Carta Aberta à População sobre “A Verdade por trás da Matriz São José Operário”! * Kemmerson Drummond.

Dizem por aí que macaco velho não pula em galho seco, mas quando a história e o patrimônio da nossa terra estão em jogo, a gente precisa dar a cara a tapa, subir no galho e mostrar como se faz. Escrevo este texto para colocar os pingos nos is, sem filtro e com respeito. Há quem adore carimbar quem vem de fora com o rótulo conveniente de “forasteiro” só para não ter que encarar fatos, leis e documentos.

Então, vamos ao que interessa: nasci em João Monlevade, fui criado em Nova Era, sou filho do Siribi – do qual os mais velhos certamente hão de se lembrar e estudei durante três ótimos anos no Luiz Prisco. Ou seja, sou filho desta terra e tenho orgulho de poder usar meu conhecimento para ajudar agora. Não escrevo por vaidade, nem para acender vela para defunto ruim ou para atacar quem quer que seja. Escrevo porque cansei de ver o cansativo combate “político” travado pelo ego entre o “eu” e o “nós”. Críticas são bem-vindas quando há diálogo e boa vontade. Para quem gosta de conversa fiada, eu trago recibo.

A história do Projeto Vereda, Verdade e Vida começou em fevereiro, quando o Padre Jefferson me apresentou o nó cego que vinha tentando desatar há mais de cinco anos: a impossível manutenção da Matriz São José e da Gruta Nossa Senhora de Lourdes. No dia 13 de março, às 14h30, a reunião de financiamento saiu da conversa de comadre e virou realidade. O órgão estadual cravou com todas as letras: “Tenho interesse e tenho recurso”. Bastou essa frase para a mágica da política local acontecer: um agente público do município, tomado por uma generosidade súbita, ofereceu a contrapartida de R$ 500.000,00 – ofereceu voluntariamente, frise-se, ninguém pediu! e outro representante, no piloto automático, emendou: “Ah, em até 45 dias teremos tudo resolvido”. Como cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, seguimos o fluxo e solicitamos esses R$ 500 mil diretamente na Fase I, a Gruta. Afinal, aportar o dinheiro primeiro na Igreja, com o histórico de paralisações que depois todos viram, seria prudência pura para não ver o recurso bloqueado.

Sobre a Fase I, no dia 20 de maio, o Conselho Municipal do Patrimônio Cultural aprovou, por unanimidade dos presentes, o Plano de Trabalho detalhando item por item. No dia 2 de junho, assim que o recurso foi repassado à Paróquia, enviamos um comunicado oficial ressaltando a aprovação do plano, a relevância do projeto, os compromissos com o Ministério Público (MPMG) e solicitando a análise nos seguintes prazos: até 15 de junho de 2026 para a Gruta (as plantas arquitetônicas) e até 25 de junho de 2026 para os documentos da Matriz. Mas quem disse que a burocracia gosta de caminho reto? Em uma pirueta exótica ocorrida em 11 de junho, a Casa de Cultura, o Conselho de Patrimônio e a Comissão Intersetorial de Acompanhamento (recém-nascida) oficiaram a Paróquia cobrando “esclarecimentos formais” por suposta “descaracterização do bem”. Tentaram inventar defeito aquilo que era o espelho exato da proposta que eles mesmos já haviam aprovado! Uma manobra perigosa, mas que não deu muito certo.

Para sair do atoleiro criado, tiraram da cartola um parecer de 2 páginas, escrito por uma empresa privada de consultoria que presta serviços exclusivos à Casa de Cultura, datado de 16 de junho, tratando o documento como a única salvação para validar todo o projeto. Depois desse malabarismo, no dia 17 de junho, em outra reunião, o Conselho resolveu aprovar as plantas exatamente porque o Executivo local estava presente. Reparem no espetáculo do absurdo: aprova-se algo, inventa-se sem fundamento, perde-se mais tempo, gasta-se dinheiro público com consultoria sem amparo regimental do Conselho, analisa-se 2 páginas e aprova-se pela técnica e pressão interna! Passada essa vergonha desgastante, iniciamos a obra da Fase I no dia 2 de julho. Frisa-se que a interdição da Matriz estourou nesse meio tempo, mas quem tem juízo e prudência não para uma fase já contratada para refazer todo o processo do zero.

Entramos então na Fase II, a Matriz São José, que virou prato cheio para o tal “vale tudo pelos cliques”. Assistimos a momentos ridículos de gente falando besteira, criando ilusões e críticas infundadas. Só esqueceram do básico: as câmeras não mentem! O que está gravado é fato, não narrativa de conveniência. Enquanto a palhaçada corria solta, o sumiço da organização municipal prevalecia. Lembra do e-mail com a informação do prazo de 25 de junho? Não serviu para nada! No dia 26 de junho, recebemos o Ofício nº 64/2026 pedindo dilação do prazo até 23 de julho de 2026, o que atendemos prontamente, encaminhando ao MPMG, que validou.

Aguardei pacientemente até 20 de julho por uma resposta da Casa de Cultura, que coordena o Conselho. Silêncio sepulcral. No dia 21 de julho, cobramos posição para prestar contas ao MPMG e levamos um balde de água fria por e-mail: “Informamos que o material também foi encaminhado à consultoria técnica, da qual estamos aguardando o parecer. Tomamos conhecimento hoje de que a Secretaria Municipal de Obras já realizou a análise técnica…” e “…acreditamos que, com o parecer da consultoria… teremos melhores condições de encaminhar o projeto para apreciação do Conselho”. Como assim? Não agendaram a reunião? O que eu diria ao MPMG sobre o descumprimento do prazo?

Para piorar o deboche, a consultoria privada da Casa de Cultura, que nem representa o Conselho e nem fora pedida pelos conselheiros, emitiu orientação para que as exigências fossem baseadas no IPHAN! Para quem não sabe, a Matriz e a Gruta são bens tombados pelo município, e não pelo órgão federal. Exigir rigor do IPHAN para tombamento municipal é o famoso “procurar chifre em cabeça de cavalo” só para travar a obra e depois dizer que “o projeto não foi aprovado porque não cumpriram os critérios”. E vale explicar a vocês como funciona a mágica do tombamento: todo ano João Monlevade inventaria seus bens e manda para o Estado para receber o dinheiro do ICMS Cultural, apenas R$ 200.000,00 ao ano. Na teoria é lindo, mas na prática o dinheiro entra no caixa livre, sem obrigação de prestar contas ou gastar um único centavo diretamente com a Gruta ou a Matriz. Vendo essa enrolação, elevei o tom e incluí nos e-mails todos os vereadores, os gabinetes do Executivo e a Procuradoria do Município. Sabe quantos apareceram para ajudar? Apenas 1. A Igreja, para muitos, só serve como cenário fotográfico em época de eleição para caçar voto. Diante de tanta omissão, o Padre Jefferson, na sua imensa boa-fé, pediu à Diocese que solicitasse a dilação diretamente ao MPMG, evitando a provável perda do recurso. O MPMG aprovou imediatamente.

Organizamos então outra reunião para o dia 4 de agosto com o Executivo local e convidamos os vereadores. Lá, tentaram me colocar contra a parede dizendo que a proposta não havia sido apresentada. Respondi sem anestesia: “Os desenhos técnicos foram apresentados, analisados e já tenho a certidão de aprovação feita pelo departamento da prefeitura e a proposta está pronta, com 240 páginas desde 11 de julho e não houve marcação da reunião do Conselho por qual motivo? Eu não vou apresentar uma proposta sem definição de agenda para ter que vergonhosamente mentir para o MPMG”. Apertado pela verdade, o Prefeito exigiu a marcação da reunião, que foi agendada para 11 de agosto, às 18h30. O dia chegou e o que aconteceu? Ausência de quórum! Um teatro tão mal ensaiado que foi reagendado para 13 de agosto, às 17h30, na Prefeitura. Mas a comédia continuou nos bastidores: no dia 12 de agosto, descobrimos que a Casa de Cultura, os Conselheiros e a arquiteta da consultoria privada se reuniram às escondidas, no escurinho do poder, sem transparência, para montar uma estratégia com o rigor extremo longe do público e tudo pago com o seu dinheiro, claro! O tal parecer privado foi assinado exatamente às 23h01 neste mesmo dia. Complexo, né?

Como se não bastasse, no próprio dia 13 de agosto, às 10h22 da manhã, enviaram um e-mail extremamente seco e mal-educado remanejando o horário da reunião das 17h30 para as 16h. Sem qualquer cortesia ou esclarecimento prévio, limitaram-se a escrever: “A reunião ocorrerá hoje às 1Ch e o link da reunião será encaminhado mais tarde.” Uma manobra extremamente conveniente para impedir a participação dos vereadores que tínhamos convidado. Mudar tudo em cima da hora para esvaziar a presença de quem poderia fiscalizar: coincidência ou método?

Já no ato da reunião, nesta sexta-feira, 14 de agosto, o Conselho transformou o parecer em análises “profundas” como, por exemplo, no item INT-22, sobre a Mesa do Altar, dizendo que ela existe desde os anos 1960 e que a substituição é tema “sensível no que tange à memória da comunidade”, ou ainda, no item EXT-23, sobre o piso externo, que “intervenções como estas costumam causar comoção popular”. Vejam que espetáculo: usar “comoção popular” como desculpa para dar ressalvas ou condicionantes.

Apesar de todo esse circo, de todos os atrasos, das manobras e do desgaste, o projeto foi aprovado! A proposta segue agora para o Ministério Público. Se a Casa de Cultura queria demonstrar brilhantismo, que demonstre, mas aprenda a respeitar prazos, porque uma obra não pode parar pela conveniência. O protagonismo desta vitória pertence exclusivamente a vocês, povo de João Monlevade. Nunca vi a Instituição Igreja transformar seu templo em circo ou cassino; o que propomos do início ao fim é resguardar a história e a fé com dignidade para que as próximas gerações usufruam. As máscaras caíram, os documentos provam tudo, e a vitória é de todos nós.

*Kemmerson Drummond é Administrador e Gestor Executivo do Projeto da Matriz São José Operário!

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