Opinião - 14 de maio de 2018

O Bingo de São José e o Pau D Água

Coluna da Cora

“O Passado não é aquilo que passou. O Passado é o que ficou daquilo que passou” (Tristão de Atayde)



O tempo marca devagar, mas passa tão depressa! Só a saudade não passa, ela é para sempre.



O Padroeiro São José Operário marcou a história da amada terra natal. E vamos desfilando o rosário de recordações: as brilhantes e devotadas festas do Santo, as imensas e compactas procissões pela adorável João Monlevade, este “Pedacinho do Céu”! O saudoso pároco Padre Higino voltava naqueles vais-e-vens incansáveis, ora à frente, ora ao meio, ora no final da procissão. E lá ia São José Operário, no bonito andor, carregado pelos fiéis devotados.



O nosso sábio Pastor, Doutor da Igreja, sempre dizia: não podem faltar a Banda de Música e os foguetes. Era então, aquele foguetório e a Banda de Música, a famosa “Furiosa”, encantava em todas as festas religiosas da amada terra. Naquele Ano Dourado, dia do aniversário do Padroeiro, aconteceria, após a Missa Solene, um atraente Bingo no adro da mais bela Matriz e da encantadora Gruta de Nossa Senhora de Lourdes, daquela bela época. Jorrava pelas pedras uma água límpida, que brotava lá do alto da verde mata. Bebíamos daquela água cristalina; nos benzíamos com fé e convicção no seu poder milagroso. Sentíamos benzidos e abençoados! Tradição e confiança no coração.



Era um dia 19 de março, dia de São José. Nos festejos, um grande e rico Bingo, com prêmios valiosos, doados pela magnânima Cia. Siderúrgica Belgo-Mineira. Na praça da mais bela histórica Matriz e de Nossa Senhora, tudo lindo e repleta de fiéis. Tão bela quanto o céu e o mar! Namorados de mãos dadas faziam juras de amor eterno. Era o máximo! O amor da mocidade perfumava o luar. E o calor da mocidade contagiava... O primeiro amor nunca se esquece. Quanta saudade! Recordar é viver! A terra amada era um mar sereno, iluminado de lua cheia. Gente boa, trabalhadeira, empreendedora da terra auspiciosa e altiva de Louis Jaques Ensch.



Começa assim o tão esperado e desejado Bingo de São José. O Cônego Higino era só sorrisos, só alegria. Volteava tal qual uma piorra, em cima do Palanque, arregaçando sua famosa batina preta. O Bingo seguia tranquilamente até que surge no meio da multidão, o afamado e divertido “Pau DÁgua”. Um bebum bem-bebido, conhecido por todos do Vale do Piracicaba. Morador da saudosa Cidade Alta, aonde tinha ele muitos amigos. De repente começa uma confusão das grandes. O inevitável e hilário tumulto sempre acontece quando o PauÁgua está pressente. Cada vez que o locutor-mor, Acrízio Engrácio, da Rádio Cultura – cuja sede ficava na Praça do Cinema – cantava uma pedra, o divertido e engraçado bebum gritava lá do meio da multidão: “O quê? Fala direito! Repete! Não escutei nada”... Ai, Padre Higino intervém e o Bingo continuava. Mas logo, logo, o engraçado bem-bebido recomeçava: “Quê? 24? É veado”... E soltava gargalhadas estrondosas e quilométricas e a Praça também. Novamente o Bingo prosseguia e o bebum avacalhava de novo. E assim foi sucessivamente... “É. 6 ou 3? Fala com a boca aberta ‘home’. Tá sem dente carai... Ou tá com medo da perereca cair? 22? É pato n a lagoa. Igual a você, Acrízio. Seu pato depenado”. E era aquela “risaiada”! Alguns riam de rolar, já outros xingavam demais. E o Padre Higino já não aguentava mais. Pegou o megafone e disse: “Ô meu filho! Por favor! Não faz isso. Pára de avacalhar. É festa do Padroeiro, nosso amado José. Comporte-se, pelo amor de Deus”! E, quando todos acreditavam que o beberrão havia tomado tento, ele recomeçava. Assim, sucessivamente, o Bingo era interrompido. Então, não houve outro jeito. O Cônego Higino, que já havia admoestado, perde a paciência de vez e resolve tomar providência. Usa novamente o megafone e diz ao Pau DÁgua que ia pedir aos seguranças para retirá-lo da Praça. “Paciência tem limites”, falou bravo o Seu Vigário da Batina preta. “Pode chamar os meganhas”, seu Padre. Pode chamar os homi. Tô nem aí pro senhor. Daqui não saio e daqui ninguém me tira”, disse o bebum, rebatendo.



Uma cena cômica sucedeu-se. E o Pau DÁgua quase todo carregado pelos seguranças, provocando boas gargalhadas quando era retirado da Praça, com aqueles desaforos. Gritava: “Quer saber? Vão esses meganhas e esses homi aí de cima, pentear macacos. E o senhor, seu Padre! Vai também pros quintos dos infernos. E São José também”... Mas o furdúncio foi geral e a Praça da mais bela Matriz tornou-se uma Torre de Babel. “Ah! Você também seu cantador babaca de Bingo de São José. Puxa-saco, filhote de cruz-credo. Vai cantar Bingo lá na Rádia Curtura”! Era blasfêmia atrás de blasfêmia, mas com certeza o Santo deve ter perdoado o nosso amigo Pau Dàgua, descontrolado pelo estado etílico!



Legenda da foto:

Durante as festas de São José Operário, era comum as coroações.