Gerais - 4 de setembro de 2018

Carregando o Pálio

Stanley Baptista de Oliveira
A missa na igreja da Vila Tanque estava quase no fim, quando um dos acólitos aproximou-se de um senhor que rezava e falou baixinho no seu ouvido: - O senhor quer carregar o pálio depois da missa?
O homem entendeu mal a pergunta e assustou-se com aquele pedido meio esquisito.
- Carregar o padre? – falou num sussurro também mal entendido pelo acólito.
- É, depois da missa.
Sua mulher, ao lado, curiosa, quis saber que assunto era aquele.
- Ele quer que eu carregue o padre depois da missa.
- Carregar o padre? Ele está doente? – falou a mulher, olhando para o altar onde estava o padre aparentando boa saúde. – Ele é bem gordo... Será que tem outras pessoas para ajudar?
- Tem mais gente para ajudar? – perguntou o homem ao acólito que continuava ao seu lado.
- Tem, sim, vamos precisar de seis homens.
- Seis homens? Acho que vai ser difícil seis homens carregando o padre, um vai acabar trombando no outro, sussurrou, olhando para o altar, tentando calcular o peso do padre e avaliar como seis homens poderiam carregá-lo sem que um tropeçasse no outro.
- Seis homens são suficientes.
- Ah, entendi: dois pegam pelas pernas, dois pelas nádegas e dois pelas costas.
- Que foi? – perguntou a mulher.
- Nós vamos carregar o padre deitado, explicou para a mulher. Depois, virou-se para o acólito e perguntou: - Nós vamos carregar o padre pra onde? Pro hospital?
- Não, não, vamos carregar só dentro da igreja, dar uma volta lá no fundo e voltar pro altar.
- Uai, não estou entendendo. Que cerimônia é esta?
- Que foi? – quis saber de novo sua mulher, que não conseguia ouvir tantos sussurros e conversas ciciadas.
- Vamos carregar o padre só dentro da igreja, depois voltamos com ele para o altar.
- Que é isto? Parece brincadeira... Espichou o pescoço, deu uma olhada no acólito e cochichou para o marido: - Será que esse moço aí não está doido, não?
- Mas nós vamos carregá-lo deitado? – perguntou ao acólito.
- Não, de pé. Cada pessoa segura uma haste do pálio.
- Pálio? Uai, mas não é o padre que nós vamos carregar?
- Não, não, riu o acólito, baixinho. Nós vamos carregar é o pálio.
- Onde está o Pálio?
- Está lá na sacristia.
O homem ficou mais confuso e falou para a mulher: - Não é o padre que nós vamos carregar; vamos carregar é um Pálio.
- Carregar um Pálio dentro da igreja? – assustou-se a mulher. Seis homens para carregar um Pálio? Aí, ela não se conteve e falou para o acólito, em voz alta:- O senhor acha que meu marido e mais cinco homens vão aguentar carregar um Pálio dentro da igreja? Isso é alguma brincadeira?
O acólito assustou-se, pediu desculpas e, falando baixinho, disse que o pálio era leve.
- Leve? Um Pálio deve pesar pelo menos oitocentos quilos, falou o homem, tomando a palavra da esposa. – Oitocentos quilos ou mais. O Pálio é um carro pequeno, mas deve pesar daí pra cima!
O acólito teve um acesso de riso, chamando a atenção de outros fiéis. Do altar, o padre, interrompendo as orações finais, deu um severo olhar de censura para aquelas três pessoas que estavam perturbando o bom andamento da missa. O acólito, de novo sério, explicou que o pálio não era esse carro da FIAT, mas uma espécie de tenda de pano sustentada por seis hastes de madeira. Debaixo do pálio, o sacerdote vai carregando a custódia com o Santíssimo Sacramento, em procissão. Vamos precisar de seis homens, um para cada haste do pálio.
- Ah, sim, entendi, posso ajudar a carregar o pálio, sim.