Nova fase nas Rádios “Piratas”!

O  “Morro  do  Geo”  ia  muito  bem,  obrigado!  A Faculdade,  apesar  dos  destemperos  com  alguns  professores,  também.  A Rádio CDL e  o  convite  para  ingressar  em  outra  emissora,  também “Pirata”,  a Mundial,  que  tinha  como  proprietário  Sidney  Muller, muito  próximo do  prefeito  Carlos  Moreira  e  considerado  por alguns  um  “laranja”.  Mas  eram  só  especulações,  eu  acredito.  A Mundial  tinha  sede  no  alto  do  Bairro  Rosário.  Voltei  a  trabalhar com  o  colega  Rony  Alcântara,  que  fazia  o  horário  matinal.  Eu faria  um  programa  vespertino,  de  16  às  18  horas,  nos  mesmos moldes  do  “Plantão  Cultura”.  Tinha  plena  convicção  de  que, mais  uma  vez,  estava  sendo  “usado”  politicamente,  pelo  grupo comandado  por  Mauri  Torres  e  Carlos  Moreira,  os  mesmos  que haviam  dado  “facadas”  pelas  costas  nos  episódios  da  Câmara Municipal  e  na  Rádio  Cultura.  Mas  não  me  importei.  Primeiro, porque  iria  fazer  o  que  sempre  gostei,  minha  maior  paixão,  o rádio.  Em  segundo  lugar,  pelo  salário,  que  compensava.  E terceiro  porque  queria  ver,  em  mais  um  mandato,  o  PT bem longe  do  poder  e  era  mais  uma  oportunidade  de  ser  o  seu  algoz durante a  campanha  eleitoral  do  ano  seguinte.  Fechei  então  acordo  e com  a  liberdade  que  não  tinha  pela  emissora  da  CDL,  onde trabalhava  pela  manhã.  Afinal,  a  emissora  pertencia  a  uma entidade  de  classe,  no  caso,  a  CDL,  e  tinha  de  fazer  um programa  menos  politizado.  Mas  não  precisou  de  muito  tempo para  que  o  programa  ganhasse  a  simpatia  popular  e  tivesse  bons índices  de  audiência.  Logicamente,  com  menos  público ouvinte,  já  que  a  emissora  não  tinha  o  mesmo alcance  do  que  a Rádio  Cultura.

Vou  aproveitar  para  abrir  um  parêntese  e  relatar  um  e pisódiodigno  de  disputa  eleitoral.  Ainda  funcionava  em  caráter provisório  a  Rádio  Comunicativa,  controlada  pelo  PT e  pelo Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos. Durante um programa  matutino  na Comunicativa,  o  ex-sindicalista  e  ex-deputado  João  Paulo  Pires  de  Vasconcelos  encontrava-se  na emissora,  para  conceder  uma  entrevista  ao  comunicador  Carlos Silva.  Durante  o  bate-papo,  o  telefone  ficou  aberto  ao  público  e, do  lado  de  lá  da  linha,  entrou  no  ar  o  polêmico  desportista Antônio  de  Pádua,  o  popular  “Porquinho”.  Ele já  entrou  batendo pesado  no  convidado  do  apresentador  e  relatou  fatos  até ofensivos,  chegando  a  dizer  que  “Você,  –  referindo  a  João  Paulo – só  aparece  em  João Monlevade  na  época  de  campanha.  Hoje  são vários  desempregados  por  sua  culpa  e  você  inda tem  a  coragem  de  retornar  à  cidade  para  pedir  votos  ao  PT”.  O clima  esquentou  e  Carlos  Silva  ficou  meio  sem  reação, enquanto João Paulo certamente deve ter ficado bastante constrangido ali no  estúdio.  Minutos  depois  o  telefone  foi cortado,  mas  aqueles poucos minutos foram suficientes para gerar grande repercussão  na  mídia  e  entre  os  ouvintes  do  programa.  Fui  o primeiro  a  pegar  o  gancho  e,  naquele  mesmo  dia,  em  meu programa vespertino  na  Mundial,  aproveitei a pauta e, literalmente, joguei farofa no ventilador (rs).  Fui  duro  nas  críticas  ao  João  Paulo,  que  sempre  aparecia  na cidade  conduzindo  seu  Fusquinha  66,  que  havia  recebido  de presente  pelo  Sindicato  dos  Metalúrgicos,  nos  anos  1970,  na época  das  vacas  magras.  Tantos anos  depois,  aquele  veículo  era apenas  uma  forma  de  o  ex-dirigente  sindical  e  ex-deputado constituinte  tentar  mostrar  à  população  monlevadense  que  era  o “João  de  sempre”,  levando  sua  mesma  vidinha  simples. 

Não deu outra: a reação  por  parte  do  Sindicato  dos  Metalúrgicos  foi  imediata e quando  fazia  meu  programa  do  dia  seguinte,  chegou  um Moto-boy  até  a  emissora,  a  mando  da  diretoria  da  entidade, com  um  documento  requerendo  a  cópia  da  fita  com  meu pronunciamento  e  ainda  ameaçando  entrar  na  Justiça  caso  o material  não  fosse  liberado.  Lembro-me  da  cena,  como  se  fosse hoje.  Rony  Alcântara  entra  assustado  no  estúdio,  mostrando  o documento.  Mandei  que  ele chamasse  o  rapaz.  Ao  entrar  no estúdio,  devolvi-lhe  a  correspondência  e  mandei  o  seguinte recado:  –  “Olha,  você  não  tem  nada  com  isso.  Está  apenas  fazendo  o  seu  serviço.  Mas  me  faça  o  favor  de  devolver  este papel  novamente  ao  presidente  do  Sindicato,  o  Quirino,  e  diga  a ele  que  se  quiser  a  fita,  vá  procurá-la  na  Justiça.  E  mais  uma coisa:  tanto  a  nossa  emissora  quanto  a  Comunicativa  são  piratas e,  portanto,  não  existem  perante  a  lei”.  O  rapaz  saiu  dali assustado  e  o  Rony,  paralisado,  sem  entender  nada.  Mas  nunca mais se falou daquele assunto! E eu ia  tentando  fazer  da  melhor maneira  o  meu  programa,  assim  como  contando  as  histórias  de forma  irreverente  e  alternativa  junto  ao  “Morro  do  Geo”.  Era uma  forma  de  manter  o jargão  “ano  novo,  vida  nova”.

*Do Livro “A Saga: Memórias de um Jornalista do Interior” – Parte LVX

Autoria: Jornalista Marcelo M. Melo!

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