Especial - 31 de julho de 2018

Sr Ildeu Caldeira: Uma História e um Legado entre o Trabalho e a Família

Nascido na vizinha cidade de Santa Bárbara, em 27 de fevereiro de 1925, o menino Ildeu Alves Caldeira era o caçula de uma família de outros cinco irmãos, filhos de Lucindo Alves Caldeira e Zulmira Pinto Caldeira. O pai trabalhava em uma Selaria, na fabricação de selas, e também possuía um pequeno açougue. Com os filhos ainda crianças, mudaram-se para Florália, então distrito de Santa Bárbara, trabalhando nos mesmos ofícios, e depois para o município de São José da Lagoa, que mais tarde passou a se chamar Nova Era. A família mudou-se para João Monlevade no ano de 1936, em busca de melhores condições de trabalho, já que eram iniciadas as obras de construção da Usina da Belgo-Mineira, cuja Pedra Fundamental havia sido lançada em agosto de 1935, ou seja, um ano antes. O menino Ildeu tinha 11 anos de idade. O pai, Sr. Lucindo, veio a convite de um amigo para assumir o comando de uma Pensão que serviria refeições aos escriturários da Campolina, empresa responsável pelas obras de terraplanagem.
Durante mais de uma hora e meia de prosa no sofá de sua sala, Sr. Ildeu Caldeira nos recebeu com a simpatia e receptividade do anfitrião de sempre. Passava pouco mais das 7 da manhã e, antes de iniciarmos a conversa, um cafezinho para começar bem o dia. De uma lucidez de fazer inveja a muitos jovens, ele começava a relatar a sua história, desde a infância da sua terra natal, até chegar ao Acampamento do Campolina, a primeira moradia da família em Monlevade. “Eram tempos difíceis, mas saudosos. Quando aqui chegamos era tudo mato e fomos morar nas barracas, de pau a pique e sapé, que foram construídas para os primeiros operários que aqui vieram trabalhar. Havia o Acampamento do Campolina, onde morávamos, e o Acampamento do Ângelo, cujos nomes surgiram porque os responsáveis pelas obras de terraplanagem eram Raimundo Campolina e Ângelo Evangelista. O lugar onde foi construída a Usina era tudo mato, onde se pegava cavalos e havia muitas árvores, além de onças que apareciam constantemente na região”, disse Seu Ildeu, relatando ainda que os irmãos mais velhos, Carlos, Otacílio e Juventino, assim que chegaram a Monlevade começaram a trabalhar com José Silvério, que era o responsável pelo serviço de cortar a mata. “Eles eram pinantes, ou seja, puxavam carroças com o material retirado”, explicou.
Fã incondicional de Getúlio Vargas, Seu Ildeu Caldeira dizia da paixão que o presidente tinha com a Usina da Belgo-Mineira. “Naqueles tempos o Brasil importava de tudo e foi aqui e em Sabará que nasceu a siderurgia nacional. Assim Getúlio Vargas vinha de trem “teco-teco” (como era chamado na época) só para visitar a Usina de Monlevade, que na época foi a 1ª empresa integrada do Brasil, ou seja, que produzia da matéria-prima (no caso o minério de ferro) até o produto final. E lembrou de uma passagem interessante que marcou sua infância, na visita que o então presidente Getúlio Vargas fez a Monlevade, no dia 20 de julho de 1937, quando registrava-se a primeira corrida de gusa produzido no alto-forno 1. “Ele seguia rumo à Estação Ferroviária para retornar a Belo Horizonte, onde a viagem de trem durava naquela época 3 horas, e era seguido por crianças. E eu estava lá, quando de repente um menino, carregando uma cesta de taquara vendendo doces e quitandas, aproximou-se e Getúlio Vargas pediu que ele vendesse tudo que havia dentro do cesto. O presidente deu então uma nota de grande valor para a criança e jogou as balas e doces para a meninada. Foi uma grande festa vê-lo entrando no trem e todos ali sorrindo. Lembro-me dessa cena como se fosse hoje”, disse saudosista. E o fato, por essas coincidências da vida, teve como protagonista o garoto José Domingues, popular “Zé Teco”, um ano mais velho que Sr. Ildeu, e que era o menino que havia vendido os doces ao presidente Getúlio Vargas. A matéria foi publicada na edição de nº 165 do jornal, de abril passado, quando o próprio “Zé Teco” nos concedeu uma entrevista e relatou o ocorrido.
Outra lembrança que não foge à sua memória era a visita de um famoso e popular médico, Dr. Eliezer Batista, que residia em Rio Piracicaba, e vinha montado a cavalo atender as famílias em suas barracas na maior presteza. “Naquele tempo era só ele para atender e havia muitas doenças. Na verdade, éramos sobreviventes”, disse sorrindo.

Entrada na Usina e o Casamento com D. Irene


Antes se ingressar na Usina, onde já trabalhavam os irmãos, ele trabalhou primeiro como ajudante na Sapataria de um primo, chamado Colomi, e também ajudava o pai em um pequeno comércio. Foi admitido na Belgo-Mineira no ano de 1943, aos 18 anos, e sempre trabalhou na área de Mecânica. Mas os outros irmãos todos passaram primeiro pela Turma dos Tijolos, comandada pelo Sr. Teodomiro Formiga. E, dentro da Usina, outro grande mestre e ídolo, o Dr. Louis Jaques Ensch, lembrou Sr. Ildeu. Segundo afirmou, o operário de forma geral sempre teve uma admiração e respeito incondicionais pelo então diretor da Belgo-Mineira. “O Dr. Louis Ensch era um homem de ouro. Pessoa do bem. Hoje muito raro encontrar pessoas e patrões como ele. Tratava todo empregado com igualdade. A sua morte, durante sua visita a Luxemburgo, foi uma surpresa e um susto para todos nós, que trabalhávamos na Usina, como também para toda a Comunidade. E até hoje ninguém sabe informar oficialmente se foi ou não uma morte natural”.
Em Tempo: “Na época, juntamente com sua esposa e o engenheiro Caetano Mascaranhas, Louis Ensch viajou a Luxemburgo para tratar de assuntos ligados à empresa e lá veio a falecer no dia 9 de setembro de 1953. Mas antes, deixou uma carta pedindo para ser sepultado em João Monlevade e assim foi cumprido o seu último pedido. Seu corpo veio de translado em navio até o Rio de Janeiro, em viagem que demorava 16 dias, e de lá de trem até João Monlevade, e está enterrado no cemitério histórico, localizado no Bairro Vila Tanque. Durante os anos que resgato a história de João Monlevade, através do “Morro do Geo”, sempre me preocupo quando falo sobre a morte de Louis Ensch, pois sempre tive a impressão de que ele não teve morte natural. Afinal, é difícil imaginar que alguém possa deixar uma carta, com um pedido, sem que tenha a sensação que está para se despedi”.
Mas, além do Dr. Ensch, Sr. Ildeu disse que sempre teve bom relacionamento com todos os gringos que comandavam os setores da Usina, entre eles cita Germano, um alemão e que foi seu primeiro chefe direto, e José Vilmer. “Nunca tive problema de relacionamento com nenhum deles”, relatou.
No entanto, a vida deste pequeno grande homem começou mesmo a se modificar quando ele conheceu a sua cara metade, uma professora que veio de Itabira, onde nasceu, no ano de 1932, para lecionar em João Monlevade. A senhorita Irene Antonieta da Cunha e que passou a assinar Caldeira, após o enlace matrimonial, realizado em 28 de abril de 1954. Nesta época residia na Rua Tamoios e depois conseguiu uma casa melhor e o casal mudou-se para a Carijós, onde nasceram seus quatro primeiros filhos: Vilma, Gerson, Hilton e Adilson. Em 1973 eles mudaram-se para a Avenida do Contorno, Bairro Vila Tanque, onde nasceram os gêmeos Élcio e Lilian, e onde reside até hoje. Seu Ildeu sempre viveu entre o trabalho e família, aposentando-se da Cia. Siderúrgica Belgo-Mineira no ano de 1979, após 36 anos de serviços muito bem prestados, como ele sempre salienta. “Não tinha tempo para nada. Era serviço e casa, sem contar que por alguns anos também tive uma Farmácia, em sociedade com o irmão Juventino Caldeira. Compramos a Farmácia do Senhor José de Barros e foram 11 anos ali na Praça do Mercado”, lembrou saudosista.
Mas, nem mesmo o excesso de trabalho o afastou completamente da vida social. Tanto que fez parte do grupo dos 100 primeiros associados do Ideal Clube. “Lembro-me que fui convidado a integrar como sócio, e antes de se instalar na Praça do Cinema, o Ideal Clube funcionou no saudoso Hotel Monlevade, do Sílvio Santa Rosa, ali na Rua Siderúrgica. Só que demorei a frequentar porque não tinha uma roupa apropriada para frequentar os bailes. Somente depois de algum tempo eu e Irene começamos a frequentar o clube”, disse. E, falando em Rua Siderúrgica, Seu Ildeu destacou que as construtoras Christiane & Nielsen e a Carneiro Rezende foram contratadas pela Belgo-Mineira para construir todo o Complexo da Vila Operária. Mas que, com relação à Rua Siderúrgica, houve muita agitação e morar ali era um desejo de todos funcionários que ocupavam um cargo mais graduado, já que as casas foram construídas para o pessoal que veio da Unidade de Sabará. “Na época não havia mão de obra especializada e a turma de Sabará veio nos ensinar mesmo a trabalhar, a fabricar o aço. Assim, morar na Siderúrgica era para chefe, coisa de rico”, contou. Ah, tinha ainda um outro personagem da referida rua, o popular “Biriba”. “Era um garoto de recado e que trabalhava para o Sr. Moacir, no Hotel Siderúrgica. Só lá que havia um aparelho telefônico. Assim quando a recepcionista do Hotel recebia um telefonema para chamar alguém que morava na região, ela passava o recado ao Biriba, que corria para chamar a pessoa. Dai voltava e marcava o horário que ele estaria no local para atender à chamada. Era muito divertido”, finalizou Sr. Ildeu, com um grande sorriso.
Para finalizar esta boa e proveitosa conversa, fica aqui o nosso agradecimento pela mensagem e a história deste ser humano incrível, que perdeu sua grande companheira, Dona Irene, unidos em Matrimônio há quase 64 anos, no início do ano, mas que tem na força dos filhos e netos, em toda família e nos amigos, e na fé em Deus, um legado e a sua sustentabilidade.