Variedades - 31 de julho de 2018

PARÓQUIA DE SÃO JOSÉ: SETENTA ANOS!

Os cidadãos monlevadenses – principalmente os cristãos católicos – estaremos comemorando neste mês de setembro de 2018 o septuagésimo aniversário de criação e instalação canônica da Paróquia de São José Operário, marco significativo da história religiosa da cidade.
A Matriz de São José Operário, ícone maior desta comemoração, agraciada pela população com o título de imagem-símbolo da cidade, tem sido ao longo desses anos não somente a casa de formação do mais autêntico espírito cristão e templo de oração e de celebração da vida de gerações e gerações de monlevadenses, mas também precioso relicário das mais vivas recordações de quem aqui viveu os verdes anos da infância e da juventude.
Apenas movidos pela memória afetiva, tentemos extrair desse precioso relicário algumas lembranças significativas desse tempo de bênçãos e de dádivas, já que resgatar a totalidade dessa história de educação e de fé é tarefa para pesquisador e cientista que se baseia na investigação criteriosa e detalhada de fatos e documentos.
A primeira imagem que nos vem à mente é formada pela singeleza e piedade de uma multidão de crianças em vestes brancas, que anualmente enchiam a nave desta Igreja, cantando com a simplicidade de suas vozes louvores a Cristo Sacramentado, no dia de sua Primeira Comunhão. É claro que tal festa era o coroamento de um trabalho muito sério de preparação e de catequese, realizado com competência por catequistas muito bem preparadas. Na formação das catequistas não se pode deixar de ver a figura das holandesas, inicialmente chamadas de Senhoras das Obras Sociais, posteriormente denominadas Instituto Secular Unitas, obra maior do Padre José Maria Drehmanns, as quais deixaram entre nós, inicialmente, traços de sua ação, no trabalho hospitalar e, depois, na catequese, na educação e no trabalho social, legando à cidade um marco físico e concreto de sua passagem entre nós: a ARPAS, centro irradiador de formação religiosa e social.
Firmemos um pouco mais a vista: o que vemos? As crianças de branco cresceram um pouco, e vemo-las agora, inquietos ginasianos, que vêm anualmente a este templo para fazer a sua Páscoa. São novos tempos. A Igreja viu que não pode limitar sua ação à parte religiosa propriamente dita: a educação de nível médio em João Monlevade é uma iniciativa da Igreja Católica. A constituição do Ginásio Monlevade, por iniciativa da Mitra Arquidiocesana, com o amparo e a proteção da Belgo-Mineira, representou um progresso de valor incalculável. Entre tantos professores que, sob a inspiração da fé católica, formaram as primeiras gerações de estudantes de nível colegial, um nome se destaca: o Padre Antônio Henriques de Albuquerque, Vigário Coadjutor, presença da Igreja na formação da juventude, primeiro no Ginásio Monlevade e, depois, no Colégio Kennedy.

Focalizemos ainda nosso olhar naquela imagem: ao lado das crianças, seus pais, mães, parentes e amigos, cristãos fervorosos que participavam piedosamente das Associações Religiosas: a Paróquia de São José, através de suas associações religiosas, preparou convenientemente seu laicato para o trabalho pastoral e não resta dúvida de que esse tempo é o embrião de uma forte característica de João Monlevade: dentro da diocese, é uma das cidades que tem um dos laicatos mais atuantes. E as raízes estão ali, naquela imagem que estou recuperando: os Coroinhas, a Cruzada Eucarística, as Filhas de Maria, o Apostolado da Oração, a Obra das Vocações Sacerdotais, a Irmandade do Santíssimo Sacramento, a Sociedade de São Vicente de Paulo e a Congregação Mariana. E os Coros Paroquiais: havia o Coro das Crianças dirigido por Dona Luzia (que não era ainda conhecida como Luzia do Cartório), na missa das oito e quinze; o Coro de São Luiz de Gonzaga, na missa das sete; e o grande coro São Pio X, comandado pelo Maestro José Silva, que atuava na Missa Vespertina.

Os coros Paroquiais... Imagem puxa imagem, lembranças acordam outras lembranças! Como brilhavam os coros paroquiais nas cerimônias da Semana Santa! Essa Igreja se enchia de fiéis de todas as partes da cidade. Sacerdotes de outras cidades e de colégios católicos vinham aqui celebrar a Semana Santa, atendendo a confissões, pregando sermões, participando das procissões e cerimônias litúrgicas, aqui celebradas com o mesmo ritual das grandes catedrais.
Agora as imagens se embaralham, misturam-se num jogo multifacetado de luzes e cores. Mas a gente firma a vista e procura delinear aquela imagem maior que a gente sentiu presente durante todo o tempo e que avulta agora na sua totalidade: a figura do Cônego Doutor José Higino de Freitas, figura ímpar na história religiosa deste município, pioneiro da fé e do ensino, artífice de tão maravilhoso trabalho, primeiro pároco desta Matriz. Antes de sua chegada a Monlevade, em 1945, Monlevade, então simples capelania, era servida pelo Padre Almir de Rezende Aquino, tornado Monsenhor e ilustre figura do Clero Diocesano de São João Del Rei. Coube, entretanto, ao Padre Higino, então jovem sacerdote, a organização da paróquia, preparando-a para a sua instalação oficial e canônica, que se deu em 25 de setembro de 1948. Organizado e metódico, dotou a paróquia de sólida organização; trabalhador, implantou todas as Associações Religiosas que se fazia mister; criativo, instalou nas dependências da casa Paroquial, nos anos cinqüenta, uma pequena estação de rádio com que se comunicava com seu povo; educador consumado, fundou e dirigiu o Ginásio Monlevade, berço da formação básica de milhares de monlevadenses; habilidoso, relacionou-se com todos os tipos de pessoas, só fazendo amigos e admiradores; estudioso, alimentava o espírito com sólida literatura religiosa que transformava para os fiéis em lições de sabedoria; piedoso e humilde, consagrou-se como sacerdote e guia espiritual de todos nós. Por trinta anos conduziu os destinos desta cristandade e só se afastou do pastoreio das ovelhas quando a doença lhe minou a saúde, provocando posteriormente sua morte.
E é com essa imagem que fecho o ciclo dessas lembranças, revisitando a paróquia de São José Operário, a dos nossos anos dourados, aquela que, por força do tempo, acabou se multiplicando nas paróquias de Nossa Senhora da Conceição, de Carneirinhos, de Nossa Senhora de Fátima, na Vila Tanque, e de São Luiz de Monfort, no Cruzeiro Celeste. É o reino de Deus que cresceu e se espalhou, ramificou e deu frutos como a semente de mostarda do Evangelho, que desabrochou e se transformou em árvore frondosa.
Que todos nós, gerações nascidas neste novo milênio ou que ultrapassamos os limites do milênio anterior, que todos nós, nascidos e criados à sombra dessa árvore frondosa, contemplados com o privilégio de celebrar esta história e esta data festiva, saibamos, com nossa fé, ação e trabalho, viver a vida que dela transborda.