Na fotografia acima, alunos do Ginásio Monlevade, nos anos 1950 (Extraído do livro “Colégio Kennedy – 40 Anos”)
As horas vão lentamente se escoando! Fim de tarde do belo e agradável outono. Quando anoitece os pensamentos mudam e muitas vezes passamos a recordar, a viver aquela saudade gostosa, regada de boas e belas lembranças, enlevados pela suavidade e romantismo do crepúsculo. E nos deixamos envolver pela paz que ele nos dá. Nesse envolvimento prazeroso reviramos páginas da História, escritos que a vida escreveu e permanecem vivos em nossa mente em nosso saudoso coração. Aí então, a alegria ou a saudade toma conta do meu devaneio. Ah, se eu pudesse voltar no tempo! Entre tantas maravilhas vividas como seria bom o reencontro com as colegas e os colegas, amigos e amigas do tempo de estudante. Partilhamos de tantas coisas boas! Os velhos e bons amigos de outrora, confidentes das coisas simples que machucavam nossos corações então abertos para a mais sutil presença do amor. Queridos e bons amigos que o tempo se encarregou de separar.
E assim… Vagando com o pensamento, uma lembrança incrível. Uma História fantástica de estudantes do saudoso Ginásio Monlevade. Uma história pasmosa cujas protagonistas eram as belas estudantes Míriam, Gilma Teixeira, Pinheiro, Milca, Suely Bitar. Elas armaram uma boa e grande confusão. Faziam parte também daquela turma os colegas Gilson Brum, Norton de Souza, Cassim Assis, Alice Assis, João Bosco e outros. O tempo passa e as lembranças ficam armazenadas e as saudades e a história cultuadas. Tudo que nos ficou da sábia antiguidade armazenou-se na memória. O Grupo Escolar Monlevade, onde fiz o Curso Primário, e o Ginásio Monlevade, fundado em 1955, nessa época eu já estudava em Mariana, pioneiros na História de João Monlevade, marco na Educação do Pedacinho do Céu. Oficialmente inaugurado no dia de São Pedro e São Paulo, o Ginásio de Monlevade, funcionava provisoriamente em prédio especialmente adaptado. – O famoso Ginásio de “Tábua” -. Quem não se lembra? Logo ali, atrás do maravilhoso Grêmio Esportivo. Ah, Saudade!
A direção da Belgo-Mineira mandou construir moderno edifício para o Ginásio de Monlevade, dotando-o de todas as exigências da técnica pedagógica. Pioneiro na educação, era dirigido pelo Cônego José Higino de Freitas e secretariado pelo padre Antônio Henriques, ambos da Arquidiocese de Mariana. O Padre Henriques era o oposto do Cônego Higino apesar de ser o braço direito do Cônego. Secretário geral fazia de tudo no Ginásio. Passava as notas nas cadernetas assinadas por ele, comandava a disciplina, gostava de classificar as notas de todos os alunos – 1º 2º e 3º lugar -. E ainda dava aula de Português e de Francês em todas as turmas. Enérgico e temido e bom assim era o Padre Henriques. Toda a geração que estudou no Ginásio Monlevade, o inesquecível Ginásio de “Tábua”, tem pelo Cônego Higino e pelo Padre Henriques uma enorme gratidão e saudades daquela época.
Diziam os estudantes que o Padre Antônio Henriques era o “General”. Mandar o aluno para a sala do Cônego Higino era até uma bênção, todavia para o Padre Henriques? Todos tremiam dos pés a cabeça, calças e saias. Padre Henriques era tão temido, todavia mesmo assim os mais afoitos ainda aprontavam. Estudante é fogo… Havia muito respeito, educação, estudo, porém a pintação rolava também. É claro. Sem ela não tem graça a vida de estudante. Ah! Tempo bão! Quem não se lembra? Pintar e matar aula, bom demais!
A História da Carta Inocente de Miriam Nastrini assim começou: O Grêmio Literário Padre Leonel Franca organizou uma excursão a Ouro Preto. A turma toda alvoroçada se preparava para o tão almejado e esperado passeio. Professores e alunos numa animação total contavam os dias. Aí, uma tristeza acomete a turma. As amigas Míriam e Pinheiro não se conformam. A notícia se espalha. Ué? Por quê? Como assim? Nossa! E se a gente der um jeito? Aconteceu que o pai da Gilma Teixeira não permitiu que sua filha participasse da tão desejada excursão. Combinaram então os colegas e foram até à sua casa – ela morava em Carneirinhos, naquela época era longe à beça – pediram imploraram. O Gilson Brum e a Míriam Nastrini fizeram até um discurso, e ele irredutível não se tocou, não se sensibilizou. Desenxabidos, cansados voltaram cada um para suas casas no amado Centro Industrial Histórico. Aí, então, estudante tem sempre um mundo de idéias. Não desistiram. Ficaram eles arquitetando um plano quando a Míriam do Senhor Nastrini, hoje também do Américo, teve uma idéia sensacional. E a turma adorou. O plano consistia em escrever uma carta endereçada ao pai da Gilma, em nome do Padre Henriques. Mas quem faria tal façanha? Quem era capaz? E não deu outra: todos foram unânimes: a Míriam era a pessoa perfeita. Ela tinha o dom de imitar qualquer letra. Então, mãos á obra. E ali foram eles para a casa da Míriam que morava ao lado do Social Clube. E assim aconteceu. A bonita e inteligente menina-moça – estudante e jogadora de tênis e excelente nadadora escreveu uma carta ao pai da Gilma. E a amiga sentou-se diante de sua bela e moderna máquina de escrever “Remington” e redigiu a inocente carta. Prezado senhor: sua filha Gilma estudante desse conceituado Educandário é uma excelente aluna. Quiçá a melhor da sala. Menina inteligente, bem educada, de exemplar comportamento. Amante da Literatura brasileira declama poesias de cor, como ninguém. Sua declamação é realmente um encanto para todos nós. Parece um querubim, um anjo da primeira hierarquia declamando. E sua filha Gilma faz parte do Grêmio Literário Padre Leonel Franca. Chegou ao meu conhecimento que o senhor não deu permissão para sua filha participar da “excurção” que o Grêmio Literário fará a Ouro Preto. A sua presença é necessária e muito importante para o nosso Ginásio, pois ela vai declamar um poema muito bonito lá em Ouro Preto na Praça Tiradentes, representando o querido Ginásio. Fica sabendo o senhor, que a poesia é a música das palavras.
Aí, a inteligente e levada Míriam imitou a letra de Padre Henriques assinando o nome dele, tal qual sua assinatura nas cadernetas dos alunos. Perfeito. Ficou a artista, dois dias treinando a assinatura do Padre, assessorada pelas colegas amigas Pinheiro e Gilma. E lá foram para o distante Carneirinhos o João Bosco e o Norton entregar a bendita carta. Radiantes com o grande feito, convictas de que tudo ia dar certo, já faziam planos para a excursão na belíssima histórica Ouro Preto.
Então o que aconteceu? O pai da Gilma Teixeira comovido com a suposta carta do Padre Henriques que ele tanto admirava, emocionado, telefona para o Ginásio. Agradecendo ao Padre as palavras elogiosas referidas a sua filha e bastante comovido disse ainda: Padre Henriques, o senhor me convenceu, eu não ia mesmo deixar a Gilma ir a essa tal excursão a Ouro Preto. Não gosto que minhas filhas viajem sem mim ou da mãe delas, mas depois da carta do senhor mudei de idéia; eu deixo. Fiquei satisfeito e comovido com os elogios. O Padre Henriques que até então permanecia mudo, simplesmente respondeu com duas palavras em alto e bom som: que carta? Aí, começa uma confusão das grandes. Padre Henriques bravo como era, ficou furioso, possesso e começa logo apurar os fatos. Houve, como às vezes acontece em todos os tempos, um Silvério dos Reis. Sim, um traidor. Aquele feio Joaquim que traiu Tiradentes e seus companheiros e que ainda Joaquins existem no meio de nós. Pois é, um colega da turma contou ao Padre Henriques que foi a Míriam a autora da carta. E ela sabe quem foi o dedo-duro e hoje rola de rir. Um colega puxa saco, que vivia bajulando o Padre Henriques. No dia seguinte, alunos no pátio. Bate o sinal. Iniciam-se as aulas no saudoso e querido Ginásio Monlevade. O primeiro horário da turma de Míriam do senhor Nastrini era justamente aula de português com o Padre Henriques. Entra ele e um seco Bom-dia. Naquela época quando o professor entrava na sala de aula, os alunos se levantavam e o cumprimentavam – educação e respeito pelo mestre ou mestra. Os cinqüenta minutos de aula foram: a carta. Começou mais bravo, enérgico, dizendo que aquilo era caso de polícia, todavia não ia chamar a Polícia porque a autora era uma criança ainda. E falou… Falou… Falou… O discurso moralista do Professor durou os cinqüentas minutos, toda a aula. A sala de aula permaneceu muda. Um silêncio de necrotério predominou. Aí, Padre Henriques embasbacado dirigiu-se à bela escriba. Á medida que o Padre falava, de cabeça baixa Míriam ia só encolhendo na carteira. E o discurso moralista prosseguia. Foram regras de boa conduta, de deveres e leis que, desobedecidos acarretaram essa situação. Irônico e debochado, o sábio professor finalmente termina: com efeito “dona” Míriam o que fez é inadmissível e a “senhora Dona Míriam” aprenda a escrever corretamente a língua portuguesa. Excursão não se escreve com Ç. Francamente!
Escureceu total… A estrela vésper do pastor errante como diz o poeta Castro Alves desponta… Há lembranças que ficam, saudades que vão, que vêm, retratos que choram, que riem, que me beijam… Tempo bão a adolescência. Época em que vivíamos andando nas nuvens. E como era gostoso!
*A professora aposentada Coramar Alves foi colaboradora durante anos do jornal “Morro do Geo”, assinando a “Coluna da Cora”, e este artigo foi publicado na edição de nº 110, de junho de 2007.
































