Variedades - 31 de julho de 2018

Nem só de Flores se faz um Baile da Primavera!

Afonso Torres da Silva


Era tão contínua a convivência da população monlevadense nos idos “anos dourados”, que não há nenhum exagero ao afirmar que éramos uma grande família: aos domingos, usando nossas melhores roupas, era sagrado, estávamos todos lá na Matriz, juntos e piedosos na hora da Missa – homens à direita, mulheres à esquerda, adolescentes se misturando sob o coro e os rapazes mais “transviados” aos fundos, lenços a postos para não sujarem suas calças de linho ou casimira ao se ajoelharem na hora da consagração – invariavelmente todos estávamos lá. A seguir, hora dançante no Grêmio, ao som da discoteca comandada por Lau do “seu” “Santa Barbara”, enquanto as mães trocavam receitas e fofocas na cerca ou da porta das cozinhas. Todos estudavam nas mesmas escolas, as compras eram feitas nos mesmos mercados, o atendimento médico idem. Todos estavam sob os auspícios da “Mãe Belgo” (que também sabia ser madrasta quando lhe convinha...). A proximidade era tanta que se vivia este clima de “tudo junto e misturado”, embora uma certa seletividade rondasse obscura: “preto só entra no Social a serviço”, “pobre não entra no Cassino”, “mulher na Igreja, só de cabeça coberta” e outras pérolas falsas do imenso colar de obscenidades com o qual as sociedades julgam se enfeitar, quando, na verdade, estão mesmo é a se enfeiar (e muito)...
Pois foi por este tempo que o Dr. Albery (técnico do CAF, mas que gostava de ser chamado de doutor, como todos os engenheiros da Companhia.), marido de Dª Mercês Spinola (diretora do Grupo Escolar), e pai de cinco filhos: Wilson, Eleusa, Alberisinho, Aldo e Leisa (nossa “Garota de Ipanema”, de tão linda com seus longos cabelos negros, sempre acompanhada de Marília Policarpo, outra beldade, e Bebeto...), resolveu assumir a presidência do renovado Ideal Clube, prometendo “Tempos de Abertura”. Cidadão esclarecido, odiava toda forma de preconceito, principalmente os de cor e por isso se viu obrigado a enfrentar críticas, aturar xingamentos e muitos desaforos e, já que “cara amarrada não é garrucha armada”, não abriu mão de suas posturas e a campanha para angariar novos sócios efetivos foi um sucesso, embora desagradasse aos mais seletivos...
Chegou setembro e com ele o tão aguardado “Baile da Primavera”. Ternos e gravatas impecáveis, sapatos engraxados e polidos compunham o “social completo” exigido pelo Clube à ala masculina; já a feminina se antecipava em afazeres preparatórios: Dª Aldina Costa Pinho tinha que se virar com as encomendas das mais abastadas, outras disputavam vagas nas costureiras quase a tapas e puxões de cabelos; nos salões de beleza, quem não conseguia um horário antecipado, ia de véspera e dormia sentada para não desfazer as madeixas endurecidas de “laquê” e, quem não tinha recursos, se virava em casa mesmo com rolinhos e cerveja nos cabelos (algumas se esmeravam combinando a cor dos rolinhos com a blusa e o chinelo...).

No Clube o Dr. Albery era todo dinamismo: cuidava de cada detalhe para que nada saísse de seus intentos perfeccionistas e grandiosos, como ele próprio...

Chegado o grande dia, Praça do Cinema lotada, com gente saindo pelo ladrão: enquanto uns saiam da seção das oito ainda embalados pela música tema do filme e encantados com a coreografia do Fred Astaire em “Cantando na Chuva”, alguns curiosos ocupavam os balcões do Bar do Simões ou do Para Todos, tomando um “esquenta” e outros já chegavam ansiosos para o baile, se atropelando em frente a porta do Clube, cuja portaria não passava de um vestíbulozinho de uns dois metrinhos quadradinhos, se tanto, que antecedia uma escadaria de dezenas de degraus revestidos de madeira de lei devidamente envernizada.
Entre um como-vai-tudo-bem, seu-vestido-tá-lindo-o-seu-também, cê-viu-o-cabelo-de-fulana-e-o-sapato-de-sicrana e muitas outras destas banalidades que nem sempre são do coração, senão da convivência e da falta de assunto, um tal de Moqueca ali presente, (sujeito que se considerava da alta, distante demais da plebe operária, gás raro que não se mistura aos demais), cutucou a esposa espremida e espremendo a bolsa em meio a multidão ansiosa envolta em ternos e anáguas, brilhantinas e laquês, e falou sem se preocupar com quem ouvisse: “Isto aqui já foi bão!...” E, enquanto entortava o queixo em direção de um crioulinho todo empertigado, com a carteirinha de sócio do Ideal até estalando de nova nas mãos, pra não perder a rima, emendou: “Lugar de preto é no União”!...
Aah!... Pra que?!... Apertando ainda mais o nó da gravata novinha no gogó, o neguinho não se intimidou e foi logo retrucando, de olho no casal: “E lugar de galinha é no Zé Abade”!... Acontece que este era um conhecido recinto boêmio local, então não deu outra: o tempo fechou!... E era um tal de nome-da-mãe pra lá e um te-parto-a-cara pra cá, é-isso-que-dá-se-misturar-com-essa-gentinha, dexa’disso, falissonão e outras tantas besteiras ouvidas nestas ocasiões de ânimos descontrolados e mais empurra-empurra de rapazes engravatados e gritinhos histéricos de mocinhas embonecadas.
O tumulto logo atraiu a atenção do Professor Albery que se encontrava no interior do Clube cuidando dos últimos retoques no ambiente para que aquela fosse uma noite perfeita. Inteirado daquela sem-vergonhice na portaria de “seu” Clube, o homem perdeu as estribeiras e desceu que nem foguete pela escadaria que se estreitava ainda mais, incapaz de conter sua fúria e tamanha robustez – pois o Dr. Albery era um sujeito forte, na verdade, fortão pra caramba!... Desses que a gente encolhe só de olhar e fica pensando no tanto de proteína e fermento que o cara teve de consumir para crescer tanto!... Só mesmo com muito mocotó e um outro tanto de “Forteviron”... Não quis nem saber, foi descendo logo o cacete, distribuindo pescoção pra todo lado, a torto e a direito, provocando uma onda de gente a se espalhar além dos arcos da praça. Todo mundo tentando se conservar “nos trinks”, até que os ânimos serenassem e os fatos fossem devidamente esclarecidos. Sem sequer pestanejar o presidente do Clube tomou as dores do insultado e repreendeu o insultante, que, se sentindo injustiçado, caiu nas asneiras de chamar o referido de “Frango Cheio”. Não deu outra: o estopim, que já era curto, incendiou-se e, pra quem conhecia melhor o Dr. Albery, nem deu tempo de alertar ao incauto sobre o potentíssimo murro de direita que passou raspando na cara do Moqueca e foi bater direto na parede, onde ficou uma marca arrepiante, deixando qualquer um a imaginar como ficaria a cara do atrevido, caso aquele “direto’ atingisse o alvo almejado e, pra quem chegou depois, já com os sustenidos e bemóis da Orquestra do Macedo ganhando os ares com seus boleros e sambas-canções, entender o que aquela marca na parede tinha a ver com a decoração do baile primaveril era motivo para uma história a ser contada e recontada pelo resto da noite...
PS: No causo original, publicado na Revista Mostrar, consta Dr. Albeny.e não Albery. Fui a campo e, um dedo de prosa aqui, outro ali e sabendo da indiscutível capacidade, tanto histórica quanto literária, do Tim, cheguei à conclusão de ter sido um erro tipográfico, uma vez que ainda hoje é tão comum encontrá-los, imagine a trinta, quarenta anos atrás, quando se fazia uma “imprensa a lenha”, “catilografando” tudo numa Remington... E, prá piorar a situação, tínhamos um Albeny: o recatado Professor Fábio Albeny, casado com Dª Conceiçao, pais de Flávio, Cláudio e Gláucio, também alto e forte... Um nome próprio, outro, sobrenome, uma letrinha a diferenciá-los e a história vira madrasta da estória...

Baseado em causo do Tim!