Opinião - 3 de julho de 2018

A Missão

Stanley Baptista de Oliveira
Outro dia, na televisão, vi aquelas imagens pungentes do Papa João Paulo II na sua visita à Polônia, onde ele pediu que os católicos do mundo rezassem por ele, para que ele tivesse forças para cumprir sua missão. Fiquei emocionado ao ver, naqueles poucos minutos, o Papa caminhando com dificuldades, apoiado num andador de metal; sua cabeça curvada por causa da cifose na coluna dorsal; o esforço para olhar para frente e para cima por causa da cifose, consequência da idade avançada, da artrose e possível osteoporose da coluna vertebral; seu andar trôpego, sem controle, por causa da doença de Parkinson. Aquela era a imagem do Papa que aparecia na televisão, de causar pena, tanta fragilidade num homem que já foi tão forte e dinâmico. Ele pedia que rezássemos para que ele tivesse forças para cumprir sua missão.
Aquela imagem de fragilidade mostrava, no entanto, toda a grandiosa força deste homem extraordinário. Era a verdadeira representação das palavras de São Paulo na segunda carta aos coríntios: “ ... porque, quando estou fraco, aí então é que sou forte”, ou seja, a força aparece nas horas de fraqueza.
Muitas e muitas vezes tenho lido nos jornais que o Papa João Paulo II irá renunciar ao seu cargo de Chefe da Igreja Católica devido a sua saúde precária; que alguns bispos e cardeais acham que ele deveria renunciar por não ter mais condições físicas para o exercício da sua função. Eu mesmo tenho pensado desta maneira e, no intimo, ficava criticando-o ao vê-lo, em tão más condições de saúde, viajando pelo mundo, na África, logo depois no Canadá, no México, em Honduras, agora na Polônia. Por quê não ficar quieto em Roma? Por quê expor-se tão frágil, tão combalido ao público, à televisão de todo o mundo? Agora, no entanto, ao vê-lo na Polônia pedindo orações para que tenha forças para cumprir sua missão, entendi tudo, passei a admirar realmente este homem notável. Penitencio-me por tê-lo julgado imprudente nas suas aparições, de certa forma ridículas, pelo mundo em suas viagens evangelizadoras, amparado em diversas pessoas, muitas vezes incapaz de terminar um discurso, incapaz de celebrar uma missa. Agora entendi tudo: o Papa João Paulo II tem uma missão a cumprir, tem que continuar lutando apesar de todas as dificuldades e adversidades.
Assim como João Paulo II, todos nós temos uma missão a cumprir na nossa passagem pela Terra. Quanto mais difícil a missão, mais forças serão necessárias em nosso íntimo, pois essas forças que precisamos para cumprir nossa missão não aparecem nos músculos fortes, nos ombros largos, na cabeça empinada. A força é interior, é a chamada força de vontade, que nos faz batalhar, continuar lutando quando tudo nos incita ao desânimo, à entrega, à fuga, ao fracasso. Muitos desistem por causa da pedra no meio do caminho, não cumprem a sua missão. Outros, os fortes, os corajosos, insistem, perseveram, lutam, continuam na batalha apesar das suas fraquezas com o objetivo de cumprir a missão que receberam. Há algum tempo, li um livro chamado “No ar rarefeito”, de Jon Krakaver, mostrando os desafios da escalada do Everest, a mais alta montanha do mundo, no Himalaia, a mais de 8.800 metros de altitude: a difícil escalada, o frio terrível, a neve, o gelo, a fome, as noites sem dormir, o ar rarefeito, com pouco oxigênio, as quedas, as mortes de companheiros de escalada, tudo de ruim para conseguir chegar ao topo da montanha, vencer o desafio. Uma descrição perfeita dos esforços necessários para atingir um objetivo, cumprir uma missão
Assim é o exemplo que o Papa João Paulo II vem dando ao mundo, a todos nós, católicos ou não: lutar, persistir, perseverar, prosseguir, resistir, não desanimar, não entregar os pontos por maiores que sejam as dificuldades, as dores, o sofrimento. Cumprir a missão!
& Esta crônica eu escrevi em agosto de 2002, mas seu significado permanecerá para sempre, por isso resolvi publicá-la hoje.