de mercadorias até o ano de 2000. E depois ficou ainda por cerca de 4 anos trabalhando na Macogel Material de Construção. Ou seja, somente abandou de vez a labuta aos 93 anos de idade, mas ainda com muita disposição e saúde. No entanto, mesmo com idade avançada, nunca abriu mão de uma cervejinha e uma cachaça, conforme relataram uma das filhas e um dos netos que estavam presentes durante a nossa prosa, em sua casa, , próximo à Igreja Velha de Carneirinhos. Segundo eles, até os 100 anos ainda tomava uma cachacinha. E hoje, de vez em quando ainda bebe um copo de cerveja e um vinho, mas sempre alimentou-se muito bem.
Assim é uma parte da história deste grande homem, um exemplo e lição de vida. Um católico fervoroso, de muita fé. Ah, outro importante detalhe e quase passo batido: assim que cheguei à sua casa e iniciamos a conversa no sofá da sala, a primeira coisa que Sr. Geraldinho me confessou foi o seguinte: “Sou Carijó. Aqui é Galo desde pequeno, viu. E nosso time, depois da vitória de domingo (referia-se aos 3 a 0 sobre o América) vamos melhorar”. Fiquei mais à vontade para iniciar a entrevista (rs). E, antes de deixar sua casa, pedi para que ele desse um conselho aos mais jovens. “Não deixem a bebida e o cigarro tomarem conta de vocês, jovens. Se começarem novos, o vício os dominará. Sejam moderados. E mais: trabalhem, mas procurem ter uma profissão. Tenham responsabilidade para criarem suas famílias. E muita fé em Deus”.
Sr. Geraldo e D. Maria viveram 78 anos de um lindo e abençoado Matrimônio, entre a Família, a Igreja, o Trabalho e a Comunidade. Dona Maria se foi em 2011 e sua obra a tornou imortalizada. Foram exemplos e deixaram um legado a ser seguido.