Capa de uma das edições do “Jornal de Monlevade”, fundado pelo jornalista Elmo José Lima, e onde tive o prazer de trabalhar e crescer profissionalmente
Ainda naquele ano, outro fato que marcaria minha carreira. Na oportunidade, o deputado federal constituinte, João Paulo Pires de Vasconcelos, deixava a capital federal para uma visita de urgência a João Monlevade. Estávamos em meados de 1989 e a categoria dos já se encontrava em clima de data-base com a Belgo-Mineira, reivindicando melhoria salarial com possibilidade de ser deflagrada uma nova greve. No entanto, como ocorria às vezes nos bastidores sindicais, um grupo dos diretores era contrário e outro favorável à paralisação. Acontecia sempre nessas ocasiões um jogo de forças e, durante cobertura das assembleias realizadas na antiga sede da Rua Siderúrgica, cheguei a presenciar discussões entre eles, cujo objetivo era se chegar a um consenso, para que os dirigentes tivessem um mesmo discurso durante a apresentação da proposta aos operários. Em outros casos, os quais posso definir como “obra da coincidência”, no meio da assembleia, o presidente do Sindicato recebia “um telefonema” de um diretor da empresa e, após atender à ligação, surgia com uma contra proposta patronal que viria agradar à categoria. Só não se sabe se era real ou não aqueles telefonemas em todas as ocasiões (sic) . Isso ocorria geralmente quando havia uma divisão entre os metalúrgicos, e a diretoria perdia um pouco o controle da situação. Nem sempre o que os líderes queriam era acatado pela categoria. Pois bem, foi numa dessas situações que o deputado João Paulo chegou à cidade, justamente para usar de sua liderança e para evitar um confronto com a empresa. Aquele não era o momento para a deflagração de uma greve, e a classe estava dividida. O presidente da entidade, Antônio Ramos, chegou a ser tachado de “pelego” por grupos isolados dos operários e o clima era tenso. O deputado, ao participar de uma assembleia, com seu poder de persuasão, conseguiu reverter a situação – que não era muito favorável aos dirigentes sindicais -, selando a paz. É exatamente aí que começa a minha história com o nobre parlamentar.
Cheguei à sede do Sindicato na manhã seguinte à assembleia e encontro João Paulo assentado na cadeira do então secretário- geral da entidade, o vereador Gilberto Gomes. Também estava presente na sala o professor Carlos Roberto. Aproximo-me do deputado, puxo assunto sobre o motivo de sua visita e tem início uma conversa que poderia parecer informal aos olhos do deputado, mas que, para mim, era trabalho. Ele dizia estar cansado e aproveitou para levar o assunto para a área da política partidária. Depois de falarmos sobre sua atuação no Congresso Nacional e o elogiar pelo seu bom desempenho na elaboração da Nova Constituinte, pergunto sua opinião com relação ao governo do prefeito Leonardo Diniz, especificamente sobre o grande número de funcionários contratados para ocupar cargos de confiança, todos vindos de outras cidades. Para minha surpresa, João Paulo fez duras críticas ao seu colega, por trazer tantos forasteiros para o governo, afirmando que João Monlevade sempre teve profissionais capacitados para ocupar os mesmos cargos. E, como agravante, o caso isolado de Neide Roberto que, depois de atuar como secretária executiva nos governos dos ex-prefeitos Antônio Gonçalves e Germin Loureiro, foi remanejada para vender fichas de telefone público no Terminal Rodoviário, tão logo Leonardo assumiu a Prefeitura. O fato deixara João Paulo indignado.
Na oportunidade, durante nossa conversa, não usava gravador, e nem anotava nada. Mas estava ali diante de uma autoridade política e representante de nosso Estado, na Câmara Federal. E ele sabia que estava diante de um repórter e em nenhum momento disse que a conversa era “in off”. Portanto, eu não poderia perder a oportunidade. Tinha um grande furo nas mãos e cheguei radiante à redação do “Jornal de Monlevade”, quando disse ao Elmo Lima, João Carlos e Geraldo Guerra: – “Temos a manchete desta semana”. E assim era publicada na página de capa: “João Paulo critica Leonardo pela contratação de Forasteiros”. Os exemplares desta edição desapareceram das bancas rapidinho, mas a história estaria apenas começando, porque, na semana seguinte, uma assessora do deputado, a jornalista Sandra Regina, que trabalhava ainda na extinta Rede Manchete, entraria em contato telefônico com o diretor Elmo Lima, pedindo retratação da matéria. Seria a minha palavra contra a de João Paulo. Reunimo-nos na redação e, temeroso, Elmo achou melhor acatar o pedido do parlamentar. Não concordei, mas aceitei, com uma ressalva: na mesma edição em que fosse publicada a retratação, eu confirmaria a minha versão na coluna que assinava no periódico, o “Com-Mentando Monlevade”. E assim foi feito. Na semana seguinte, outro telefonema da assessora, não satisfeita pela minha postura. Em tom de ameaça, dizia que poderia mover um processo contra o jornal. Não me intimidei e mantive meu posicionamento, enquanto João Paulo insistia em desmentir a matéria. Com toda razão, afinal, as suas críticas contra o governo petista do amigo Diniz estremeceram as relações e criaram um mal estar muito grande entre as partes, que demorou algum tempo para se normalizar.
No periódico, o assunto foi encerrado e nenhuma ação judicial movida pelo parlamentar. O que deixou Elmo Lima aliviado. No entanto, o caso se tornou uma questão pessoal após o encontro casual que ocorreu entre eu e João Paulo, quando levei minha então esposa Marilene para conhecer as dependências da Coopremon. Parecia obra do acaso, mas ao entrar pelo lado onde ficava o Frigorífico, demos de cara com o deputado, que estava acompanhado de sua esposa, Dona Cecília Vasconcelos, e dos amigos Francisco Rosa e Lourival. Ele, de longe, começou a gritar meu nome, dizendo em forma irônica que estava muito feliz em me encontrar novamente. Cheguei mais perto e nos encaramos, e ele me chamou de mentiroso. Respondi no mesmo tom, dizendo que mentiroso era ele. O clima ficou tenso, quando Marilene e Dona Cecília deixaram o local, assustadas, enquanto Chiquinho Rosa e Lourival tentavam nos acalmar, evitando até mesmo que chegássemos às vias de fato. Foi uma discussão ríspida e ele insistia em dizer que “você não estava nem com papel ou gravador e nossa conversa era informal. E como foi publicar aquela matéria”? Foi quando lhe respondi: “Então você assume que disse aquilo? Bom sinal. E realmente você tem razão. Eu não usava nenhum gravador e nem um papel para anotar o que você disse naquele dia. Mas um bom repórter precisa ter é cabeça para guardar as coisas que nos falam, e você, experiente, acostumado a conviver com a grande mídia, sabia que estava diante de um profissional da imprensa e em nenhum momento avisou que a conversa era “in off”. Apesar do mal estar gerado pelo acontecimento, as coisas terminaram bem e pude sair dali aparentemente tranquilo, a alma lavada e a consciência do dever cumprido. Só mesmo as mulheres ficaram mais assustadas. Confusão à parte, nada que uma boa cerveja não resolvesse. Afinal também sou filho de Deus e no jornalismo, não há stress que resista ao sabor deu uma gostosa loira gelada.
*Do Livro A Saga: Memórias de um Jornalista do Interior” – Parte XXIII
Autoria: Jornalista Marcelo M. Melo!

































