#PARTIUATACAMA!

O mundo não é só para os mais acomodados, mas também para quem adora viver fora da curva. Para quem prefere às vezes deixar a zona de conforto para enfrentar uma vida mais real, com mais obstáculos e mais adrenalina. E aqui, vivendo aventuras, seja numa caminhada pelas trilhas, numa corrida pelas montanhas, num Rally no deserto, nos pedais de uma Bicicleta até Aparecida do Norte para pagar promessa à nossa Padroeira, ou pelas estradas sobre uma Motocicleta, numa média de 120 Kms por hora, de Jean Monlé até o deserto de San Pedro de Atacama, no Chile, rodando uma média de 11 mil quilômetros.

Pois é, mas quatro monlevadenses aventureiros e corajosos pegaram suas poderosas máquinas de duas rodas e partiram rumo ao deserto de Atacama, saindo da cidade no dia 1º de novembro de 2025. Foram eles o amigo Ricardo Valente, o “Mineirin”, e seus parceiros motociclistas Adley Bastos, Josemar Almeida e José Coelho, o “Jota”!

E abaixo, o roteiro de toda a viagem e a aventura relatadas por um  dos participantes, o amigo Ricardo Valente, popular “Mineirin”, que durante anosa residiu com a família nos Estados Unidos e retornaram para a terra- natal, João Monlevade, há alguns anos. E, desde então, ele e a esposa Marlene viajam pelo mundo em sua Motorhome, conhecendo lugares e pessoas. Vale a pena viajar nesta aventura!

Tentei fazer um resumo da viagem, mas não ficou tão resumido assim. Então, votos que apreciem a leitura. Depois de conhecer e explorar a parte do sul da Argentina, de Motorhome, decidimos, eu e a Marlene, minha esposa, retornarmos ao país e fazermos o mesmo na parte norte. Sabendo de tudo que já havíamos conhecido, não seria uma surpresa nos impressionar com o que estava por vir. Mas foi. Uma natureza com lindas paisagens, de como costumo dizer, diferente daquilo que nossos olhos estão acostumados a ver em um país tropical como o nosso. Mas a história à seguir não é sobre esta viagem. Porém foi dela que surgiu a que será descrita. Estávamos em uma estrada com uma das mais lindas paisagens que rasgavam montanhas em um longo vai e vem. De baixo, olhando bem para cima, como se estivesse olhando para o céu, era possível ver carros, caminhões e ônibus, bem pequenos no alto daquele trajeto. Estrada que em certo momento me colocou a pensar: o que estou fazendo aqui? Sabendo que, depois de subir aquela que transmitia ser uma sinistra estrada, teria o caminho de volta, a descida. Diante de uma mistura de sentimentos, onde o receio da estrada dava lugar para apreciação de um deslumbrante visual, comecei a observar algumas motociletas subindo e descendo. Este trecho é conhecido como Cuesta de Lipán, que dá acesso à Salinas Grandes e a uma das fronteiras com o Chile. Também é o principal caminho para se chegar à Mão do Deserto, símbolo e destino de desejo de todo motociclista. Nesta viagem com minha esposa tínhamos como último e principal destino deste trecho; chegar em Salinas Grandes, conhecer, passar a noite e lá ter – e tivemos – uma das maiores experiências de aventureiros viajantes. Mas voltando ao principal, vendo aquelas motos subindo e descendo pensei que seria muito legal fazer aquele trecho nas duas rodas e ir até a Mão do Deserto. Tomei como possibilidade, mas não como um sonho a ser realizado. Pois bem, ao retornar a João Monlevade, sempre em conversa com um companheiro motociclista, O Jota, ele narrava a ida de outros até o Deserto do Atacama, onde está a Mão do Deserto. Narrava e dizia que seria um sonho poder ir até lá. E o assunto não foi comentado somente uma vez. Até que em uma delas disse a ele: – que tal deixar de ver outros realizarem os sonhos deles e você realizar o seu? Vamos para o Atacama de moto? A partir deste momento começou a ser formado o projeto denominado “Partiu Atacama”. O Jota compartilhou a ideia com o Josemar, que também é o nosso mecânico e com o Adley. Assim ficou formado o grupo da viagem.

Foi um ano de preparação, principalmente financeira, para que o projeto pudesse se realizar. E este ano passou tão rápido como não era esperado! E o momento finalmente chegou. O dia de saída haveria de ser de grande expectativa, e foi o 1º de novembro de 2025! A adrenalina no limite não nos permitiria nem mesmo dormir direito. Por esta razão decidimos sair bem cedo. E a hora chegou. Com planejamento de rodar pouco mais de 600 kms no dia, na parada para o almoço já havíamos atingido a meta. Por ainda ser muito cedo rodamos mais de 900 kms no primeiro dia, até da cidade de Capão Bonito, portal de entrada para um de nossos destinos programados, Rastro da Serpente. Em nossa programação havíamos listado alguns hotéis, pousadas e hostels. Mas Capão Bonito não era uma das cidades dormitórios e não estava na lista. Por ser sábado, dia tranquilo nas cidades, buscamos algo central e encontramos o Hotel Regina, que nos deu uma boa dormida e bom também, café da manhã. Chovia e a previsão para o próximo dia seria de chuva. E não poderia ser diferente, pois era 2 de novembro, dia de finados, quando tradicionalmente chove. Para mim aquela chuva era uma expectativa, pois não queria já, no início, ter que enfrentar e ter experiência com ela. Além da “armadura” principal de uso, era capa para blusa, calça e bota. A expectativa se transformou em conforto e integrou facilmente em nossa rotina, já que enfrentamos vários trechos molhados. O Rastro da Serpente não é muito conhecido, pelo menos em nossa área de convivência. Mas pelos vídeos que havia assistido, queria muito conhecer. Além da chance de conhecer faria com que desviássemos da cidade de São Paulo, com trânsito pesado qualquer dia da semana e outros perigos que buscamos evitar.

Rastro da Serpente!

O Rastro da Servente inicia em Capão Bonito, em São Paulo – pela BR-250, até Curitiba, pela BR-476. Dando razão ao nome recebido, o rastro são as inúmeras curvas que iniciam suaves, tornando mais angulares no decorrer. Um “parque de diversões” para quem gosta de “brincar” nas curvas. Após este trecho, o próximo destino de pernoite seria em Campo Largo, no Paraná, ao lado da cidade de Curitiba, próximo à rodovia que leva até Foz do Iguaçu. O planejado seria o pernoite em Campo Largo, seguir e dormir em alguma cidade da rota, uma vez que iríamos precisar cruzar todo o estado do Paraná, de leste a oeste. Porém, ainda descansados, seguimos direto para Foz do Iguaçu. Já na cidade fomos até o hostel do Sr. Elias. Um quarto pequeno com banheiro, bem simples, mas muito organizado e limpo. Tudo levava a entender que aquela pousada era uma casa, onde passou a alugar quartos (bem comum) e foi construindo quartos no fundo do quintal. Nos permitiu uma boa noite de sono. Chegamos ao local no horário noturno, porém ainda com o dia claro. Depois de alojados, buscamos um hostel para um “rango”. Um restaurante que à primeira vista parecia ser um pouco requintado (era o que tinha disponível) era administrado por duas senhoras que cozinhavam com um sabor bem caseiro. Parecia estarmos em Minas, pelo sabor e atendimento. No dia seguinte fomos visitar as Cataratas do Iguaçu. Eu já havia estado lá. Pensando que já conhecia, a natureza me reservou uma surpresa, pois nunca é a mesma. Nem mesmo o nascer do sol é o mesmo todos os dias. Se conseguimos e queremos apreciar, podemos observar diferenças. Em uma das vezes que lá estive o volume de água era pouco, quase cristalina aos olhos que proporcionou um espetáculo. De outra o volume estava um pouco maior, com as águas não tão limpas. Desta vez o volume estava muito maior, com águas barrentas pelas chuvas que criavam névoas, montando um espetáculo maravilhoso. Chegamos ao parque das cataratas às 8:30 hs. e saímos por volta do meio dia. Isto porque nosso objetivo era conhecer as quedas, mas o parque tem atividades que permitem o desfrute durante todo o dia. Já no retorno para Foz do Iguaçu, o pensamento era só de voltar no restaurante das senhorinhas. Comida boa nos faz voltar.

O nosso destino seria a fronteira Brasil/Argentina e passar a noite ali mesmo, na cidade de Puerto Iguazu. Lá seria o local para buscarmos uma linha telefônica para estarmos conectados do país dos Hermanos, com os nossos familiares e amigos. Apesar do processo não ser difícil, poderia ser demorado assim como das outras vezes que lá estive. E não foi diferente desta vez. Na data que chegamos na cidade era temporada e não sabíamos. Estava difícil de conseguir um lugar para pernoite e por isto colocamos o nosso plano B em prática, que seria voltar para o Hostel do Seu Elias. Após uma incansável busca, conseguimos um lugar. Já alojados, fomos para o quarteirão fechado ocupado por bares e restaurantes. Um lugar bonito, gostoso para visitar e tomar a primeira cerveja argentina. Já em terras argentinas o nosso próximo destino seria somente de deslocamento: Corrientes. Ficamos no hostel Benjamim, cujo casal proprietário muito simpático e acolhedor. De Corrientes, mas uma vez em deslocamento, enfrentamos as retas do Chaco para chegar ao nosso destino, Termas do Rio Hondo, cidade de águas termais onde tínhamos a expectativa de poder desfrutar de uma piscina com águas naturalmente quentes. Infelizmente, com hotéis antigos, precários de manutenção, escolhemos aquele que atendiam nossas necessidades básicas, iniciando com um estacionamento de fácil acesso para guardarmos as motos, quarto e banheiro, mesmo que básicos e por último, piscina termal. Os destinos, pontos para visitação na cidade foram 3: Embalse Rio Hondo, lago formado pela represa do rio; autódromo, o mais ativo do país, onde até este ano sediou uma das etapas do mundial de Moto-GP, e Museu do Automovil, acoplado ao autódromo com grande acervo da história do automobilismo de competição local e exemplares demonstrando a evolução das motos. Em Termas do Rio Hondo iniciou-se a nossa visita à Argentina, tendo locais definidos para visitar e turistar. Tomamos como próximo destino a R-307. Estrada estreita, cheia de curvas em serra, sendo a cidade de Tafí del Valle a referência. Nesta rota, paramos em uma baixada, tendo em nossa frente um pequeno lago, rodeado por gramado e vegetação verde, que servia de pasto para uma grande criação de cavalos. Este local é bem o que diz o nome da cidade referência. Olhando de frente para a imagem descrita tem não muito longe, no horizonte da direita e da esquerda, montanhas que subiam aos poucos, denominando o local de vale. Na longa montanha do horizonte do lado direito a cidade de Tafí del Valle e na longa montanha do horizonte do lado esquerdo a cidade de El Mollar. Lugar que ficamos apreciando por um bom tempo. O Adley, fotógrafo profissional, não economizou os equipamentos que levou. Usou todos para registrar a paisagem. Eu, por saber que tinha um profissional no grupo e por decisão particular, decidi pouco fotografar com equipamentos e usar o tempo para fotografar com os olhos. Não somente neste local como em todos que iríamos passar. Nas viagens que havia feito anteriormente, na empolgação queria registar tudo em fotos e vídeos. Desta vez tomei a decisão de usar o tempo mais com os olhos ao invés da máquina. As máquinas não conseguem registrar a beleza em seu potencial como os olhos podem capitar. Um pouco antes de chegar neste ponto, paramos em um posto de gasolina em busca de algo para comer. Sem opção, a atendente, nativa, descendente de indígenas – pois a região é tipo uma reserva -, apontou uma casinha logo à frente, na sequência da estrada, já na subida para a montanha cortada, como um lugar para comer. Era uma casinha, difícil até para ver, pois a cor se confundia com a paisagem e vegetação seca. Na dúvida do que nos poderia ser servido naquele local, comemos a mais fresca e saborosa empanada argentina, servidas pelas mãos de uma senhora de idade, a D Maria, de traços indígenas. Foram 3 empanadas servidas para cada um de nós. Realmente deliciosa!

Seguindo caminho, após a parada na Baixada do Vale, foi uma grande subida de serra. Na medida que subíamos, o frio aumentava, nos obrigando a fazer uma parada, reforçar as vestimentas e troca das luvas por um par mais quente. Foi o trecho mais tenso da viagem. Frio de 5 graus, com um forte vento que causava uma sensação de frio e temperatura muito inferior, sob uma neblina forte que não permitia ver 15 metros à frente. O que eu mais queria era estar fora daquele trecho. Virada de serra em um mirante que não permitia ver, pouco à pouco a temperatura foi subindo, a neblina dispersando e nova paisagem surgindo.

Estávamos chegando a Cafayate, cidade muito gostosa de estar, famosa pelo vinho de diversas vinícolas ao redor. Na chegada à cidade com o sol do dia se despedindo, uma vez que pelo horário, para os padrões de Minas Gerais já deveria estar escuro há muito tempo, estacionados na praça central ao lado da Igreja de Nossa Senhora del Rosário, fomos abordados por um casal, dono de um hostel, nos oferecendo estadia. Para lá fomos e nos foi disponibilizado praticamente uma casa, onde pudemos fazer nosso tradicional café regado por uma boa prosa. E por tocar neste detalhe, prosa, não podíamos ter um minuto parados e juntos para a prosa dar início e andamento. Era difícil parar. Em Cafayate, com um clima frio, propício, degustamos pela primeira e única vez do vinho argentino. Muito bom. A chegada a Cafayate se deu pela famosa e lendária Ruta 40. Não existe viajante aventureiro – seja de carro, moto, motorhome, bicicleta ou à pé -, que não conheça esta estrada e que não tenha o sonho, o desejo de trafegar por ela.

Após Cafayate, a estrada perde o asfalto e segue por rípio (estrada de chão) e a sequência da rota se faz pela não menos desejada, Ruta 68. Não tão longa, mais cheia de paradas para deslumbrar-se com a beleza única da região. Nela estão a Cidade dos Quilmes, Anfiteatro, Garganta del Diablo, Três Cruzes, Quebrada de las Conchas. A história da Quebrada de las Conchas é muito interessante. Segundo dito, no Período Glacial, no desgelo formavam-se grandes lagos. Um deles rompeu, enchendo outros abaixo e fazendo-os romper, inundando toda aquela imensa área das Quebradas. É difícil imaginar isto, pois a área, assim como a altura, são enormes. E hoje é tudo seco, deserto, tenho apenas um pequeno fio de água correndo na parte mais baixa, fazendo formar um longo e lindo rastro verde. São imagens, paisagens, locais que justificam a viagem.

Dando sequência à viagem, próxima parada foi Alemania. Uma antiga estação de trem em meio do percurso onde hoje funciona um museu e restaurante. Este local me trouxe boas recordações. Em um ponto um pouco afastado do complexo, embaixo de uma ponte de ferro abandonada da antiga linha férrea e em meio a pequenos e grandes arbustos, estivemos acampados de motorhome a convite de dois casais argentinos, em dois veículos, que conhecemos no próximo atrativo a ser descrito. Lá pelas tantas da noite, após degustar de uma parilla oferecida por eles, a Marlene preparou uma deliciosa caipirinha para os mais novos amigos argentinos (gostaram tanto que acabou o estoque de cachaça naquela noite) e diante de uma escuridão onde não era possível ver a palma das mãos diante dos olhos, sentados ficamos a olhar as estrelas. Entre as estrelas era possível ver, de tempo em tempo, as luzes dos satélites cortando o céu. Experiência que jamais irei esquecer.

Seguindo a viagem, pequeno desvio de rota de uns 15 kms, para visitar o Embalse Cabra Corral. Um lindo lago formado pela represa. O ponto é um grande atrativo e a transposição para os lados é feita sobre a barragem. No final do dia é permitido ficar na barragem que fica com várias famílias pescando, batendo papo, tomando chimarrão, fazendo daquele um ponto um de lazer. Foi onde conheci os casais de argentinos citado anteriormente, que nos convidou para encontrá-los em Alemania. A sequência seria passar pela cidade de Salta. Apesar de bonita, não estava no nosso planejamento. E para seguir tínhamos opções de Ruta 9, nova e antiga. Passei uma vez pela antiga, sentido contrário e gostei demais. Pensei que seria ideal para rodar com moto e foi. Estrada super estreita, grande parte com 4 metros de largura e outros tantos onde não passam dois carros lado a lado. E cheia de curvas, muitas curvas. Concentração 100%, gostosa demais, excelente para estreitar moto e piloto. Alemania, Embalse Cobra Corral e Ruta 9 antiga são destinos que, passando na região são paradas obrigatórias. De volta para a ruta principal, o próximo destino planejado teve que ser redefinido. Mesmo rodando pouco no dia, baixa quilometragem, o trajeto foi cheio de atrativos e pontos de parada. Apesar de saber que tomaríamos muito tempo neste circuito, foi além do planejado. Por esta razão buscamos pernoitar em San salvador de Jujuy. Interessante que, mesmo sem ter estado lá, já conhecia rua do hotel. Isto porque na última ida de motorhome estava buscando uma concessionária para fazer a revisão do carro que é nesta rua, praticamente ao lado. Quando faço uma busca, gosto de ver no google street. Visualização com fotos da rua, imóveis, enfim, tudo da área. Interessante a coincidência. Bem. O planejamento para esta noite em SS de Jujuy deveria ter sido uma das em Tilcara. Assim de Tilcara passaríamos em Purmamarca e seguiríamos para Salinas Grandes, fronteira e tudo mais. Como a noite seguinte seria também em Tilcara e por estarmos próximos, resolvemos passar em Purmamarca, onde visitamos a feira de artesanato na beira da estrada, com vista para o Serro dos Sete Colores. Antes, porém, parada em mirantes na estrada, vista para Maimará e Serro Paleta del Pintor e mais à frente Rio grande, um largo leito de pedras de um rio que parece inexistente. Assim, chegamos em Tilcara. A cidade é um tanto quanto interessante nos dias de hoje. São casas que parecem feitas de barro, cuja cor se confunde com a natural, da areia, imagem quebrada apenas pelos enormes cactos. Cidade seca, muito seca, com fortes rajadas de vento. No pernoite as motos ficaram em lugar coberto com tela e na manhã seguinte elas estavam cobertas por uma camada de areia. Noite fria e dia com sol quente e forte. O principal atrativo da cidade é Pulcará de Tilcara, uma cidade antiga do século XII, toda de pedra. Interessante saber que o forte da cidade naquela época era a agricultura, principalmente de milho. Interessante, pois o local é deserto. A antiga cidade foi estrategicamente construída no alto da montanha e diferente de lugares onde fortes eram construídos para monitoramento e defesa, a localização foi escolhida por ter visão geral. Nela hoje foi construída um monumento que parece uma pirâmide em homenagem a todos os historiadores que trabalharam na reconstrução do local e história. Toda este trecho é lindo demais! Vale demais a visita. Teve membro deste novo grupo de viagem que disse ter vontade de lá morar. Lugar realmente apaixonante.

O trecho onde nasceu o sonho!

De volta para a estrada, a minha expectativa era enorme para o próximo local. Afinal foi lá que surgiu a ideia de voltar de moto. Se não tivesse já passado por lá, o sonho dos meus três companheiros de viagem, Adley, Josemar e Jota, não teria sido realizado. Pelo menos agora. Dá para ter uma noção da importância deste local, deste momento em nossos desejos e sonhos? Trecho da estrada que será sempre lembrado por esta razão e não por menos pela beleza única da estrada e paisagem. Só lá já valeria a viagem. Top demais! Cuesta de Lipán. Mas como não estávamos nem na metade da viagem, seguimos a estrada. Próxima parada obrigatória e onde todo viajante gosta de registrar, marco dos 4.170 metros de altitude, ponto mais alto deste trecho e preparativo para chegar em um dos lugares mais sensacionais: Salinas Grandes. Um grande deserto branco de sal, explorado para a indústria e pelo turismo. Como já parcialmente descrito, foi onde tivemos, eu e a Marlene, uma das experiências mais surreais de nossas aventuras: passar a noite em Salinas Grandes. Durante o dia tem movimentação de turistas, guias e trabalhadores da exploração do sal. Final do dia todos seguem caminho o local fica completamente vazio, deserto. Ninguém! E naquela noite somente nós. Durante o dia a visita guiada é muito legal, contando com a expertise dos guias para tirar fotos marcantes. Salinas Grandes é o último ponto de visita na Argentina neste trecho, mas ainda fizemos uma parada na cidade de Susques almoçar. Cidade pequena e interessante. Pela primeira vez desde que saímos da Brasil nos foi servido arroz. O prato típico das refeições na Argentina é milanesa com purê, batata frita ou salada simples. Aproveitamos o arroz e pedimos para esquentar uma feijoada em lata que levamos. Por falar em feijoada em lata, levamos pó de café uma vez que é difícil encontrar. Apesar de em praticamente todos os hotéis, pousadas e hostels que ficamos oferecem o café, mesmo que solúvel, em mercados é difícil encontrar. E quando encontra não é barato. Levamos ainda dois fogareiros, macarrão instantâneo e outras coisas para quando não tivéssemos onde comer ou para degustar de nosso tradicional cafezinho. Próximo ponto foi a aduana, tramites da fronteira.

Em terras chilenas!

Já em terras chilenas, começamos a contemplar a beleza árida do deserto, com salares, pequenos e lindos lagos como oásis até chegarmos ao primeiro destino de pernoite no país recém chegado. A cidade, San Pedro do Atacama. Havia uma expectativa por parte do grupo em conhecer alguns lugares. Sem definição de quais seriam reservamos três noites e dois dias para o local. Chegamos já à noite, próximo ao escurecer e começou a saga pela busca de um lugar para ficar. Tivemos dificuldades em encontrar algo que encaixasse nas nossas necessidades e disponibilidades. O estilo médio de hospedagem em que ficamos até então tinha valores impraticáveis para o nosso bolso em San Pedro do Atacama. Sem opção, nos restou ficar naquele de menor qualificação de toda a nossa viagem, pagando o dobro do valor médio pago tanto do Brasil quanto na Argentina. Depois de acomodados, uma volta pela mais famosa e tradicional rua da cidade na busca de opções de passeios. Porém, mais uma vez com valores que não justificam o benefício. Com isto, a animação da estadia deu lugar para a volta para a estrada. E a decisão ficou por conta daqueles que haviam programado de ficar. O ponto positivo da cidade foi o barzinho com decoração de futebol, astros do rock’n roll e boa música que encontramos para tomar uma cerveja. A primeira e única na passagem pelo Chile.

Mas, como gostamos é de estrada, para ela voltamos com o intuito de chegar a Antofagasta, do outro lado da costa, no Oceano Pacífico. Porém, a primeira vista do oceano seria na cidade de Tocopilla, de onde a estrada segue margeando as águas salgadas e geladas do Pacífico até Antofagasta. Passamos pela cidade de Calama por volta das 11horas da manhã. Pouco mais à frente a estrada estava fechada para obras e assim ficaria até às 15 horas. Retornamos e paramos na cidade de Calama, onde degustamos da culinária peruana. A cidade de Calama tem a maior mina de cobre a céu aberto do mundo, que é uma das maiores atividades econômicas do país. Para ter uma ideia da importância, quando tivemos que retornar da estrada por conta da espera da parada das obras, havia uma placa indicando duas cidades: Calama e Chuquicamata. A segunda opção era mais perto, para lá seguimos, mas o acesso para a cidade era permitido somente para trabalhadores da mina. Posteriormente em pesquisas, ficou esclarecido que os moradores da cidade de Chuquimata foram todos realojados na cidade de Calama depois que começaram a expandir a exploração da mina. Assim a cidade de Chuquimata passou a ser a mina. Com o ponteiro marcando quase 16 horas, conseguimos seguir viagem. Esta parada fora do planejamento nos fez remanejar o destino do dia e decidimos por pernoitar em Tocopilla. Poderíamos até seguir viagem, mas correríamos o risco de não poder desfrutar e deslumbrar da estrada litorânea do Pacífico. Este trecho da litorânea estrada que liga Tocopilla à Antofagasta é algo tipo, surreal. Um mundo de água cristalina e azul do lado direito (para nós que seguíamos para o sul) contrastando com montanhas de pedras e areia do lado esquerdo, sem um verde, imagem pura de deserto. Algo mais que foge daquilo que nossos olhos tropicais estão acostumados. Já próximo de Antofagasta, parada em um dos pontos mais lindos da viagem: La Portada. Um trecho do Pacífico com pequenas praias e altos penhascos que assemelham com as falésias das praias brasileiras, com um monumento que lembra o Arco do Triunfo de Paris, naturalmente esculpido pelas águas azuis do oceano. A vontade era de ficar ali por horas para gravar eternamente na memória. Próximo dali uma longa e linda praia, onde as águas azuis mais uma vez contrastam com o que parece ser um infinito deserto. São imagens inesquecíveis. Passamos a noite em Antofagasta e ficamos surpresos com o tamanho da cidade. Muito grande e grande também é a estrutura. Interessante que as cidades grandes naturalmente nos poderiam oferecer mais opções daquilo que buscamos. Mas para nós, viajantes, são mais complicadas. Mais difíceis e por esta razão são apenas de passagem. Saímos de Antofagasta para aquele que é o maior símbolo de nossa viagem e destino desejado de todo motociclista e viajante: Mão do Deserto. Um extenso deserto, pura areia, cortado por uma estrada e no meio do nada a escultura de uma mão. Não existe cidade, restaurante, casa, buteco, vendedores de água, não existe nada. Absolutamente nada mais que a escultura da mão. E ainda assim é uma alegria, uma satisfação enorme, uma sensação incrivelmente indescritível poder estar ali, desejo de muitos. Como a viagem tinha que seguir, voltamos para a estrada para algo em torno de 350 kms de puro deserto. Areia e estrada. Nada mais. Em meio, um posto de gasolina que se transforma em oásis de um nada hipnotizante! Destino do dia, Copiapó, cidade dormitório. De volta ao mundo de água, verde e restaurantes, paramos em La Serena, uma cidade que estava em nossa caminho, mas não em nosso planejamento, para almoçar. Cidade praiana, cheia de restaurantes à beira mar, estrutura que lembra muito as nossas praias, mas com água do jeito que gostamos a cerveja: estupidamente gelada. A cidade foi uma surpresa muito agradável e deveríamos ter passado mais tempo por lá. Mas como foi algo que não conversamos naquele momento, a estrada voltou a ser o objetivo.

São muitas Emoções!

O plano era passar a noite em La Ligua. Com algumas pesquisas conseguimos uma cabana muito aconchegante, bem no ambiente rural. Que lugar e noite maravilhosos! Após esta estadia, a busca por hotel, pousada ou hostel deu lugar preferencial para as cabanas. Nos deu liberdade de cozinhar, combinando bem com nosso gosto e prazer pela boa prosa. Além de uma noite tranquila e silenciosa que certamente iríamos precisar, pois o dia seguinte seria, como diz o Roberto Carlos, de muitas emoções! Para começar, pouco antes da passagem de volta para a fronteira, outro trecho da estrada que é símbolo para os amantes de duas rodas e viajantes: Los Caracoles. Trecho íngreme para transpor a Cordilheira dos Andes, em uma estrada de 29 curvas em zique-zague que denomina o percurso. Mais uma realização desta viagem, graças a Deus! Pouco mais à frente, fotos próximo ao Hotel Portillo, tendo ao fundo a Laguna Azul, lindo pela cor corresponde ao nome, tendo ao fundo os Cerros Ojo de Água, com seus topos nevados. Lindo demais. Por falar em topos nevados, todas as vezes que estive na região foram nesta mesma época. Entrada da primavera com o colorido das flores e com o topo das montanhas brancos de neve, sem ter que enfrentar o frio, fechamento de estradas e atrações provocados por conta da neve. Pouco mais à frente, já em solo argentino, mirante da montanha Aconcágua. Como é bom ir até lá e ver ao fundo a famosa montanha. Algo impossível nos tempos de escola quando aprendemos ser esta, a mais alta montanha das Américas. Bom demais estar ali apesar do vento, muito forte, que parecia querer levar com ele tudo e todos. Sem tempo até mesmo de esquentar o motor das motos, chegamos à Puente del Inca. Na época glacial, onde tudo era gelo, ali foi e é uma fonte de água termal. Com o tempo, materiais das montanhas desciam, sedimentaram como cimento. Passado o tempo, com o desgelo formou-se a ponte, onde segue nos dias de hoje com as águas termais.

Muito interessante como a história, comprovado pelas formações geológicas de praticamente toda esta região próxima à Cordilheira dos Andes remete a um tempo de grande volume de água, com monumentos, longos e altos paredões que desenham a existência de um enorme leito, onde um dia formou-se um rio ou caminhos de água. Ao longo desta estrada, agora com destino a cidade de Mendoza, é possível acompanhar este leito de paredões, assim como marcas de uma antiga linha férrea que um dia foi o caminho para transportar as riquezas.

Logo ali, Uspallata. Primeira cidade argentina após a fronteira, onde paramos para abastecer e almoçar. Na cidade de Potrerillos, outro maravilhoso cartão postal da região: Embalse Potrerillos. Lindo, tendo toda a região muito frequentada pelos residentes, incluindo de Mendoza. O argentino dá muito valor para estes espaços. Bastava a sombra de uma árvore para ter alguém ou famílias desfrutando do lugar. Passamos a noite em Mendoza. Cidade arborizada, com um enorme parque central que fomos visitar, assim como o Cerro la Gloria, com um monumento erguido em homenagem à combatentes do exército. Cidade linda, muito organizada e famosa por suas vinícolas. Nosso próximo destino seria a cidade de Malargue. Cidade fora do roteiro que visitei na primeira vez, mas com grande poder turístico. Na região existem mais de 800 vulcões onde é possível visitar alguns deles, numa área onde o solo é coberto pelo material expelido por eles. Vale demais a visita, mas por ajustes na programação tivemos que abortar as noites. Assim fomos para San Rafael, onde iriamos passar duas noite. Buscamos, demos preferência e ficamos mais uma vez em uma cabana, em um condomínio bem formado, onde preparamos um delicioso churrasco brasileiro com a suculenta e saborosa carne argentina. Foi onde também serviu de base para seguimos para Canon del Atual, um lindo lago de águas verdes formado pela represa. De agosto à abril, após a Semana Santa, uma comporta é aberta formando um rio de visual maravilhoso. As corredeiras formadas por este rio permitem a prática de alguns esportes, sendo este momento um dos mais esperados por nós, pela oportunidade de praticar o rafting, um tanto quanto divertido. Um trecho destas corredeiras também é um circuito de kayak de provas de campeonatos oficiais. Da Semana Santa até o próximo mês de agosto o rio é tão somente um leito seco.

De volta para a estrada, parada na cidade de La Punta para almoçar e Nogolí para visitar o Embalse de mesmo nome. Alta e tenebrosa demais, que de moto foi mais suave e tranquila de fazer. No final deste dia ficamos em Villa Dolores e começamos então a fazer a viagem de volta, parando para a última pernoite na Argentina, na cidade de Paraná. Já em território brasileiro, depois de passar em Uruguaiana, pernoitamos na Cidade de Alegrete para então seguirmos ao último ponto programado. Outro lugar de desejo para viajantes e amantes de motos, Serra do Rio Rastro. Um evento de drift fechou a estrada por algumas horas da manhã, mas o que fechou durante todo o dia foi o tempo. Chuva e neblina que não nos permitiu ver, mas tivemos a oportunidade de trafegar pelas curvas em zigue-zague da descida. Único momento da viagem que não foi como desejamos. Mas diante de toda a benção que foi toda ela, não tínhamos o direito de reclamar ou aborrecer. Foi bãodimaisdaconta!

Próxima noite a cidade escolhida foi Lagoa Vermelha, no estado de Santa Catarina. Cidade muito linda e organizada. Na sequência, já iniciando o retorno pegamos muita chuva e paramos em Florianópolis para encontrar um amigo do Adley e almoçar. Seguimos após o almoço, ainda debaixo de chuva, muita chuva até a Pirabeirada, município de Joinville, onde encontramos um hotel, fora do ambiente urbano, que nos presenteou com uma boa acolhida, noite de sono e café da manhã. Sem contar no café com miojo, compartilhado com uma boa resenha no final da noite. Dia seguinte revemos e trafegamos no Rastro da Servente.

A maior surpresa foi o estado de saúde de um dos membros que ficou abalada com o primeiro lote de curvas da estrada. Por conta da altura, movimentação ou emoção, quem sabe, o nível de oxigenação estava baixo, comprovado pela verificação com um dos equipamentos que levamos para a viagem. O piloto teve consciência de parar e assim pode ter a recomposição usando uma das garrafas de oxigênio que levamos, item incluído em nossa lista durante os preparativos. Tudo aconteceu de forma tranquila e suave, sem alarde. Estávamos preparados para esta eventual possibilidade pelo fato de termos que enfrentar a altitude e a falta de oxigênio. A situação serviu para figurar a importância do bom planejamento. Serviu também para uma boa prosa, resenha, fotos e bullying com o “paciente”. Tudo era motivo de descontração, como será tratado no final desta descrição.

Despedida de uma aventura incrível com os amigos da estrada!

Final do dia chegamos na cidade de Itu, no interior paulista onde passamos a noite. Foi também a de despedida, já que esta poderia ser – e foi – a última noite que estaríamos juntos. Dia seguinte foram pouco mais de 700 kms para que depois de 24 dias e exatos 11.166 kms, retornássemos para casa, com saúde e um sonho realizado, graças a Deus! Na preparação, planejamento e pensamento de como executar esta viagem, existiam muitas possibilidades. Estradas, países que não eram nossa casa, culturas, culinárias, enfim muitos desafios a serem apurados, desvendados e enfrentados. Mas acredito que o maior dos desafios seria o da convivência. Iríamos passar quase um mês entre pessoas que se conheciam de rápidos encontros, curtos passeios. Havia o desafio, mas sem ser colocado em pauta. Detalhe que foi observado e foi assunto da última prosa, última resenha. Apesar de gostarmos da mesma coisa e termos o mesmo objetivo, somos pessoas diferentes. E assim mesmo foi uma viagem super tranquila, de fácil trato entre todos, onde tivemos muita liberdade uns com os outros sempre no limite do respeito. Aproveito para deixar meu agradecimento a todos os companheiros desta viagem, pois foi uma aventura inesquecível e prazerosa em todos os sentidos. Uma benção. No final de semana seguinte à chegada, momento de reencontro e relembrar as aventuras. Já temos mais uma bela história vivida e para ser contada, até programarmos a próxima. Inté!

*Ricardo Valente, o “Mineirin” foi quem relatou toda a viagem!

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