História - 5 de junho de 2018

VIAGEM DE TREM

Stanley Baptista de Oliveira

No meu tempo de criança, só viajamos de trem. No Brasil da minha infância não havia estradas asfaltadas, isto é, só existiam duas: a Rio-Juiz de Fora, chamada “União-Indústria”, e a Rio-São Paulo, a “Via Dutra”, que eram estradas estreitas, cheias de curvas, com pouco trânsito de veículos. Existiam poucos carros no Brasil e estes eram todos importados. As viagens de ônibus eram terríveis, pelas estradas de terra, com muita poeira ou muita lama onde os ônibus ficavam atolados nos dias de chuva. Avião? Só para os ricos e corajosos. pois era caro e perigoso voar nos Douglas DC-3, que partiam de aeroportos primitivos, improvisados, mal equipados. Então, naqueles anos das décadas de 1940 – 1950, viajei muito de trem, que era o meio de transporte mais utilizado no nosso país. As estradas asfaltadas e os primeiros automóveis fabricados no Brasil só começaram a aparecer a partir de 1956, quando Juscelino Kubitscheck de Oliveira era o Presidente da República. É bom relembrar essas coisas, nós que participamos do progresso e da industrialização do Brasil nos últimos 60 anos. E estou relembrando da primeira vez que viajei sozinho de trem, sem acompanhantes: eu tinha apenas 12 anos de idade e fui de trem de Belo Horizonte, onde morava com meus pais, para Carangola, na “ Zona da Mata” de Minas, visitar meus parentes. Embarquei em Belo Horizonte num trem da Estrada de Ferro Central do Brasil, com seus vagões grandes, bonitos, pintados de vermelho escuro e puxados por uma possante e imponente locomotiva a vapor, conhecida como “Texas”, bitola larga, apito bonito – TÔÔÔMMM. Eu viajaria naquele trem até a cidade de Três Rios, onde teria que pernoitar para, no dia seguinte, pegar outro trem que vinha do Rio de Janeiro com destino a Carangola.
Lembro, com nitidez, daquela viagem. Eu viajando sozinho vendo a paisagem passando pela janela. O Chefe do trem picotando minha passagem com ar sério, cara fechada. A matalotagem preparada pela minha mãe, que eu ia devorando durante a viagem, pastéis, pão com carne. Desembarquei em Três Rios à tardinha. A estação de trem de Três Rios era interessante, pois ela servia a duas empresas ferroviárias, a Central do Brasil e a Estrada de Ferro Leopoldina Railway, um lado da estação para cada uma. Os trens da Central com vagões grandes, bonitos, locomotiva enorme e, no outro lado da estação, estavam os trilhos da Leopoldina, bitola estreita, vagões pequenos, velhos, cor amarelada, locomotiva pequena, barulhenta e com um apito de matar de vergonha-PIUIIII... Desembarquei em Três Rios, no estado do Rio de Janeiro, à tardinha e segui as orientações do meu pai: saí da estação, atravessei a rua e hospedei-me numa pensão bem em frente da estação, acho que “Pensão dos Viajantes”. Era uma casa velha, mas limpa, chão bem encerado. Peguei a chave na portaria e fui para o quarto, pequeno, com uma cama, um guarda roupa de madeira ordinária, uma cadeira, uma pia, um pequeno espelho pendurado na parede.
- Não saia do quarto nem saia do hotel, foi um dos conselhos que meu pai me deu antes da viagem. Pois saí do quarto e saí do hotel, levando a chave comigo, e dei uma volta pela cidade até a hora do jantar, que foi servido no refeitório de ladrilhos da pensão: sopa rala de legumes, arroz, feijão preto, bife, um ovo frito; de sobremesa, goiabada com queijo. Depois do jantar fui para o quarto e, por medida de segurança, encostei a cadeira atrás da porta com o encosto bem firme no trinco da fechadura, truque que aprendi num filme de faroeste. No dia seguinte, cedo, aprontei-me e fui para o refeitório tomar o café. Na mesa perto da minha estavam dois moços de bigodinho, que riam muito, pareciam ser muito amigos e alegres, contavam casos em voz alta. Depois do café – café com leite, um pãozinho, manteiga num potezinho de vidro – fui à estação da Leopoldina comprar a passagem de trem para Carangola e logo voltei para a “ Pensão dos Viajantes.” Na porta da pensão fiquei encantado, admirando um belíssimo automóvel ali estacionado, um Buick eight, ano 1948, cor preta, brilhando, novinho. O rapaz da portaria apareceu e ficou ao meu lado, também admirando o automóvel.
- De quem é esse carro? – perguntei.
- É daqueles dois caras que estavam na mesa perto da sua, Jararaca e Ratinho.
- Jararaca e Ratinho?
- Eles mesmos.
Era uma famosa dupla de cantores sertanejos, artistas de rádio, excursionando pelo interior do estado do Rio de Janeiro.
Às dez horas da manhã, embarquei no velho trem da Leopoldina e cheguei à noite em Carangola são, salvo e sozinho. Fui recebido na estação pelas duas tias, que me abraçaram e beijaram.
Fico relembrando aquela viagem que fiz, que não teve nada de aventura, não percebi ter passado qualquer situação de risco, de perigo e fico pensando qual pai permitiria hoje a um filho de 12 anos de idade viajar sozinho, fazer baldeação de trem, dormir numa “Pensão dos viajantes”... Hoje, tantos anos depois, tanto progresso, boas estradas asfaltadas, automóveis aos montes, ônibus e aviões maravilhosos, fabricados no Brasil, mas um Brasil cheio de bandidos, assaltantes, assassinos impiedosos, estupradores, traficantes de drogas, perigos sem fim. Um Brasil que progrediu muito no campo material, mas que perdeu a inocência, a pureza, o encanto, a poesia. Um Brasil sem os trens da Leopoldina e sem Jararaca e Ratinho.