Gerais - 31 de julho de 2018

A História de um “Point” chamado Rampas

Por Marcelo Melo.


Um dos mais tradicionais bares e restaurantes de nossa cidade foi, sem dúvida alguma, o “Rampas, localizado ali na entrada do morro do Geo, à Rua Siderúrgica. Estava abaixo do Hotel Cassino e entre os hotéis Monlevade e Siderúrgica. Um lugar de onde se contam muitas histórias, como as várias cargas de arame que caiam das carrocerias do caminhão – devido à subida íngreme – e iam parar dentro do bar. Teve um caso de um conhecido nosso que tentou parar um rolo de arame com o pé, para evitar que o seu carro fosse amassado. Imaginem no que deu! E mesmo algumas carretas que não conseguiam subir o morro e voltavam. Vários foram os fregueses do Rampas, operários da Usina, que tiveram prejuízos com os seus veículos danificados e dizem que houve registro de vítimas diante dos constantes acidentes que ocorriam “meio” de morro, e voltaram ao “pé”de morro. Mas nem isso afastavam os fiéis fregueses do bar.
No entanto, antes mesmo de o tradicional batismo de “Rampas, ali no local funcionava o “Bar do Daniel”, o famoso Daniel do “Suspensório”, que não os tirava nem para dormir. Na época do Daniel, os maiores frequentadores do estabelecimento eram os gringos, que desciam do Cassino para saborear as delícias da culinária do lugar e as bebidas quentes. No entanto, na década de 70, o empresário Laudelino Fonseca e o comerciante Antônio Cota adquiriram o estabelecimento, que se tornou, por muitos anos, o point monlevadense. E a clientela foi se diversificando! O bar passou a ser mais frequentado pelo proletariado, ou seja, a classe operária; diariamente desciam da Usina os “peões” que largavam às 15 e às 23 horas. Mas é brincadeira, porque a chefia também batia seu ponto no Rampas. Não tinham como não frequentar a Casa. Lugar de uma boa prosa e garçons educados e muito espirituosos, como Jair Batuta, Monsueto, “Salário Mínimo”, Pelé, Orlando, Eli e outros, que ficaram famosos pelos jargões criados. Cada prato ou cada bebida tinha um apelido peculiar: Coca-Cola era “Detergente”; filé era “Rodovia Belém/Brasília”; cachaça era “Antibiótico”; ampola era “Cerveja”; pinga com limão era “Vitamina C”. Sem falar ainda no “Suco de Urubu”, que era o café; na “Catraca de Canhão”; que era o conhaque; na “Frutinha Penosa”, o ovo; no “Sonrisal”, o marmitex e, para finalizar, o “Freio de Mão”, famoso e tradicional PF (Prato Feito).
Era muito prazeroso se assentar na calçada ou mesmo no primeiro ambiente ou ainda num reservado que havia ao fundo, onde se ficava de frente para a Rua Beira-Rio, suas mangueiras e o rio Piracicaba. Avistando a Matriz São José Operário, as pontes de madeira. Ali, ao fundo, uma pintura mágica, feita a quatro mãos pelos artistas plásticos e saudosos Gerhart Michalick e Márcio Diniz. Pintada sobre a parede do Rampas, a Lagoa do Aguapé, e muitos fregueses viajavam ao olhar aquela pintura e o Omar era um deles. Segundo conta Cláudio “Santa Bárbara”, quando ele (Omar) tomava uns goles acima da média viajava na pintura e dizia que era como se estivesse assistindo ao filme “A Lagoa Azul” (rs). Mas o próprio Cláudio, daquela varanda, cismava de querer pescar no rio Piracicaba, mas a distância... Causos do antigo Rampas de uma Culinária diferenciada!
Afinal, ali se degustava o melhor “Risoto de Frango” do Brasil, banhado do puro Azeite de Oliva. Dizem as más línguas que houve um tempo que o azeite não era muito comum ainda nas mesas brasileiras e o preço, salgado. Laudelino e Antônio então determinaram: - Risoto servido com azeite tem um preço maior (rs). O bife “Tala-Larga”, um santo filé, cujo apelido veio dos pneus tala-largas, muito usados naquela época pelos playboys. Sem contar o Tropeiro e aquele churrasco nos espetos! Hum... E se tomava a cerveja Antarctica produzida em Pirapora. Era a melhor, feita com as águas do rio São Francisco. Não adiantava chegar com a Antarctica do Rio de Janeiro que não colava. Tinha de ser da fábrica de Pirapora. E ponto final. Como exigia o saudoso frequentador assíduo Pedrosa, tinha de abrir a garrafa na mesa, de frente para o freguês, e conferir a tampinha para ver se havia mesmo sido fabricada em Pirapora (rs).

Pois é, mas quantas saudades do Bar e Restaurante “Rampas”, de fregueses famosos e folclóricos, como Pedrosa (o mais politizado dos operários, sempre lendo o “Folha” e a “Veja”), Laércio “Santa Bárbara”, Lauro, Omar, Cláudio, Bem Hur, Poeta, Zé Geraldo (Gordo), Gilson, Seu Eduardo Dias, Henriquinho, Lourival, Leonardo Diniz, Antônio Ramos, Caiana, Rubens Celino, Aroldo, Joel e tantos outros, de carteirinha, saboreando a Antárctica de Pirapora.

Hoje, muita saudade!

Legenda:


Nos bons tempos do Bar e restaurante Rampas, os saudosos fregueses Seu Eduardo Dias e Lourival, acompanhados do garçom “Pelé”, sempre presente e que se tornou uma figura folclórica do estabelecimento e amigo de todos que ali frequentavam.