Na fotografia acima o saudoso e folclórico Seu Augusto, durante anos escolhido como o “Rei Momo” dos carnavais em João Monlevade. Aqui, ao lado da Rainha do Carnaval, Rita de Cássia Guimarães, no ano de 1973. Ainda na foto o vereador Wilson Vaccari, o filho Alcione, o prefeito Antônio Gonçalves, a 1ª dama Helena Gonçalves e as filhas Rosilene e Gláucia. Bons tempos!
É certo e notório que a Usina sempre teve seus personagens folclóricos que eram motivos de risos, causos pitorescos e queridos por todos. Dentre eles, figurou “Seu” Augusto (Augusto Batista Júnior), um cara alegre, bonachão, educado; um solteirão convicto e juramentado. Mas fazia suas andanças pelos puteiros da região. O fato é que não sei porque cargas d’águas ele lançou sua âncora aqui em João Monlevade, já que era malabarista de circo. E este povo nômade por profissão, dificilmente finca barraca em definitivo. O certo é que devidamente instalado de mala e cuia na Vigilância da empresa, tornou-se figurinha carimbada nos eventos e festividades da usina e da cidade.
Com seus quase 1,90 de altura, cento e tantos e cacetadas de peso, uma gordura socada e forjada pela mãe natureza, em anos de exercícios físicos e glutonaria, ele exibia seus dotes artísticos em diminutos e grandes monociclos. Era hilariante ver aquele marmanjão naquelas geringonças, equilibrando-se histriônicamente. Era um gozo! Fazia a alegria da gurizada e da plebe alvoroçada. Desfiles, carnaval (foi Rei Momo da cidade por muitos anos) e apresentações eram com ele mesmo!
Peculiarmente ele tratava as outras pessoas por: “ô mu nêgo”- corruptela carinhosa de “ô meu negro”-. Era um glutão por excelência, não havia manjar que satisfizesse aquela elástica pança. Coisa de louco! Nas confraternizações, jantares ou almoços festivos, costumeiramente ele fazia um arrastão nos bifes e carnes que sobravam dos convivas. Cinicamente ele trombeteava: – “é prá meu cachorro, mu nêgo”! Nunca ouvi dizer que quem morasse em hotel (no Santo Eloy, no caso), criasse cachorro! Só “Seu” Augusto com suas lorotas!
De vez em quando ele costumava pegar um 0800 na casa de Gersão, seu amigo e companheiro de Vigilância. Após encher o pandulho até a tampa, D.Esther lhe perguntava: – “satisfeito, “Seu”Augusto”? Ele todo folgazão, batia debochadamente no enorme bucho e redargüia: – “satisfeitíssimo. Não cabe mais nada”! E continuava: – “Mas como a senhora insiste eu vou levar (apontando com os lábios em forma de bico) um pouquinho disto, daquilo ali, deste aqui, daquilo acolá, pra fazer uma boquinha mais tarde”!. Terminava levando quase tudo que tinha à mesa. “Seu” Augusto era uma farra!
Certa vez, após ter aberto o “Desfile das Indústrias”, em Contagem, no seu indelével monociclo, onde João Monlevade foi brilhantemente representada pela Belgo-Mineira, com carro alegórico, desfile dos vigilantes, a beleza da juventude feminina de nosso rincão, através da Miss Câmara Júnior (Lúcia) e a representante da empresa (Maria Helena), na hora do rega-bofe ele deitou e rolou, tirou a barriga da miséria. Depois fez um arrastão na bifaiada que sobrou dos participantes. Recolheu quase dez quilos de carnes e as colocou numa sacola. E como sempre deu a desculpa: – “é pra meu cachorro, mu nêgo!”. Na vinda, dentro do ônibus, foi motivo de chacotas, com seus colegas querendo surrupiar-lhe sua preciosa carga e ele a defendendo com unhas e dentes, abraçado nela. Só faltou morrer do coração!
Sendo vigilante das guaritas de somenos importância e visto naquela época o trampo deles ser longo (se não me engano, 12 horas), nas noites das “tenebrosas”, o bicho pegava! E ele pra dar uma descansadinha, uma sornada de leve e não ser pego pelo chefe, sentava num banquinho em decúbito dorsal (cabeça pra baixo), com uma latinha (destas de óleo lubrificante ) nas mãos e assim que pegava num sono bravo, a lata escapava-lhe das mãos e ao cair no chão fazia um barulhaço danado e o despertava. Era demais! Certa noite um maquinista de locomotiva o avistou de longe naquela posição. Sabedor de suas artimanhas, jocosamente ao aproximar-se da guarita, ele abriu a buzina da locomotiva ensurdecedoramente no silêncio da noite. Menino, “Seu” Augusto tomou um bruto susto, deu um ágil e acrobático salto, caindo no meio da estrada já com a mão na cancela, pronto para abrí-la, pensando que fosse um caminhão. Ele era uma festa!
Ao contrair diabetes, e não tendo parentes por estas bandas (sua irmã Altair, que viera morar com ele fora embora), apoiou-se nos seus amigos e colegas de vigilância Dirceu, Gersão e a esposa deste, D. Esther. Eles lhe davam toda a assistência. Hospitalizado e muito doente, com “o pé na cova mesmo” e prestes a “cantar com minha mãe estarei, na santa glória um dia”, ele pediu que chamassem seus parentes em São Paulo. Nunca deram as caras. Temiam tomar conta de um moribundo e de contrato com São Pedro vencido há muito tempo!
Depois que “ele esticou as canelas” e foi “comer capim pela raiz”, a parentada chegou no pedaço, atrás dos pertences dele. E foram logo perguntando a Gersão (que já era do táxi) e a Dirceu “o quê” ele tinha deixado! E os dois tripudiando o pranteado trombetearam: – “olha, mus nêgos! Ele tinha duas casinhas, um fusquinha e um”… Não deixaram terminar a frase. “E o dinheiro? Ele não deixou não”? Questionaram os papa-defuntos. Dirceu, puto da vida pela falta de consideração, sacanamente respondeu: – “ele falava muito em dólares. Quem sabe não está ali naquele bauzão trancado”?.
Rapaz, a cambada de interesseiros partiu pra cima do baú igual urubu na carniça. Rebentaram o cadeado e o abriram com avidez. Viram que o danado do bauzão estava cheio de revistas pornográficas, que ia de playboy às revistinhas de sacanagem em quadrinhos, de um tal Zéfiro e também uns livros de Cassandra Rios. Todos mofados e bolorentos. Um horror! Gersão não deixou arrefecer a cupidez deles e vaticinou cinicamente: – “talvez os dólares estejam dentro das revistas”. Aí a cobiça falou mais alto, partiram vorazmente folheando cada revista e cada livro, não se importando com os espirros, tosse, olhos lacrimejantes, narizes escorrendo, provocados pelo mofo. O negócio eram os dólares do “Titio” Augusto. Não encontraram coisíssima nenhuma! O resultado é que tiveram que baixar ao hospital depois. Quase foram fazer companhia ao “Titio”.
“Seu” Augusto era uma figuraça e deixou saudade!
*Franber é o amigo Francisco Bernardino, popular “Baiano”, que durante anos escreveu sua Coluna para o jornal “Morro do Geo”!
































