O “Morro do Geo” pede um tempo e deixa sua obra imortalizada!

Nem  só  de  política  se vive,  entretanto,  nesta  história,  muito menos  de  coisas  sérias.  É  preciso  um  pouco  de  “açúcar  e  de afeto”  para  deixar  o  nosso  dia  a dia  mais  doce.  E  foi  assim  que  senti  essa  transformação  tão  logo entrou  em  circulação  o  “Morro  do  Geo”,  cujo  início  de  história vocês  já  sabem.  Deixei  para  o  final  de  toda  esta  história  as  boas coisas  produzidas  pelo jornal  que,  falando  de  uma  forma  em  que deixo  a  modéstia  de  lado,  foi  a  transformação  da mídia  em  João Monlevade.  Não  apenas  pelo  fato  de  ter  sido  um  periódico alternativo,  diferente  de  tudo  que  já  havia  surgido  no  meio,  mas por  ter  conseguido  resgatar  a  história  de  uma  cidade  antiga,  que nasceu  entre  as  montanhas  e  o  rio  Piracicaba,  e  sucumbiu  em nome  do  progresso,  através  da  expansão  da  Usina  da  Cia. Siderúrgica  Belgo-Mineira  nos  anos  1980.  Somado  a  este importante  resgate, transformou  notícias  sérias  em  matérias jocosas  e,  de  forma  irreverente,  brincava  com  as  pessoas públicas  que  estavam  nas  manchetes  dos  jornais tradicionais. Mas  sem  ser  ofensivo  ou  pejorativo,  usando  sempre  do bom humor.  Em  parceria  com  o  então amigo  Geraldo  Magela  Ferreira, demos  novos  codinomes  a  alguns  personagens  que  fizeram parte  de  nossa  política,  como  por  exemplo  o  ex-vereador  Luiz Cláudio  do  Patrocnio,  que  se  tornou  “Luiz  Cláudio  sem Patrocínio”;  o  ex-prefeito  Gustavo  Prandini  de  Assis  se transformou  em  “Degustavo  Prandini  de  São  Francisco  de  Assis”, Carlos  Augusto,   o  “Gugu”,  que  se   passou  a  se  chamar   “Gugu  da Galoucura  Gay  Lafond  Lacráia  Torres  Moreira”,  e  assim  por diante.  E,  entre  tantos  casos  e  causos,  algumas  reportagens  e personagens  se  tornaram  ícones  do  “Morro  do  Geo”, como  o caso  da  bandidona  “Dona  Bebé”,  criada  pelo  Magela  e  que acabei  transformando  em  uma  das  protagonistas  do  periódico, uma  velha  de  90  anos  que  tinha  um  corpo  escultural,  com dezenas  de  fugas  da  cadeia  após  bater  em  policiais  e  com  uma extensa  folha  criminal.  Grande  parte  dos  leitores  acreditava  que ela  era  realmente  um  personagem  real.  Quantas  vezes  cheguei  a ser  parado  na  rua  para  explicar  a  alguns  “desavisados”  como uma  senhora  daquela  idade  tinha  tanta  vitalidade!  E  as manchetes  de  Capa,  criativas  e  hilárias, feitas  sob  medida  para chamar  a  atenção  do  leitor  e  vender  o  jornal  nas  bancas.  Depois de  todo  o  jornal  pronto  e  diagramado,  aí  sim,  eu  buscava  a matéria  de  Capa,  a  maioria  delas  inventada,  no  sentido  de aguçar  a  curiosidade  dos  leitores,  que  ficavam  ansiosos, procurando  a  matéria  completa  em  uma  página  interna,  como  na visita  de  Roberto  Carlos  a  João Monlevade  no  Natal,  ou  a  visita  do Padre  Marcelo Rossi durante  a  Semana  Santa,  ou  mesmo  a  do  Papa, anunciada  em  uma  das  edições.  Sem  contar  que  o  jornal circulava,  por  exemplo,  com  10  páginas,  e,  abaixo  da  manchete chamativa  se  informava:  “Reportagem  completa  na  página  12”. E muitos leitores procuravam a tal “Página 12”!  Houve  o  caso  de uma  secretária  da  Funcec  –  quando  fiz  uma  nota  sobre  a  visita do  então  presidente  Lula  a João Monlevade,  fazendo a  chamada  para a  página  12,  que  ao  encontrar-me  com  ela,  em  sua  sala,  na Faculdade,  perguntou  se  o presidente  estaria  mesmo  na  cidade  e  eu disse  que  sim.  Não  encontrando  de  forma  alguma  a  página  que procurava,  aos  berros,  chamou  uma  colega  de  serviço  e  disse:  – “Eu  sabia.  Vocês já  mexeram  no jornal  e  tiraram  a  página  12”.  O curioso  era  que  a  maioria  dos  leitores  não  lia  ou  não  prestava atenção  no  Cabeçalho,  que  citava  o  número  de  páginas  daquela edição,  mas  se  preocupava  mesmo  era  com  a  manchete. E a menina pegou por algum tempo o apelido de “Página 12” (rs)!

Ah,  mas  entre  as  histórias  e  fatos  que  provocaram  gargalhadas, vou  citar  apenas  alguns  que  ficaram  marcados.  Do  primeiro deles,  fui  testemunha  ocular  dos  fatos.  Estávamos  eu,  Zé  Maria e  Conceição,  na  Banca  de  revistas  do  casal,  ali  na  Praça  Sete, domingo  de  manhã,  quando  sempre  passava  ali  para  jogar conversa  fora.  A manchete  do jornal  daquele  mês  era  a  seguinte: “Passeata  Gay  em  Monlevade  em  Setembro”.  Não  me  lembro da  data,  mas,  pela  matéria,  ocorreria exatamente  naquele domingo, quando estávamos ali conversando . Nisso aproximaram-se  duas  pessoas,  da  Wilson  Alvarenga  em  sentido à  praça,  e,  uma  delas,  um  sujeito forte,  mas  com  todo  o perfil  de  ser  homossexual,  parou  exatamente  na  banca  e começou  a  olhar  os  jornais  ali  expostos,  chegando  exatamente ao  “Morro”.  Leu  a  manchete  e,  de  súbito,  se  dirigiu  a  José Maria,  perguntando  se  a  passeata  gay  seria  mesmo  naquele  dia, porque  ele  não  havia  visto  nenhum  movimento pela cidade.  Seu  colega, apenas  observando.  Eu  e Conceição  nos  segurando.  Nisso,  José Maria  diz  que  melhor  seria  perguntar  para  mim,  por  ser  o responsável pelo jornal. E agora, José? Estava perdido, pois não me  aguentando  mais  a  ponto  de  soltar  sonora  gargalhada,  ainda teria  de  dar  uma  resposta  ao  rapaz.  Concentrei-me  e,  com semblante  sério,  disse  a  ele:  –  “Olha,  seria  hoje,  sim.  Mas,  como a  comunidade  de  Juiz  de  Fora  não  pôde  comparecer, transferimos  a  passeata  para  outubro”.  Agradeceu  e  saíram  os dois sem eu saber se ficaram satisfeitos com minha justificativa.  Depois  nós  três  rimos  muito  e  aquele  caso  sempre é  lembrado.  Houve  ainda  outro  caso  envolvendo  José  Maria  e Conceição, que sempre foram os “termômetros” sobre as repercussões das matérias publicadas no “Morro do Geo”, vamos assim dizer, do  retorno  do jornal  perante  a  opinião  pública.  A manchete foi esta: “Pesquisa Data-Morro revela que mulheres de Jean Monlé são as que mais pulam a cerca”. Meu Deus, havia provocado uma grande briga, já que as mulheres monlevadenses teriam sido acusadas de “adúlteras” e aquilo quase me custou mais um processo na Justiça. Quando o jornal chegou às bancas, várias senhoras da tradicional família mineira algumas beatas e da Irmandade soltaram farpas contra a manchete. Uma delas, segundo afirmou Conceição, disse, aos berros, que “chifrudo deve ser esse gordo que faz este jornalzinho. Falta de respeito. Vamos processá-lo”. A esposa do Zé Maria ainda tentou contornar a situação, mas quase foi linchada por tentar defender-me (gargalhadas)!

Poderia  citar  outras  centenas  de  exemplos  sem  nenhum exagero. Como  o  caso  de  um  representante  comercial  de  São Paulo,  que  se encontrava  na  empresa  Esmetal,  na  recepção, aguardando  ser  atendido,  quando lia o  “Morro  do  Geo”. E a manchete daquela edição era:   “Vereadores  de  Jean  Monlé  querem  multar  mulheres  que  mostram  o  Cofrinho”.  E  ilustrando  uma  fotografia com  uma  mulher  sentada,  com  o  “cofrinho”  todo  à  mostra.  O senhor  virou  para  a  recepcionista,  sobrinha  dos  senhores Rodolfo  e  Raimundo  Passos  e  retrucou:  – “desculpe,  menina,  que eu não sou daqui. Mas os vereadores desta cidade não têm serviço, não? Preocupando-se com o bumbum das mulheres”. A recepcionista não aguentou de tanto rir, até explicar o mau entendido.

Quem  sabe,  um  dia,  tento  produzir  outra  obra,  exclusiva,  sobre  o “Morro  do  Geo”,  que  durante  11  anos circulou  na  cidade – de 2001 a 2012 – e deixou  sua  marca  na  imprensa  local  como  um  pioneiro  que  não deixou  morrer  a  nossa  história  antiga,  tornando  aguçada  a memória  do  povo  monlevadense.  O  “Morro  do  Geo”  pediu sim,  um tempo,  mas  retornou em 2017 e circulou por mais 4 anos, ou seja, até 2020. E se tornou  imortal  pela  obra  aqui  deixada.  Por  ter  dado o  prazer  àqueles  que  viveram  e  testemunharam  o  nosso  passado e  puderam  recordar  as  boas  lembranças,  assim  como  passou  aos mais  jovens  o  conhecimento, oferecendo  a  eles  a  oportunidade de  viajar,  através  dos  fatos  e  das  fotografias,  à  João Monlevade antiga,  entre  a  Cidade  Alta,  o Viaduto  que  levava  às  casas  dos operários,  que  ficavam  entre  as  montanhas  e  a  Usina,  e  às  praças do  Cinema  e  do  Mercado.  E  tivemos  a oportunidade  de entrevistar  antigos  moradores  que  contaram  a  história  da  1ª  Vila Operária  da  América  Latina  e  falaram  daqueles  que  ajudaram  a construir  a  cidade,  que  nasceu  do  pioneirismo  do  francês  que deu  o  nome  ao  lugar,  Jean  Antoine  Félix  Dissandes  de Monlevade,  que  aqui  desembarcou  em  maio  de  1817.  Da  cidade que se projetou como pólo siderúrgico nacional através das mãos do luxemburguês Louis Jacques Ensch, a partir da década de 1930. O “Morro do Geo” manteve aguçada a memória do povo monlevadense e deixou sua semente plantada. Este foi o nosso legado, que permanece hoje aqui, sendo transportado do formato impresso para a rede mundial de computadores!

*Do Livro “A Saga: Memórias de um Jornalista do Interior” – Epílogo!

Autoria: Jornalista Marcelo M. Melo!

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