O rádio sempre foi minha grande paixão e, como dizia o saudoso José Inácio, grande radialista e jornalista que gerenciou a Rádio “Tiradentes”, em João Monlevade, “uma cachaça”. E este aparelho continua sendo o meio de comunicação que mais atinge as massas
O “Morro do Geo” ia muito bem, obrigado! A Faculdade, apesar dos destemperos com alguns professores, também. A Rádio CDL e o convite para ingressar em outra emissora, também “Pirata”, a Mundial, que tinha como proprietário Sidney Muller, muito próximo do prefeito Carlos Moreira e considerado por alguns um “laranja”. Mas eram só especulações, eu acredito. A Mundial tinha sede no alto do Bairro Rosário. Voltei a trabalhar com o colega Rony Alcântara, que fazia o horário matinal. Eu faria um programa vespertino, de 16 às 18 horas, nos mesmos moldes do “Plantão Cultura”. Tinha plena convicção de que, mais uma vez, estava sendo “usado” politicamente, pelo grupo comandado por Mauri Torres e Carlos Moreira, os mesmos que haviam dado “facadas” pelas costas nos episódios da Câmara Municipal e na Rádio Cultura. Mas não me importei. Primeiro, porque iria fazer o que sempre gostei, minha maior paixão, o rádio. Em segundo lugar, pelo salário, que compensava. E terceiro porque queria ver, em mais um mandato, o PT bem longe do poder e era mais uma oportunidade de ser o seu algoz durante a campanha eleitoral do ano seguinte. Fechei então acordo e com a liberdade que não tinha pela emissora da CDL, onde trabalhava pela manhã. Afinal, a emissora pertencia a uma entidade de classe, no caso, a CDL, e tinha de fazer um programa menos politizado. Mas não precisou de muito tempo para que o programa ganhasse a simpatia popular e tivesse bons índices de audiência. Logicamente, com menos público ouvinte, já que a emissora não tinha o mesmo alcance do que a Rádio Cultura.
Vou aproveitar para abrir um parêntese e relatar um e pisódiodigno de disputa eleitoral. Ainda funcionava em caráter provisório a Rádio Comunicativa, controlada pelo PT e pelo Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos. Durante um programa matutino na Comunicativa, o ex-sindicalista e ex-deputado João Paulo Pires de Vasconcelos encontrava-se na emissora, para conceder uma entrevista ao comunicador Carlos Silva. Durante o bate-papo, o telefone ficou aberto ao público e, do lado de lá da linha, entrou no ar o polêmico desportista Antônio de Pádua, o popular “Porquinho”. Ele já entrou batendo pesado no convidado do apresentador e relatou fatos até ofensivos, chegando a dizer que “Você, – referindo a João Paulo – só aparece em João Monlevade na época de campanha. Hoje são vários desempregados por sua culpa e você inda tem a coragem de retornar à cidade para pedir votos ao PT”. O clima esquentou e Carlos Silva ficou meio sem reação, enquanto João Paulo certamente deve ter ficado bastante constrangido ali no estúdio. Minutos depois o telefone foi cortado, mas aqueles poucos minutos foram suficientes para gerar grande repercussão na mídia e entre os ouvintes do programa. Fui o primeiro a pegar o gancho e, naquele mesmo dia, em meu programa vespertino na Mundial, aproveitei a pauta e, literalmente, joguei farofa no ventilador (rs). Fui duro nas críticas ao João Paulo, que sempre aparecia na cidade conduzindo seu Fusquinha 66, que havia recebido de presente pelo Sindicato dos Metalúrgicos, nos anos 1970, na época das vacas magras. Tantos anos depois, aquele veículo era apenas uma forma de o ex-dirigente sindical e ex-deputado constituinte tentar mostrar à população monlevadense que era o “João de sempre”, levando sua mesma vidinha simples.
Não deu outra: a reação por parte do Sindicato dos Metalúrgicos foi imediata e quando fazia meu programa do dia seguinte, chegou um Moto-boy até a emissora, a mando da diretoria da entidade, com um documento requerendo a cópia da fita com meu pronunciamento e ainda ameaçando entrar na Justiça caso o material não fosse liberado. Lembro-me da cena, como se fosse hoje. Rony Alcântara entra assustado no estúdio, mostrando o documento. Mandei que ele chamasse o rapaz. Ao entrar no estúdio, devolvi-lhe a correspondência e mandei o seguinte recado: – “Olha, você não tem nada com isso. Está apenas fazendo o seu serviço. Mas me faça o favor de devolver este papel novamente ao presidente do Sindicato, o Quirino, e diga a ele que se quiser a fita, vá procurá-la na Justiça. E mais uma coisa: tanto a nossa emissora quanto a Comunicativa são piratas e, portanto, não existem perante a lei”. O rapaz saiu dali assustado e o Rony, paralisado, sem entender nada. Mas nunca mais se falou daquele assunto! E eu ia tentando fazer da melhor maneira o meu programa, assim como contando as histórias de forma irreverente e alternativa junto ao “Morro do Geo”. Era uma forma de manter o jargão “ano novo, vida nova”.
*Do Livro “A Saga: Memórias de um Jornalista do Interior” – Parte LVX
Autoria: Jornalista Marcelo M. Melo!

































