História - 31 de julho de 2018

Dr. Mateus do Prata!

Stanley Baptista de Oliveira





Logo que cheguei a Monlevade, em janeiro de 1962, percebi que o médico mais famoso da região era o Dr. José Mateus de Vasconcelos, mais conhecido como Dr. Mateus do Prata. Eram muitos os clientes que eu atendia no ambulatório da Belgo-Mineira e no Hospital Margarida que me contavam curas milagrosas e outros feitos notáveis deste meu colega da vizinha cidade de São Domingos do Prata. Eu era recém formado, criado em Belo Horizonte, precisava de um paradigma, um modelo de médico do interior de Minas, já que me dispunha a clinicar também numa cidade do interior. Sendo assim, num certo domingo, combinei que iria almoçar com este médico tão afamado. Não me lembro o dia, mas deve ter sido depois do mês de setembro de 1962, quando me casei, porque a Marília foi comigo ao almoço. Chegamos ao Prata no meu jipe Willys 51, por volta das dez e meia da manhã. Fomos recebidos pela sua esposa, Dona Baíca, e sua filha Cristina, ainda solteira. Sorrisos simpáticos ao nos abrirem a porta. Entramos para a sala da casa, casa esta ampla e confortável, mas velha e sem sinais de riqueza, de luxo. O Dr. Mateus não estava, tinha ido ao hospital atender consultas. Ficamos batendo papo até que ele apareceu: um pouco mais alto que eu, forte, sorridente, aparentando uns 60 anos, os cabelos embranquecendo. Fiquei à vontade ao seu lado, ele contando casos do seu tempo de estudante de Medicina. Trouxe-me um álbum da sua formatura com retratos dos seus colegas. Logo na primeira página do álbum, vi o retrato do seu colega Achiles Cruz e falei: - Que coincidência, este seu colega é o pai do Achiles Cruz Filho, que se formou comigo na Escola de Medicina de Belo Horizonte!

O Dr. Mateus riu desta coincidência e contava casos da sua vida, quando vieram chamá-lo para atender um doente no hospital. Fui junto com ele, o hospital ficava a uns quatrocentos metros da sua casa. Lá, atendeu uma criança que chorava no colo da mãe. Lembro-me bem da cena por causa de um detalhe de certa forma engraçado: o Dr. Mateus atendeu a criança fumando, o cigarro preso aos seus lábios enquanto ele, com o ouvido encostado nas costas do pequeno cliente, escutava seus pulmões. Completou o exame clinico, escreveu a receita e a entregou para a mãe do menino.

- Oh, doutor Mateus, respondeu a mãe agradecida, muito obrigada. Amanhã eu pago ao senhor.

Antes que pudéssemos voltar para casa, ele atendeu mais quatro ou cinco consultas. Sempre risonho, atencioso, brincalhão, fez os atendimentos, prescreveu as receitas e de todos os clientes ouviu a mesma promessa: - Amanhã eu pago, doutor.”

Afinal, conseguimos voltar para a casa e logo D. Baíca serviu o almoço. Lembro-me de um cheiroso frango assado e macarronada, comidas que eu adoro. Mal começamos a comer, tocou a campainha da casa, Dr. Mateus levantou-se e foi atender. Uma pessoa começou a falar aos gritos com o médico. Da mesa, eu não entendia o que falavam mas, diante dos meus sinais de inquietação e apreensão, sua esposa deu uma leve risada e explicou que aquela pessoa gritando com seu marido era um velho bem surdo e que, todos os dias, passava em sua casa para contar as notícias do dia. Um filho deste velho, D. Baíca não sabia se por brincadeira ou ingenuidade, dera ao pai, de presente, um rádio. O tal velhinho, com o rádio em alto volume, incomodando muito seus vizinhos, acredito, ouvia as notícias e depois, em primeira mão, vinha contá-las ao bondoso e paciente Dr. Mateus... Quando ele voltou para a mesa, todos já tínhamos almoçado.

Na sua casa ficamos mais algum tempo, depois agradecemos as atenções que nos deram, além do ótimo almoço e Marília e eu voltamos para João Monlevade.

Na minha casa, naquele final de domingo, fiquei assentado, em silêncio, pensando no Dr. Mateus, na sua vida como médico na pequena cidade do interior mineiro.

- Por que este silêncio e esta cara triste? – perguntou Marília.

Olhei para ela e falei: - Não quero nunca ser um médico como o Dr. Mateus. Admirei muito suas qualidades, paciente, atencioso, prestativo, dedicado, competente. Ele atende bem os clientes, transmite confiança, sempre sorridente e brincalhão. Mas não gostei de vê-lo trabalhar tanto, num domingo, sem receber um tostão pelo seu trabalho!

Naquele dia prometi a mim que todos meus clientes teriam que pagar o valor da consulta antes do atendimento. Caberia a mim, dentro do consultório, decidir para qual cliente eu deveria devolver o valor da consulta total ou parcialmente. Prometi que iria atender gratuitamente apenas a cota diária de pobres trazidos pelos confrades da Sociedade São Vicente de Paulo. Fora estes, todos teriam que pagar pelo meu trabalho, pois esta era minha profissão e, com os rendimentos da minha profissão, eu teria os recursos necessários para constituir minha família e, com o tempo, formar um patrimônio como fazem todos os profissionais dos diferentes ramos de atividades. Lembrei-me das palavras do meu professor de Medicina Dr. João Galizzi, quando ele abordou este assunto da nossa vida de médicos: -“O médico tem que viver com conforto e dignidade, mas sempre sabendo que, na Medicina, o dinheiro deve ser o fruto do seu trabalho e não o objetivo principal do seu trabalho. O médico não pode ser mercantilista, mas tem que ter seu trabalho valorizado como qualquer outro profissional. No entanto, ele deve sempre lembrar-se que não deve trocar, jamais, sua consciência pelo dinheiro.”

Este meu encontro com o Dr. José Mateus de Vasconcelos, logo no inicio da minha vida de médico foi e continua sendo muito importante para mim. Do Dr. Mateus sempre tenho procurado imitá-lo nas fundamentais qualidades que o médico deve ter e que ele tinha em abundância: honestidade, generosidade, tratar os clientes com atenção, ser prestativo (sem ser subserviente), ser simpático (jamais arrogante), ser alegre e brincalhão (para deixar o paciente à vontade), tratar todos da mesma maneira (independente da cor, raça e condição social), fazer o exame clínico bem feito, pedir os exames necessários, receitar sem exageros ou modismos. Todas estas qualidades e outras mais, o Dr. Mateus exercitou durante sua vida e fizeram dele um grande médico, até hoje lembrado pelas pessoas que o conheceram.

Depois daquele domingo em que o conheci, mantive cordial e freqüente relacionamento com ele, tanto em São Domingos do Prata quanto em Monlevade quando ele aqui aparecia, principalmente nas nossas reuniões da Associação Médica, da qual foi excelente orador. Ao longo desse tempo, sempre aprendi muita coisa com ele, uma delas esta conduta que ele, sem perceber, me ensinou, ou seja, nunca deixar para receber amanhã o atendimento médico que prestei hoje.

Quando o Dr. Mateus morreu, além do choque com a perda de um grande médico, morreu também um grande amigo, um honesto e sincero conselheiro, uma pessoa que continua fazendo falta para todos que o conheceram, principalmente para seus clientes.



Legenda:



Na foto, à esquerda, o Dr. José Mateus de Vasconcelos, popular Dr. Mateus, que também foi prefeito por São Domingos do Prata. Aqui, ao lado do Padre Pedro Vidigal e do ex-presidente Juscelino Kubistchek