Especial - 5 de junho de 2018

A História de Zé Paulo Bicalho: “Tem Base”?

Há uma história de que três portugueses deixaram sua terra-natal e resolveram se aventurar no Brasil. E um deles acabou aportando em Minas Gerais, precisamente nas terras de Carneirinhos. E aí conheceu uma bela brasileira, casaram-se e tiveram filhos, que se espalharam pelos recantos vizinhos de Santa Bárbara, São Gonçalo do Rio Abaixo e João Monlevade. E este português tinha o sobrenome de Bicalho!


“Tem Base”? Assim começa a história de um desses descendentes dos Bicalho, o Senhor José Paulo Bicalho, popular “Zé Paulo”, conhecido por este seu tradicional jargão (Tem Base?) e que provavelmente herdou de alguns cidadãos nascidos em Abaeté, que aqui aportaram para trabalhar na Usina da Belgo-Mineira. Ele mesmo, que no próximo dia 26 de junho completará 79 anos de idade, e muito bem vivida.


Nascido na Fazenda do Morro Vermelho, município de São Gonçalo do Rio Abaixo, é filho do lavrador Manoel Dias Bicalho e da dona de casa Maria Alves Bicalho, e veio de uma família numerosa, de 11 irmãos, sendo o 3º mais velho. Mesmo aposentado, tem sua fazenda no pé da serra, na divisa de João Monlevade com São Gonçalo, onde vai todas as manhãs cuidar das criações e fazer um cafezinho no fogão a lenha, acompanhado do queijinho que ele mesmo produz. E ainda faz sua montaria e volta para a cidade antes do almoço, onde reside há anos no Bairro Santa Bárbara. Viúvo, 4 filhos e 4 netos, sempre brincalhão e sorridente, e não abre mão de sua cervejinha diariamente, seja no “Pé de Porco” (bar do irmão Manoel), no “Bar do Filó”, no “Magalito” ou no “Oficina da Carne”, seus pontos certos, e nem dispensa um bom namorinho (rs).


Zé Paulo, meio homem do campo e meio homem da cidade, que desde criança começou na labuta. Saía cedo de sua casa, na zona rural próximo às Pacas, e ia a pé até a Vila Tanque vender verduras e bananas que eram cultivadas na horta caseira e bem cuidada pelos seus pais. De lá até a Vila dos Engenheiros e terminava o dia na Pensão Grande, na Cidade Alta, e de lá voltava, também a pé, com o balaio vazio. Missão cumprida!


Mas como sempre foi um batalhador, e de correr atrás do que queria, assim que alcançou certa idade foi trabalhar em uma Carvoaria nos Pena. Mais tarde comprou uma carroça e começou a vender lenha. “Tinha uma carroça e vendia lenha em vários pontos da cidade. Pouca gente em Carneirinhos e na região possuía fogão a gás e isso fez com que eu ganhasse um bom dinheiro na época. Mas anos depois arrumei um caminhão e fiquei por dois anos puxando carvão para Mariana, Ouro Preto, Sabará. Era muito trabalho, mas dava prazer”, contou sorrindo um pouco de sua vida profissional.

Da estrada para o Churrasco

No entanto, a grande paixão de Zé Paulo, além da família e dos amigos, é o seu churrasco. Pode-se especular que, como caminhoneiro puxando carvão, a matéria prima que carregava na carroceria de seu caminhão o transportaria para a vida de churrasqueiro. Mas tudo começou assim que abriu seu 1º açougue, em 1968, quando tinha 39 anos de idade, ali na Avenida Getúlio Vargas, em Carneirinhos, em frente onde está hoje instalada a agência do Banco do Brasil. Foram 15 anos na profissão de açougueiro.


Segundo Zé Paulo, em conversa que tivemos no Bar e Restaurante “Pé de Porco”, sua lida no açougue fez com que se transformasse em um exímio churrasqueiro. E tinha serviço a semana toda. “Os primeiros convites surgiram do amigo e saudoso Nico Fundão, e comecei a fazer muito churrasco para engenheiros que moravam em repúblicas ali na Vila dos Engenheiros. A turma que largava às 15 hs. da Usina chegava e eu já estava lá, com a picanha e o lombo de porco na churrasqueira”, disse ele. Daí em diante, conforme relatou, não parou mais. Diariamente tinha churrasco para preparar na Avenida Aeroporto. Mas também muitas vezes era convidado para fazer algum churrasco em Belo Horizonte, na casa de parentes de engenheiros da Belgo-Mineira. E também em cidades da região. “A coisa chegou a uma maneira que às vezes tinha até três churrascos para fazer num dia. E muitos noivos, antes de colocar o papel na Igreja, primeiro marcava a data comigo para agendar o casamento. Tem base”? Estas são palavras do grande Zé Paulo que, segundo relatou, não por acaso se transformou no churrasqueiro mais famoso e qualificado da região, e passou os seus ensinamentos à frente, entre eles para seu irmão Luiz Bicalho, popular “Luiz do Açougue”. “Como tinha muito serviço, sempre costumava levar Luiz para me ajudar, e hoje ele se transformou neste grande churrasqueiro que é. Herança de família”, concluiu. E sua lida como churrasqueiro durou mais de uma década.


Este é o José Paulo Bicalho, que foi casado com Marisa Aparecida Bicalho, falecida há 23 anos. O casal teve os filhos Marilde, Cláudia, Marlene e Carlos. E estes lhes deram os netos Giovana, Heitor, Luiza e Otávio. “Sou muito feliz e grato a Deus por tudo. Infelizmente minha esposa se foi, mas ficaram os filhos maravilhosos e agora os netos. Uma linda família! E mais: tenho meu cantinho na roça, onde preparo meu feijão com quiabo no fogão a lenha. Monto meu cavalinho. E ainda à noite tomo minha cervejinha e converso com os amigos, ou jogo uma partidinha de buraco. Não é mesmo? Reclamar de quê? Tem base neste Zé Paulo”? (Rs).

Legendas:
Zé Paulo, durante nossa conversa no “Pé de Porco”