“Com-Mentando Monlevade” e o 1º Processo… Ossos do Ofício!

Em toda profissão, as portas  se  abrem  ou  se  fecham.  Depende unicamente de seus  contatos e  de  sua  perseverança.  E eu estava disposto  a  levar  aquilo  a sério.  Nos meus vinte e poucos  anos, pela  vez  primeira  havia  me  encontrado  como  uma pessoa  que sabia  o  que  desejava  profissionalmente.  Não tinha mais nenhuma  dúvida.  Eu decidi,  naquele  instante,  que  meu  desejo era  o  de  ser  repórter.  A partir  daí,  a  estrada  foi  seguindo  sua  rota normal,  até  que,  logo  após  o  carnaval  de  1985,  o  patrão  resolveu dar-me  uma  coluna. Um espaço para que eu pudesse  expor também  minhas  opiniões.  Márcio sentia que era o momento de me mostrar  também  como  cronista.  Nasceu ali o “Com-Mentando Monlevade”,  coluna  esta  que  fez  história  por  alguns anos.  Um espaço onde relatava apenas casos sobre João Monlevade e  onde  a  crítica  era  meu  forte.  Levantei uma bandeira e não  temia  o  desconhecido.  Com  pouco  tempo,  o Com-Mentando  Monlevade”  era  uma  coluna  sempre  discutida nas  rodas.  A sensação boa  de  falar  a  linguagem  do  povo,  sem medo.  E os artigos  semanais  que  escrevia  passaram  a  ser  um  dos mais  lidos  no  “A Notícia”.  Um dia, devido à  sua  repercussão, queriam  me  transformar  no  primeiro  jornalista  da  cidade  a enfrentar  a  velha  raposa  da  política  monlevadense,  o  então presidente da Câmara Municipal, Sr.  Wilson  Vaccari. Mas não hesitei e imediatamente disse  que não  estava  disposto  a  ser  porta-voz  de  ninguém.  Além do mais, não tinha qualquer problema com o Vaccari. Nada pessoal, a não ser politicamente falando. E ele tinha uma bela história na cidade. Assim, o “Com-Mentando” permaneceu criando polêmica, agradando a maioria dos leitores e deixando irritados alguns políticos. Mas são os ossos do ofício, porque jornalismo não se faz para agradar político, o que foi o que sempre defendi.

E foi justamente através de uma  coluna  no  “Com-Mentando  Monlevade”  que  me  rendeu  o  primeiro  processo  na  Justiça,  com menos  de  um  ano  na  profissão.  Em ação movida por um advogado, em causa  própria.  Hoje, já falecido, prefiro não citar o nome.  Um senhor sério, que desfilava pelas ruas da cidade com um lindo Opala marrom.  O contabilista José Couto, grande contador de causos, tinha uma Coluna  no  “A Notícia”,  intitulada “Papo  de  Pescador”,  contando  suas  aventuras  pelos  rios  do Araguaia,  em  viagem  que  fazia  com  sua  turma  de  pescaria, anualmente.  E ele havia sido interpelado para atuar como testemunha num processo.  Na oportunidade, o advogado questionou o testemunho de José Couto, atribuindo a ele a fama de “mentiroso”, só porque ela escrevia  a  Coluna  sobre  pescador .  Ao tomar conhecimento do fato, saí em defesa  de  José  Couto  em minha  Coluna,  o  que  me  rendeu  o  processo  judicial. A minha advogada era Maria  Socorro,  que  colaborava  no  jornal  como correspondente  de  Rio  Piracicaba.  E foi uma história meio louca, já que o prazo para minha defesa estava se esgotando, e nada de  Socorro  entregá-la  ao  juiz  da  Comarca,  que  na  época  era o  Dr.  Hélcio Valentin, também  já  falecido,  uma  grande  figura, conhecido  pelo  lado  boêmio.  Dia de expirar minha defesa e chegamos, eu e a advogada,  ao  Fórum,  que  ainda  funcionava  no velho  prédio  da  Avenida  Getúlio Vargas.  Faltavam alguns minutos para fechar o expediente, que ia  até  às  17  horas,  mas  o Dr .  Hélcio havia saído minutos  mais  cedo.  Afinal, era uma sexta-feira e ele  se  preparava  para  a  cerveja  de  todo  final  de semana.  Começa a correria até que conseguimos encontrar o meretíssimo dentro de seu veículo no estacionamento  do  Fórum,  ali  na  Praça  Sete.  Pela janela mesmo, ele pegou  o  documento.  Felizmente, o final da história foi feliz, pois  ganhamos  a  ação.  Ficou provado que José Couto só inventava seus  causos  sobre  as  viagens  de  pescarias (rs).

*Do Livro A Saga: memórias de um Jornalista do Interior” – Parte III

Autoria: Jornalista Marcelo M. Melo!

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