O Encontro do Polivalente marcava um novo começo!

O  ano  de  2002,  exceto  pela  separação  conjugal,  não  teria  sido assim  tão  negativo.  Aliás,  como  a  Primavera,  setembro  chegaria promovendo um universo novo, onde o passado voltaria como um  presente  sagrado.  Ainda  casado,  há  poucos  meses  do  nosso rompimento,  consegui  promover  um  reencontro  dos  nossos antigos  colegas  de  sala  de  aula,  cujo  ensino  fundamental  se  deu numa  escola-modelo  e  que  infelizmente  havia  sido  excluída  de nosso  sistema  educacional  –  o  Premen  -,  o  Polivalente.  Uma escola  com  método  moderno  e  aulas  em  período  integral.  Ali, entre  nossos  12  a  16  anos,  tivemos  a  felicidade  de  integrar  uma geração  privilegiada.  Jamais  poderia  imaginar  que  aquele encontro,  datado  de  7  e  8  de  setembro  de  2002,  mudaria  muitas vidas  e  algumas  histórias!

Tudo  surgido  naturalmente,  durante  um  telefonema  com  a amiga  Elenice  Martins  Barros,  “Teté”.  Com  a  colaboração  das outras  amigas e conterrâneas  Marise  Siman,  Nilvânia  Bramante  e  Ana  Maria Caixêta,  e  do  amigo, saudoso  Mário  Mendes  (Paciência),  foi  possível reunir  naquele  primeiro  encontro  cerca  de  200  pessoas,  após  28 anos  de  dispersão.  Um  momento  mágico,  eternizado  pelos abraços,  sorrisos  e  lágrimas,  entre  encontros  e  despedidas. Jamais  aquele  instante  seria  esquecido,  aquela  ciranda  aos  sons de  músicas  de  roda,  de  mãos  entrelaçadas.  Foi  ali,  no  “I Encontro  do  Polivalente”,  que  nasceu  em  mim  um  desejo  maior de  resgatar  a  história  e  deixar  sempre  viva  e  aguçada  a  memória.

Afinal,  mesmo  que  o  mundo  torne  cada  vez  mais  distantes  as pessoas,  há  a  certeza  de  que  não  será  o  mundo  virtual,  capaz  de estremecer  as  amizades  construídas  durante  a  nossa  infância  e adolescência,  porque  estas  foram  alicerçadas  na  verdade, quando  ainda  havia  flores  no  quintal  e  cadeiras  nas  calçadas. Aquele  momento  foi  uma  mistura  de  prazer  e  o  desejo  do  dever cumprido.  Somente  nós,  os  ex-alunos  e  ex-professores  do Polivalente,  que  ali  estivemos presentes  naqueles  dois  dias  de confraternização e resgate de nosso passado, poderíamos descrever  todos  os  momentos  ali  vividos.  Entre  amores passados  e  alguns  renovados.

Acabada  a  festa,  vem  a  ressaca,  um  “banzo”  que  beira  a depressão.  Uma  tristeza  que  poderia  ser compreendida  como natural  depois  de  tantas  emoções  vividas,  eis  como  nos sentimos  diante  do  mundo  ao  retomarmos  nosso  curso  normal. Aquele  setembro  seria  uma  força  para  que  eu  pudesse  levar  as coisas  até  o  final  do  ano.  Assim  fui  remando,  entre  águas  não muito  calmas.  Nem  o  Natal  daquele  2002  seria  igual  aos  demais, mas  graças  a  Deus  consegui  sobreviver.  No intuito  de  amenizar a  situação,  no  dia  24  de  dezembro  promovi  mais  uma  edição  do Encontro  “Natal  no Vital” quando a nossa turma da Vila Tanque se reúne à véspera da festa natalina no Bar do “mal humorado”, saudoso ZéVital que, apesar da cara amarrada, sempre foi querido pela turma. Ali, na“Rua  do  Sapo”,  bebemos  durante  todo  o  dia,  até  o  fim  da  tarde.

Na  véspera  de  final  de  ano,  me  exilei  no  apartamento  de  meu irmão,  em  Belo  Horizonte.  Ele  havia  viajado  e  me  apoderei  do espaço,  ali  no  Bairro  Coração  Eucarístico,  de  frente  para  o Campus  da  PUC.  Por  momentos,  tive  a  insensatez  e  a  vontade de  me  ver  caindo  daquele  sétimo  andar.  A bebida,  por  vezes,  nos faz  confundir fraqueza com coragem, e por alguns dias, entre o velho e o novo, tive vontade de chegar ao fundo do poço. Mas Deus, aquele mesmo a quem recorremos quando precisamos – e com quem nem sempre tive uma relação muito leal – não abandona seus filhos. E me ajudou a lembrar de minha responsabilidade com os meus . Felizmente consegui, mais uma vez, dar a volta por cima e sobreviver porque havia pessoas que ainda precisariam muito de mim, em especial meus dois rebentos.

O  Século  XXI,  pelo  menos  em  sua  primeira  década,  foi dedicado  ao  meu  novo  projeto,  o  “Morro  do  Geo”.  E  não  há  “dor de  cotovelo”  que  dure para sempre!  O  tempo  dá  conta  de  curar. Somado  à  proposta  do  jornal,  que  apelidei  de  “2  S”  –  um  plágio sobre  um  plano  estratégico  lançado  nos  anos  1990  pelas  grandes empresas,  denominado  “5  S”,  uma  estratégia  de  tornar  o ambiente  de  trabalho  mais  organizado  -,  cujo  significado  era “Saudade  e  Sacanagem”,  ou  seja,  representando  o  resgate histórico  e  as  matérias  do  besteirol.  E  assim  ficou  a  nossa  marca. Paralelamente, havia  assumido  um  horário pela  Rádio  instalada pela Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), onde fazia um programa matinal três vezes por semana. Ao meu estilo, com muita MPB e entrevistas. A emissora contava com caixas acústicas espalhadas ao longo da Avenida Getúlio Vargas, o que provocava a reação das pessoas, uns prós, outros contra. Afinal, alguns se sentiam incomodados por ter de ouvir durante todo o dia aquelas “caixinhas de abelhas” zunindo em seus ouvidos como costumavam dizer. O importante para mim, naquele momento, foi ter retornado à minha atividade mais apaixonante, que era fazer rádio e ter o contato com a massa através das ondas sonoras. Lembrando a frase célebre do ex-patrão, o saudoso José Inácio, “fazer rádio era mesmo uma cachaça”.

No  plano amoroso, nada de importante, mas o refúgio em outras mulheres me ajudava a fugir da solidão. Viajei muito no primeiro semestre de 2003 o que me ajudou a suportar um pouco aqueles momentos de tristeza e saudade. Conheci lugares das Minas Gerais que me fizeram apaixonar ainda mais pela história, entre eles um distrito de Diamantina, São Gonçalo do Rio das Pedras. Foi paixão à primeira vista. Vizinho de Milho Verde –distrito do Serro – lugar de cachoeiras. Como na música de Sá e Guarabyra, o “Pó da Estrada”, me devolvia a vontade de viver, apesar dos momentos de melancolia. Aquela natureza toda ao meu dispor. Mais apaixonante ainda foi conhecer, naquele tempo de pegar a estrada, o lugar que talvez até mude minha vida, Lavras Novas, distrito de Ouro Preto, cujo passado guarda tanta história dos tempos de Quilombola.

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*Do Livro “A Saga: Memórias de um Jornalista do Interior” – Parte LIX

Autoria: Jornalista Marcelo M. Melo!

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