Opinião - 31 de julho de 2018

Coluna da Cora

“O Passado não é aquilo que passou. O Passado é o que ficou daquilo que passou” (Tristão de Atayde)



Entrou o sol. Depois cerrou a noite escura. Depois, o céu salpicado de estrelas traz a lua que brilhando faz brilhar a abençoada terra-amada. E tudo se ia aclarando. A lua subia... subia... A noite estava de uma suavidade primaveril colocando nossa João Monlevade na beleza das noites mornas de luar, de lua cheia. Havia já uns toques de prata nos telhados, nas janelas, nas flores do jardim. Noite assim tão bonita me leva a sonhar... Recordar.

O primeiro beijo, o primeiro amor – a gente nunca se esquece – a primeira desilusão amorosa, o primeiro amigo; com a emoção da primeira vez de todos nós. E assim com o recordar, a saudade vem chegando alegre e com ela as Histórias de uma bela época, marcada pelo encanto de uma vida tranqüila, feliz, na então pacata e gostosa cidadezinha mineira, entre montanhas e riquezas minerais. Ainda celebrando a alegria dos setenta anos da matriarca Belgo-Mineira, de homens e mulheres, capazes de transpor obstáculos, construir e preservar uma apaixonante história, agradecendo a Deus por tantas graças e lendo a façanha contada pelos irmãos Mayers, Marc e Pedro, quando o pai e um amigo, quase adentraram-se no glorioso Cassino, a cavalo, lembrei-me de uma história incrível contada por meu paizão e seus amigos.

Bem jovens, solteiros, aqui chegaram em 1935, para trabalhar na Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira. Uma sólida amizade foi se formando. A empresa, desde aquela época investia em qualidade de vida não só no ambiente do trabalho, mas além deste. Preocupava-se com seus empregados e suas famílias – saúde, educação e moradia. E um futuro promissor desde então foi nascendo dentro da Belgo e na cidade construída por ela, que já mostrava-se sólida e vencedora. Um futuro que começava todo o dia. Uma vida de muito trabalho. Todavia foram vencendo todos os obstáculos postos no caminho do desenvolvimento. Aliada a essa vida de trabalho, uma vida social intensa, bela, sadia, alegre, ordeira e tranqüila nascia também. Desde menina eu ficava encantada ouvindo as histórias de minha terra, de seu povo e assim ia memorizando-as.

E a vida continuava... Cor-de-rosa ou não.

Contavam eles que além dos domingos de futebol, no Jacuí, passeios na Estação para ver o trem passar, bailes famosos no Hotel Monlevade, hora dançante, show de calouros, serenatas, piqueniques na Serra do Andrade, passeio no Campo de Aviação, e muito mais. Havia um divertimento predileto de moças e rapazes: andar a cavalo pelas ruas do Pedacinho do Céu. Era uma farra, gargalhavam. O passeio ao Jacuí, então, era o máximo. Os cavalos pertenciam ao Dr. Hein e moravam na cavalariça da Fazenda Solar. Bem tratados, esbeltos, de nobre e bela estirpe, gostavam de passear e faziam o maior sucesso. E nós também, se gabavam eles. Ah! Duas éguas faziam parte dessa valiosa cavalariça.
E assim iam acontecendo os famosos e divertidos passeios a cavalo, autorizados e apreciados pelo bom e saudoso amigo o Dr. Joseph Hein, Superintendente Geral da Belgo-Mineira.

Até que um belo dia chegou na cavalariça um hóspede novo. Presente do senhor João Horta, amigo do Dr. Hein. De pêlo afogueado, luzente, crinas fartas e compridas, porte majestoso, elegante, logo encantou a todos. Parecia usar brilhantina.

Aí, contavam eles: muitos dias se passaram e começaram as descobertas. O belo animal porque possuía uma estranha e aguda barbicha que fugia-lhe pelo pescoço, foi batizado com o nome de Cavanhaque, pelo amigo Hugo, já era motivo de variados comentários. Na Usina o assunto do momento era só o cavalo do Dr. Hein. As apostas já haviam começado. É ou não é? Será que ele é? E a turma ria de orelha a orelha. Cavalo assim nós nunca vimos, juravam meu pai e seu amigo Expedito Evaristo. Isto porque o bonitão Cavanhaque não deixava as moças montá-lo. Só os rapazes. As duas jovens e graciosas éguas eram também por ele desprezadas. Ficava até irritado quando se aproximavam.

O poderoso e bom Dr. Hein sem desconfiar de nada, exibia o Cavanhaque todo contente. Então, após tanta falação, tanta controvérsia, o fiel escudeiro João “Cachacinha” e tratador do Cavanhaque resolveu contar ao seu patrão Dr. Hein, as atitudes suspeitas do bonitão. Se alguma mulher ousasse montá-lo, empacava, emperrava e nada desse mundo o fazia desempacar. Preocupado com o comportamento do Cavanhaque, Dr. Hein então convocou alguns de seus amigos e lá foram eles: Totó Loureiro, Agenor Alves, Geraldo Pintor, Expedito Lage, Geraldo Brum, Hugo Silva, Etelvino Rocha, Elívio Bastieri, Expedito Evaristo, Otacílio Caldeira, Nono Batista, Vicente da Farmácia da Belgo Mineira. Chegando à Fazenda Solar, o Dr. Hein e o Dr. Parreiras já os esperavam. Como sempre acontecia, o querido Padre Higino, que sabia de tudo que se passava na cidade, lá foi ele também para a Fazenda. Uma cena bem divertida não esquecemos, contavam eles. Após examinar o Cavanhaque, olha daqui e dali, falação, risos, tanta controvérsia, a divertida turma chega ao diagnóstico final, já há muito desconfiado por eles: o afogueado Cavanhaque era transviado. Boquiaberto Dr. Hein vermelhou... Ah! Padre Higino tentou hipnotizar o Cavanhaque, todavia não conseguiu nem chegar perto. Rindo todos acharam que foi por causa da batina preta - pensou o animal que o Padre fosse uma dama.

Oh! Meu cavalo não é macho? Oh! É transgressor? Oh! Um transgressor na Fazenda Solar? Isso não... Repetia o Superintendente com aquele seu bonito sotaque europeu. E lá se foi o grande e saudoso amigo Dr. Hein, rindo e afirmando que ia devolver o presente transviado ao amigo João Horta.

Há muito comecei a bem querer nossa História. Hoje revivo-as, escrevendo-as no Morro do Géo, embrenhando-me num mundo fascinante de recordações, de memória e fotografia ampliada de um infinito baú de saudades e prazer. Embalo-me numa vida que marcou época. AFINAL RECORDAR É VIVER! É REJUVENECER!

Legenda:


Na rua Beira-Rio, ainda jovens, as professoras Conceição Malta, sua irmã Lilia e a alemã Ana Hebert, montadas nos cavalos que eram emprestados pelo Dr. Joseph Hein, então gerente geral da Usina de Monlevade.