Especial - 3 de julho de 2018

“Tião de Zaquinha”: Uma História que começa na “Fazenda dos Perdidos”

Por Marcelo Melo


Nascia ali, na “Fazenda dos Perdidos”, no dia 10 de agosto de 1936, o menino batizado como Sebastião Neves Martins, o 5º rebento de uma família de nove filhos, sendo 7 homens e duas mulheres. Os pais: Isaac Cassimiro Gomes e a mãe, Izabel Maria de Jesus. Seu Isaac era da região de Santa Rita de Pacas, onde foi nascido e criado, e a mãe, Dona Maria, era de Monlevade, criada no antigo lugar conhecido como “Jacaré”, hoje o Bairro Rosário. Naquela época era comum os homens se casarem com mulheres bem mais novas e no caso deles não foi diferente. Seu Isaac tinha 42 anos de idade e Dona Maria apenas 13 anos. Tanto que o enlace matrimonial se deu apenas na Igreja e somente cinco anos depois puderam se casar no Cartório.


Sebastião Neves Martins é um nome pouco conhecido, mas a alcunha “Tião de Zaquinha” é bem popular. Casado com Ida Senna Martins há 35 anos, ele é um dos pioneiros na arte da corretagem de imóveis em João Monlevade e região, sendo responsável pela instalação do 1º loteamento na cidade, quando ainda era distrito de Rio Piracicaba, em 1962, que deu origem ao Bairro Miramar, próximo ao Loanda. Depois de te feito o Ginasial no antigo Ginásio Monlevade, foi estudar na cidade de Santa Bárbara, onde formou-se no 2º Grau e retornou a Monlevade. E, antes de entrar definitivamente na área de corretor de imóveis, trabalhou com Olaria e Pedreira. Hoje, ele e a esposa administram a “Martins Imóveis”, no mercado desde 19...






As viagens do pai aos Documentos Históricos






Em conversa que mantivemos na cozinha da residência de Tião, sempre simpático e sorridente, ele relatou casos curiosos vividos pelo seu pai, saudoso Isaac Cassimiro e que tem seu nome gravado na história de João Monlevade, em uma rua do Bairro Loanda. Muito trabalhador e tino de comerciante, o seu pai acabou juntando dinheiro e adquiriu 33 Alqueires de terra na região do Loanda, e ali construiu a sede da Fazenda, na década de 1930, que levou o nome de “Perdidos”. Segundo Tião de Zaquinha, o nome surgiu pelo fato de uma senhora ter se perdido na mata. “Naquela época, havia muita onça na região e durante a Semana Santa, as donas saiam na mata para apanhar folhas de árvores. Havia uma lenda de que estas folhas, colocadas nas casas na sexta-feira da Paixão, protegiam as pessoas contra os relâmpagos durante o período das chuvas. E em uma dessas saídas, uma das senhoras se perdeu, provavelmente foi devorada por uma onça”, relatou. A sede da Fazenda era muito bonita, com muitos quartos e era um cartão postal. Ela foi demolida a partir do início dos anos 1960, quando a Cia. Siderúrgica Belgo-Mineira adquiriu o terreno e a Cia. De Melhoramentos construiu o Bairro Satélite. Uma década depois era construído no exato local onde era a Sede, o Conjunto Habitacional José de Alencar.


Mas, contando um pouco da vida de Seu Isaac Cassimiro, ele tinha como profissão o comércio de mulas. A cada 40 dias, aproximadamente, ele levava um ajudante e colocava os animais na estrada, saindo de Monlevade até o Espírito Santo, na região próxima a Colatina, onde negociava as mulas. Tião conta que lá sempre se acomodava na casa de um amigo, conhecido como “Coronel Paralon”, um homem baixo, tranquilo, mas que comandava a região com pulsos forte. “A gente era pequeno e papai ficava contando os casos de sua viagem. Era comum naquela época as tocaias e matavam muito por causa de brigas por terras e por posse de animais. Na época também não havia nota e eles recebiam em moedas e havia riscos constantes de assaltos durante o retorno para casa. Mas papai nunca andou armado. Durante os mais de 20 anos na mata, entre Monlevade e o Espírito Santo, transportando suas mulas, ele carregava sempre seu Terço, que levava no paletó”, contou Tião. Para ele, a fé em Deus e em Nossa Senhora sempre o protegeu. Ele na estrada e nossa mãe cuidando da Fazenda e dos filhos, e nós sempre na lida, ajudando uns aos outros.


“Tião de Zaquinha” tem em seus guardados documentos centenários e que marcam a história dos impressos desde as antigas anotações das contas correntes, das cadernetas feitas dos fiados nos armazéns, dos documentos das coletorias que registravam as receitas municipais e até o título eleitoral de seu pai, datado de 1903. Uma relíquia e que ele guarda a sete chaves. E até mesmo uma sentença proferida pela Justiça da Comarca de Ponte Nova, datada de abril de 1916, onde o juiz encerra um processo após a suspeita do roubo de uma Mula (Matéria publicada nesta edição à Página 03), que no mínimo é hilária para os tempos modernos, mas que para a época era comum ocorrer.


Sobre tais documentos, Tião afirmou que “faz parte de nossa história. São documentos raros e que têm uma importância enorme, principalmente para os colecionadores e historiadores. Meu pai sempre guardava esses documentos e eu deu sequência ao costume e sinto-me recompensado”.


E, felizmente, esta história foi preservada, assim como os documentos, pois é imprescindível dar continuidade à obra para que a memória jamais se apague. O patriarca, Seu Isaac Cassimiro Gomes, viria falecer em 1959, aos 70 anos de idade. Já a matriarca, Dona Maria, viveu até os 104 anos de idade, e muito lúcida. Morava na Avenida Getúlio Vargas, no centro de Carneirinhos, onde recebia a visita constante dos filhos, netos, bisnetos e tataranetos, além dos amigos, sempre carregando um sorriso nos lábios e uma história no coração, contou Tião, e acompanhou, no dia a dia, o crescimento de sua cidade, onde viu o progresso chegando, mas também a destruição de muitas coisas que eram para ser conservadas. Tanto que, para Sebastião, seria gratificante se fosse construído em Monlevade um Museu de Som e Imagem, onde pudesse estar preservada toda a nossa história, entre documentos, fotografias, artigos, livros e depoimentos de pessoas que deixaram aqui a sua obra.





Legenda:


Sebastião Martins, popular “Tião de Zaquinha”, e sua paixão pelos documentos