Oscar Rocha: Um Homem e “Arquiteto” à frente de seu tempo! – Marcelo Melo

Na foto acima, em frente à sua casa, com a irmã Rita, que também foi solteira a vida toda. Os dois tinham uma comunhão de muita amizade

Quando estive pela primeira vez em Lavras Novas, no ano de 2005, o primeiro lugar que parei foi ali, no Bar do saudoso Serafim, no bonito gramado todo verde. O filme nacional “As Filhas do Vento”, gravado aqui no Distrito, com participações de Milton Gonçalves, Jonas Bloch, Taís Araújo e grande elenco, acabara de estrear no cinema. E era assunto no gramado, numa manhã de sábado. Entre um gole de cerveja e conversa com alguns nativos, contavam eufóricos sobre as gravações, a vinda dos atores na boa terra para o lançamento do filme e todo aquele glamour. E ouvia, atentamente e, desde aquele instante, sentia que algo de novo estava por vir e que meu destino um dia se cruzaria de vez com Lavras Novas.

Mas, além do filme, um nome me chamava a atenção durante a boa prosa. Era um tal de Oscar Rocha, apelidado por alguns no Distrito de Oscar “Niemeyer”, o grande arquiteto que mudou as formas do mundo. Isto em razão da relação profissional do famoso Oscar Niemeyer com o lavrasnovense Oscar Rocha. Ambos construtores, arquitetando a vida e seus ideais. E cada qual na sua lida, mas com um propósito, que sempre foi o de transformar sonhos em formas reais.

Seu Oscar, o daqui, de Lavras Novas, foi um dos primeiros construtores da região e usava uma técnica bem distinta na área da construção civil, que era de começar a levantar a casa de cima para baixo. Trabalhava sempre sozinho, sem qualquer ajudante. Ele mesmo produzia os tijolos de barro em seu quintal, arrancava cascalho na serra da Chapada e cortava eucalipto para fazer o forro e, depois da armação pronta, ele fazia pequenos buracos e jogava terra e cimento. Depois começava a subir as paredes. O alicerce estava pronto. E como Lavras Novas foi erguida sobre rochas, usava pouca fundação e nem carecia ferragem. Em menos de três meses, a casa estava concluída.

E assim ele foi construindo suas casinhas, sempre com o pé direito baixo. Aliás, quando aqui se chega pela primeira vez, como ocorreu comigo, naquele ano de 2005, a primeira impressão é justamente esta e fica a pergunta: por que as casas aqui em Lavras Novas são tão baixinhas? Alguns dizem que, em razão do vento, que é muito forte nestas montanhas. Dessa forma, seria por questão de segurança para evitar, por exemplo, derrubada de telhados e até mesmo de paredes. Mas, tomando como base as obras feitas pelo saudoso Oscar Rocha, dá para entender um pouco mais o motivo de as casas terem o pé direito tão baixo. Na época, talvez, não fosse fácil conseguir montar andaimes mais altos e, para facilitar a mão de obra, erguia-se o teto até onde as mãos alcançavam. Fica a dúvida. E outro detalhe: algumas casas mostram certa inclinação na base, que também seria por causa do vento. Foi a explicação que ouvi na época, ali no Bar do Serafim. No entanto, uma segunda justificativa eu considerei mais apta a considerar. A inclinação é pelo fato de o arquiteto Oscar Rocha nunca utilizar de prumo (instrumento usado para detectar ou conferir a vertical do lugar e elevar o ponto) em suas obras. A prova de que era um mestre, pois a inclinação é mínima e todas as casas que construiu sempre foram seguras.

Pioneiro do Turismo em Lavras Novas

Oscar Rocha nasceu em Lavras Novas no ano de 1920. Veio de uma família numerosa. Com ele, eram nove irmãos. Cresceu no lugar e, como a maioria dos nativos na época, começou a trabalhar muito cedo, ainda menino e uma de suas funções, era plantar eucalipto para a siderurgia produzir. Mas sempre esteve à frente de seu tempo. E daí, com uma visão futurista, resolveu trabalhar por conta própria, começando a vida de construtor.

Para falar sobre a história de Oscar Rocha, conversamos com duas sobrinhas: Rosângela Afonso de Oliveira Gomes, casada, 2 filhos; e com Ercy Rocha de Magalhães, também casada, 6 filhos, que moraram com ele e a tia Rita Rocha, por quase 30 anos. Solteiro convicto, ele sempre brincava, e dizia que “eu tenho 99 namoradas e meia”. A meia, contou a sobrinha Rosângela, é porque sempre havia uma que o relacionamento nunca acabava. “Mas eu mesma nunca conheci uma namorada sua”, contou a sobrinha, que guarda sua lembrança com muita saudade. Segundo ela, foi mesmo o pioneiro do turismo em Lavras Novas e tinha uma relação de amizade muito interessante com os jovens, que gostavam muito dele. Naquele tempo, década de 70, quando o turismo começava a chegar no Distrito, ainda bem acanhado, os que aqui chegaram primeiro foram os hippies, movimento que começou no Brasil após o Festival de Woodstock, realizado em 1969, na cidade de Bethel, estado de Nova York, nos Estados Unidos. O movimento do “Paz e Amor”, e aqui eles se encontravam. Foi ai que Oscar Rocha percebeu o potencial turístico que havia em Lavras Novas. A sobrinha lembrou de uma frase que ele sempre falava: – “Os vindouros de hoje têm de ter a cabeça para construir”. Ele já tinha a percepção de que o turismo seria a economia do Distrito. Inicialmente, ele alugava sua própria casa, assim como também fazia o saudoso Seu Domingos Lessa (Serra do Luar). Mas tinha uma lei: seu quarto nunca era alugado. “Jamais aluguem o quarto do casal ou do dono da casa. Só os cômodos dos agregados”, falava sempre. Mas, a cada final de semana mais turistas chegavam e assim Seu Oscar foi construindo e foram mais de três dezenas de casas que ele levantou em Lavras Novas. Eram sempre alugadas e mais tarde outras foram vendidas. Tinha muita sabedoria, mesmo sendo um semianalfabeto. Segundo Rosângela de Oliveira, ele sempre dizia que “eu não tenho letra, mas tenho treta”, referindo-se à sua forma de levar a vida e, além de muito trabalhador, tinha faro nos negócios.

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