Variedades - 8 de junho de 2018

BANDALHO MINEIRO

Afonso Torres da Silva (Baseado num dos “causos” de Tim de Souza)


O Trem Morgam, uma das muitas áreas da então CSBM, recebeu este nome em homenagem a um funcionário padrão, o “Seo” Morgam, um novalimense descendente de ingleses que trabalhou na secção elétrica da Companhia até os 83 anos. Num destes muitos dias de labuta, ao fazer reparo no motor a gás que auxiliava a manter a energia da usina limpando os enormes maçais, ele foi depositando numa lata ao seu lado a graxa queimada que ia, calmamente, como era de seu feitio, retirando do maquinário. A mecanicidade do ato lhe permitia ficar absorto, distaííííído da vida, talvez num desses devaneios próprios dos homens inteligentes e cultos, quando, entre uma mão cheia de graxa e outra se esvaziando na lata lateral, esbarrou em algo diferente o suficiente para alerta-lo que algo estava muito fora do lugar, diferente até demais!!!...
Cabisbaixo estava, cabisbaixo continuou. Temendo confirmar suas apavorantes suspeitas, chegou a fechar os olhos num gesto de negação do ocorrido. Como quem não quer nada, olhou de soslaio e deu de cara com o que mais temia: um sapato quarenta e quatro e lá vai pedrada polidinho, lustradinho que só sapato de chefe e uma engomada e, já nem tanto, branca calça de linho panamá de vinco impecável. Não deu pra segurar. Tremeu nas bases. Se já era miúdo, o gentil homem encolheu mais ainda – “Numa beca dessas só pode ser o Doutor!!!” – e, mal dos pecados: ERA!!! EM PESSOA!!! Nada mais, nada menos que o Superintendente Geral da Companhia Siderúrgica Belgo Mineira, o Dr. Louis Jacques Ensch. Ao vivo, a cores e, à esta altura dos acontecimentos, engraxado!!!
As glândulas suprarrenais já estavam derretendo seu impassível fleuma britânico numa super produção de adrenalina. Seu cérebro, meio atrapalhado pelo inusitado da ocasião, não sabia se produzia o necessário e indispensável cortisona ou se dava o urgentíssimo comando que conseguisse superar a natural, habitual e espontânea humildade do homenzinho.
Na esperança de remediar o irremediável, leva as mãos, às apalpadelas, ao chão à procura de uma estopa limpa ou de qualquer coisa que o valha nesta hora de aflição!!!... Reza p’ra “sua” Santa Margarida de Escócia e a todos os santos de seu devoto conhecimento. Tenta se desculpar ga-ga-ga-ga-guejando. Engole seco, tremendo feito vara verde, mais vermelho que peru cachaçado em véspera de Natal, pôs-se a se atropelar nas próprias palavras:
- “Ái, meu Jesus Cristim, cumé qu’eu fui fazer uma coisa dessas!!!... Como, meu Santo Homem, que um trem desses acontece logo comigo?!!.... Nem com todo o salário do mês eu pago uma calça dessas!!!... Tô perdido e mal pago, minha Santa Mãe!!!... Que qu’eu tô dizendo, meu Deus!!!... Desculpe, doutor!!! Mil desculpas!... Já, já eu dô um jeito nisso, limpo esta sujeirada que eu mesmo arrumei com minha falta de atenção!!!...
Te juro, doutor que isso nunca me aconteceu, pode perguntar pro pessoal da área!!!... E, pros seus botões, se acontecesse, dava-se um jeito, mas, agora, com um homem desse, o chefe de todos os chefes, amigo íntimo do excelentíssimo senhor Presidente da República do Brasil, o Dr. Getúlio Vargas, sem falar que priva de amizade também com o ilustríssimo jornalista Dr. Assis Chataubriant e o respeitadíssimo poeta Paulo Mendes Campos... Tô perdido!!!... Quer mesmo saber?: eu tô é mais que perdido!!!...
Tão embaraçado estava que nem sequer percebeu o divertido semblante de sua incauta vítima se transformando em seu salvador de última hora: recolocando o seu indefectível chapéu na cabeça, o charuto torto no canto da boca, o Dr. Louis Ensch reagiu tomando-lhe as estopa das mãos, foi logo dizendo entre sonoras gargalhadas:
-“Ô, Morrrgam, parre logo com isso, homem de Deus!!!... Eu é que terr que me desculparrr!!!... Deix’ qu’eu mesma limpa esta merda toda, Afinal – disse bandalheiro – erra é quem fica perto de quem tá trabalhando ou de quem tá cagando, hô, hô, hôôôôôô!!!!...