O ex-vereador João Bosco Vieira Pascoal foi o presidente da CPI que investigou o caso da mulher abandonada na rodovia
As negociações políticas começavam naquele ano, já que em 1988 ocorreriam as eleições municipais, após seis anos. O PMDB queria que o vice-prefeito e médico Custódio Moreira de Alvarenga fosse o sucessor do prefeito Germin Loureiro e tinha o total apoio do Bio. Pelo lado oposicionista, o nome mais forte era do ex-prefeito e médico Lúcio Flávio de Souza Mesquita, que havia retornado a João Monlevade depois de ter residido um período em Belo Horizonte. O PTB queria lançar o vereador Vicente de Souza Dias Filho, “Tinô”, Nascia também o Partido Liberal, PL, do ex-ministro Aloísio Pimenta, formado por um grupo de monlevadenses que se reunia semanalmente e tinha como proposta provocar uma reforma geral na política local. A presidente era a psicóloga Martha Ebert Fontes e o médico Ricarbene Souza Pinto como vice. Do grupo, de forma indireta, participava o jornalista Márcio Passos, que dava uma espécie de assessoria ao partido, com sua experiência na área jornalística. Por sua vez, o PT saiu à frente e no dia 29 de setembro de 1987, aproveitando-se do fortalecimento sindical e lança oficialmente a candidatura do ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, Leonardo Diniz Dias – que havia se filiado ao partido naquele ano -, à Prefeitura de de João Monlevade às eleições municipais de 1988, deixando fora a professora Celeste Semião, candidata petista nas eleições de 1982.
Um caso, no entanto, surgiria para mudar os rumos da política local, bem como os nomes em volta da sucessão municipal. Tudo por causa de um fato que ficou famoso na época, de uma senhora que foi deixada por uma ambulância da Prefeitura às margens da BR-040, e passou a ser conhecido como “O caso da Louca de Monlevade”. A notícia surgiu como um presente para a oposição, e obviamente contra o governo do prefeito Germin Loureiro e do seu vice e diretor do Departamento de Saúde e Trabalho Social – DSTS -, Custódio Moreira de Alvarenga, nome natural do PMDB à sucessão municipal. O caso ocorreu no dia 13 de novembro daquele ano, quando uma Ambulância da Prefeitura de João Monlevade, conduzida pelo motorista José Roberto dos Santos, e acompanhado da funcionária Maria Perpétua, levava a paciente Neuza Maria Ferraz para um hospital em Belo Horizonte. Ela sofria de problemas mentais. Só que o destino da mulher não teria sido um hospital ou clínica especializada, mas, sim, a rodovia. Segundo informações da época, Neuza teria sido abandonada na BR-040, estrada de acesso ao Rio de Janeiro, próximo ao Viaduto da Mutuca, e o motorista e a funcionária retornaram para João Monlevade. Mas, pra azar deles, um motorista que passava pelo local avistou uma mulher andando na pista desorientada e correndo o risco de ser atropelada, comunicando o fato à Polícia Rodoviária Federal. Ela foi então resgatada da estrada e levada a um posto da PRF, quando se identificou e contou o ocorrido. Na barreira da Polícia Rodoviária, saída para Monlevade, a ambulância foi interceptada, e o motorista José Roberto foi obrigado a retornar para Belo Horizonte, onde Neuza Ferraz foi novamente colocada no veículo e encaminhada a João Monlevade. O caso ganhou manchetes nos órgãos impressos da grande mídia do Estado e até em telejornais da Globo e do SBT.
A denúncia acabou provocando a instauração de uma CPI na Câmara Municipal, a pedido do vereador João Bosco Vieira Paschoal, que, ao final dos trabalhos, acusou o diretor e vice-prefeito, de omissão e negligência no caso da “Louca de Monlevade”. Isso em decorrência do depoimento do motorista, tendo afirmado que apenas cumpriu o que lhe foi solicitado, já que a mulher – que residia numa zona boêmia -, vinha trazendo transtornos à população e dando muito trabalho ao Posto Médico, motivo pelo qual recebeu ordens para deixá-la à beira da rodovia. Dos 15 vereadores, 1 1 votaram favoráveis ao parecer da Comissão Parlamentar de Inquérito, e o único voto contrário foi do líder do prefeito na Câmara, Itamar Gomes Martins, que chegou a fazer um pronunciamento que ficou para a história, mesmo longe dos padrões morais. Disse, durante uma das reuniões que, “se fosse eu, mandava jogar esta mulher no rio, pois ela não vale o papel gasto pela CPI”. Já o Dr. Custódio Moreira de Alvarenga, não aceitando as acusações, defendeu-se veementemente e foi mantido no cargo. O prefeito Bio, por sua vez, também não fez nenhuma demissão. A situação, entretanto, era desconfortante para o governo, e aquele fato seria muito bem explorado pelo grupo de oposição. E não teria como não ser, afinal faltava apenas um ano exato para as próximas eleições municipais. Aquilo foi como uma panela de pressão prestes a explodir e o caso da “Louca de Monlevade” ainda ficaria na boca do povo durante alguns meses. E da Neuza Maria Ferraz, ninguém mais deu notícias.
*Do Livro A Saga: Memórias de um Jornalista do Interior” – Parte XVI
Autoria: Jornalista Marcelo M. Melo!
































