Na fotografia acima, a Irmã Moniq, que faleceu em 2023, aos 104 anos de idade, e deixou um legado social e cultural de grande relevância a São Domingos do Prata e região, cuja obra está na Fundação Moniq Leclecq, e pode ser visitado no Instragram (Crédito: Fundação Moniq Leclecq e pelo historiador e amigo Petrônio Castro)
Uma irmã que há mais de trinta anos faz diminuir o sofrimento de crianças da Região
A personagem do MORRO DO GEO desta edição é a irmã dominicana Moniq Leclecq, que há exatos 34 anos reside em São Domingos do Prata e presta um trabalho social de grande envergadura naquela cidade. Ela dirige uma Fundação que dá assistência a mais de duzentas crianças carentes, através de lazer, educação, arte, cultura, alimentação e saúde. Trata-se de uma “santa” que, aos 83 anos, não mede esforços e coloca o ideal acima de toda vaidade. Não se mistura em política partidária, mas apenas pede justiça para com os mais necessitados. O município do Prata tem hoje um grande fator positivo com relação aos outros do Médio Piracicaba: não se vê crianças nas ruas à procura do que fazer, pois eles têm ocupação. Um exemplo de dignidade e perseverança. Esta é a Irmã Moniq, que consegue provar que este mundo ainda vale a pena.
Abaixo uma reportagem completa que fizemos com a irmã, no ano de 2002, em um dos locais onde recebe as crianças, em São Domingos do Prata!
Uma mulher pode transformar a vida de muitas pessoas, dependendo apenas de seu ideal como cristã. Pois é assim a prática desta francesa, chamada Moniq Leclecq, nascida no norte da França e que chegou ao Brasil em novembro de 1951. Da ordem das Irmãs Dominicanas, ela veio para o país por determinação da própria Ordem, já que na França havia pouco espaço para suas ações. Residiu primeiro em Belo Horizonte, onde criaram o Colégio Santa Maria, e depois no Rio de Janeiro e em Poços de Caldas. Para sorte da população de São Domingos do Prata, ela chegou a esta cidade do Médio Piracicaba em 1968, onde há 34 anos ajuda na recuperação de crianças e adolescentes, através de um trabalho social que daria inveja a muito político clientelista.
Pois bem, mas desde que chegou ao Prata, no final da década de 60, a irmã Moniq (como é mais conhecida) vem conseguindo dar uma outra perspectiva de vida àquelas crianças oriundas de famílias mais pobres e que praticamente não acreditavam no futuro. Primeiro, com a abertura da Feira dos Produtores e, em 1978, deu início às Obras Sociais com apoio da própria Ordem Religiosa, e também de alguns empresários de São Domingos do Prata e do poder público. À Frente da instituição, foi firmado um convênio junto ao governo federal para construções de casas populares. De uma leva só, a irmã conseguiu, através de mutirão, a construção de cem casas e, algum tempo depois, mais cem. Nascia o Bairro Cerâmica, hoje um dos mais populosos de São Domingos do Prata. Graças a esta mulher, que parece tão frágil, mas que no âmbito é um furacão quando se fala em trabalho.
Fundação!
Foram vinte anos somente ministrando as Obras Sociais, onde centenas de meninos e adolescentes aprenderam um ofício e hoje são adultos e sabem trabalhar com a lavoura, ou na indústria. Fizeram-se homens porque havia uma pessoa interessada em ajudá-los, que acreditava na capacidade de cada um deles.
Pois bem, mas visando dar maior dinamismo à instituição, foi criada a Fundação Moniq Leclecq, que funciona desde dezembro de 1998, tendo sido registrada oficialmente em março de 1999. A Fundação é apenas a continuidade das Obras Sociais, que acabou sendo destituída pela falta de interesse da população. No entanto, segundo afirmou a própria irmã Moniq, a Fundação vem conseguindo se manter, através da colaboração das Irmãs Dominicanas Francesas e também por parte de um grupo ligado à iniciativa privada, e o poder público.
A Fundação conta com uma escola no Bairro Cerâmica, onde a irmã Luciene trabalha com cerca de 120 crianças na faixaetária de 6 a 15 anos. Há um horário extraclasse, já que todos têm de freqüentar a escola convencional. Com a ajuda da cozinheira Creuza e da voluntária Aline Aparecida de Oliveira – que há seis anos freqüenta a Fundação -, a irmã Luciene atendeu à nossa reportagem, lembrando que no total são três monitores e seis voluntários trabalhando no estabelecimento. “Além do reforço escolar que concedemos às crianças, há também outras atividades, entre elas jogos pedagógicos, pintura, artesanato, bordado, tricô e também contamos com uma banda de flautistas, no total de 40 meninos e meninas”, disse orgulhosa a irmã. Há uma maestrina, a Edneide, que comanda os músicos com ensaios diários, e sempre ocorrem apresenta-ções. Luciene disse ainda que há também uma fonoaudió-loga que semanalmente comparece à Fundação para atender os que necessitam.
Dali seguimos para o sítio São Martinho, retirado a uns cinco quilômetros do centro do Prata, e onde a irmã Moniq trabalha diariamente com cerca de 70 crianças e adolescentes. Ela mesma dirige o seu Fusquinha da cidade à zona rural, em plena forma aos seus quase 83 anos de idade, e muito bem vividos, como costuma brincar. Um lenço na cabeça e uma enxada nas mãos, foi assim que encontramos a francesa, em terras que ela já adotou como pátria. Das 13 às 16 horas trabalha duro com os meninos, plantando e colhendo. Uma parte dos produtos é comercializada e a outra é dividida entre os pequenos operários, cujas famílias geralmente vivem com uma renda muito baixa. No local, há também um campo de futebol, um lindo e grande pomar com vários tipos de frutas e uma escola para reforço escolar. Além de uma bem montada cozinha que serve uma comida reforçada aos meninos, por volta das quatro da tarde. No dia de nossa visita, uma saborosa sopa com legumes e verduras. Também na casa do Bairro Cerâmica é servido almoço pela manhã e um sopão vespertino. Ao total, contou a irmã Moniq, são cerca de 200 refeições diárias. “O que entra é pouco, mas Deus está sempre dando uma força”. Também as comunidades rurais colaboram muito e sempre doam alimentos à Fundação.
Assim vive esta “santa” senhora, que faz para os outros e sente-se realizada com sua obra. Não faz caso de aparecer. Gosta de estar sempre atuando em prol de pessoas mais humildes. Segundo ela, “infelizmente a pobreza se generaliza aqui no Brasil, e por isso não vamos acabar com ela. Mas podemos fazer nossa parte. Afinal, esses meninos que convivem conosco hoje aprendem que poderão ser úteis amanhã, através da liderança de cada um. Aqui, nesse meio, existem crianças de grande potencial. É só a gente saber explorar”.
A Fundação conta ainda com outro sítio, próximo ao de São Martinho, onde atuam dois profissionais voluntários, mais quatro monitores, um técnico agrícola e um funcionário emprestado pela Prefeitura.
As fotos abaixo foram publicadas quando realizei a entrevista com a Irmã Moniq. Na primeira, ela cuidando de sua horta, sua grande paixão; e na outra junto às crianças que trabalhavam na agricultura, e em contra partida tinham lazer e reforço escolar no sítio. Aqui, saboreavam um delicioso e nutritivo sopão no final da tarde. Diariamente, eram servidas cerca de 200 refeições aos meninos e meninas carentes do Bairro Cerâmica


*Matéria publicada na edição de nº 33 do jornal “Morro do Geo”, de 6 de junho de 2002!































