O Brasil contra Sarney faz o PT crescer e vencer na terra da Belgo-Mineira!

Eleições Municipais de 1988 e, como  ocorre  em  todo  ano  eleitoral,  a  cidade  já  se  movimentava em  torno  dos  nomes  dos  “prefeitáveis”.  O  único  candidato  que dependia  apenas  do  aval  do  Diretório  era  o  do  sindicalista Leonardo  Diniz  Dias,  cuja  candidatura  já  havia  sido  lançada, pelo Partido dos Trabalhadores. Pelo  PMDB,  o  nome  do  vice-prefeito  Custódio  Moreira  de Alvarenga  ainda  era  o  preferido  do  prefeito  Germin Loureiro (Bio).  À véspera de se oficializar os nomes, um dos mais fortes  vinha  da ARENA, o do ex-prefeito  Lúcio  Flávio de Souza mesquita,  que governara  o município  de  1973  a  1976.  Depois,  mudara-se  para Belo  Horizonte  e,  retornando,  contava  com  o  apoio  importante da  Belgo-Mineira, mesmo  de  forma discreta e para não provocar o “inimigo” – no caso o Sindicato dos  Metalúrgicos  -,  o  que  poderia  fazer  com que o  tiro  saísse  pela  culatra.  A empresa  resolveu  investir  na  candidatura  do  médico,  que  tinha grandes  possibilidade  de chegar  novamente,  à  Prefeitura. Outras  candidaturas  ao  cargo  majoritário  eram  articuladas, entre  elas  a  do  advogado  e  ex-assessor do  então  prefeito  Antônio Gonçalves,  Adilson  Prates  dos  Reis,  e  do vereador  Vicente  de Souza  Dias,  “Tinô”.  O  nome  do  vereador  Wilson  Bastieri  surgiria como  a  grande  surpresa.  Afinal,  com  sua história dentro  da  política sindical  e  sendo  o  1º  vereador  eleito  pelo  PT na cidade,  ele  havia deixado  o  partido,  e  o  motivo  especulado  é  de  que  ele  não  estaria mais  disposto  a  pagar  a  percentagem  de  seus vencimentos  à  agremiação, que era de 10% do seu salário como legislador.  O  caso  gerou  muita  polêmica  e  iria provocar  novos  capítulos.

Eu  seguia na minha profissão e na minha  luta  em  busca  das  informações e,  após  fechar  o  “Folha  da  Cidade”,  atuava  apenas  na  imprensa falada.  Continuava  produzindo  meu  programa  e  era  ainda  o responsável  pelo noticiário da emissora. Naquele  ano,  entretanto,  ficou  marcado  também  por  um  grande erro  que  cometi  em  minha  vida  pessoal  que,  por  pouco,  não prejudicaria  minha  carreira  profissional. Entusiasmado  diante de  minha  popularidade  como  repórter,  e tendo grande audiência em meu programa com entrevistas e sempre ouvindo a população nos seus reclames,  e  conhecido  como  um jornalista destemido  e  crítico,  acabei  sendo  levado  pela  ciranda da  política  partidária.  O sucesso  que  fazia  pela  rádio  acabou  levando-me  a  acreditar  que  poderia sair candidato a vereador e ser eleito facilmente. Ledo engano! Antes,  porém,  de  entrar  nesta  pauta  propriamente  dita,  vamos  a outros  fatos  que  acabaram  tendo  importância  fundamental  na vitória  petista  nas  eleições  de  15  de  novembro  de 1988.  Um ano  antes,  um  grupo  de  servidores  públicos  municipais, encabeçados  pelos  professores  Afonso  Ferreira,  o  saudoso  Antônio  de  Paula  (Toninho)  e  o  funcionário  Geraldo  Giovani Silva,  fundou  a Associação  dos  Servidores  Públicos  Municipais de  João  Monlevade,  o  embrião  do  Sintramon,  que  veio  com  o propósito  de  defender  e  fortalecer  a  categoria.  No entanto,  por trás daquele grupo havia um braço do Partido dos Trabalhadores que precisava buscar o voto também do funcionário da Prefeitura e a melhor estratégia seria exatamente  criar  um  sindicato. Tanto  que  dali  surgiu  o  nome do  candidato a vice-prefeito para compor a chapa petista com Leonardo Diniz, que  foi  o  do  professor  de  Química, Antônio  de  Paula.

O  grupo  situacionista,  liderado  pelo  PMDB,  mudaria  o  nome  de seu  candidato  semanas  antes  da  data  da  Convenção  do  partido. O  vice-prefeito  Custódio  Moreira  de  Alvarenga havia desistido e retirou seu nome da disputa, logicamente influenciado  pelo  caso  da  mulher deixada na rodovia no ano anterior. Para seu lugar foi indicado o nome de  outro  médico,  o  oftalmologista  e  grande  amigo  do  prefeito Germin  Loureiro  e  também  do  deputado  federal  João  Paulo Pires  de  Vasconcelos, Nelson  José  Cunha.  Ele  venceria  com facilidade,  durante  a  convenção  partidária,  tendo como concorrente o  grupo  liderado pelo  vereador Antônio  Marmo  Torres  Duarte,  “Toninho” Torres,  que tentaria  se  reeleger  à  Câmara  de  Vereadores,  onde  já  estava  há três  mandatos.  Nelson  Cunha  teve  como  seu  candidato  a  vice-prefeito  o  comerciante  Ulete  Mota.  Pela  outra  ala  da  oposição, foi  confirmado ainda  o  nome  do  ex-prefeito  Lúcio  Flávio  de  Souza Mesquita,  pelo  extinto  PFL – Partido  da  Frente  Liberal -,  cujo candidato  a  vice  foi  o  empresário  Elgen  Machado.  A quarta chapa  foi  formada  pelo  advogado  Adilson  Prates  dos  Reis  –  ex-assessor  do  ex-prefeito  Antônio  Gonçalves  –  que  tinha  como vice  o  vereador  e  sindicalista  Wilson  Bastieri,  que  havia deixado  o  PT.  Vicente  de  Souza  Dias,  “Tinô”,  saiu  candidato  pelo  PTB.

Um  dos  acontecimentos  que  marcariam  aquele  ano  eleitoral envolveu  o  então  presidente  do  Sindicato  dos  Metalúrgicos, Antônio  Ramos.  O fato  ocorreu  durante  uma  greve  dos rodoviários,  quando  motoristas  e  trocadores  da  antiga  empresa de  transporte  coletivo  de  João Monlevade,  a  Transcomol,  haviam decidido  pela  paralisação, reivindicando  melhores  salários. Nada  melhor  do que uma greve  em  ano  eleitoral,  mesmo  que  ela surgisse  –  segundo  especulações  que  rondaram  na  época  –  com apoio  patronal,  já  que  era  uma  forma  de  pressionar  um  reajuste na  tarifa  do  transporte  coletivo na cidade. Pegando  uma  carona  no movimento  e  contrariando  até  mesmo  a  vontade  do  Sindicato que  representava  verdadeiramente  a  categoria  –  considerado pelego  –  a  entidade  representante  dos  metalúrgicos  não deixou por  menos  e  levou  apoio  aos  grevistas. Durante  uma assembleia da categoria,  realizada  no  Plenário  da Câmara  Municipal,  e o local com um enorme número de funcionários da empresa e populares, além de toda imprensa presente,  foi lançado o “estopim da bomba”. Foi  o  maior  movimento  de  rodoviários registrado  na  história  da  cidade.  A reunião  ocorria  dentro  da normalidade,  até  que  Antônio  Ramos  pede  a  palavra  e,  após alguns  minutos  de  fala,  elevou  ainda  mais  o  tom,  de  forma agressiva e usando da voz imponente, disse em alto e bom som  que  “todo  patrão  é  safado”, um discurso totalmente inverso daquele que havia feito durante sua posse como presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, no ano anterior.  Naquele  instante,  aplausos soaram  pelos  quatro  cantos  do  Plenário  da  Casa  do  Povo,  mas  a resposta  patronal  seria  imediata.  O  seu  improvisado  discurso  ríspido  caiu  como  uma  bomba  em  João Monlevade.  No  dia  seguinte, os representantes do Sindicato patronal e outros empresários e comerciantes,  indignados,  deram  o  troco,  através  de  entrevistas a  órgãos  de  imprensa  da  cidade  e  até  mesmo  de  nota  dirigida  à população.  O  assunto  rendeu  alguns  meses.  Lembro-me  que, durante  meu  programa  na  Tiradentes,  sempre  entrava  em  pauta a  célebre  frase  dita  por  Ramos  e  que  lhe  custou  alguns  cabelos brancos, com certeza. Afinal, não se pode generalizar uma classe. Dez anos depois, quando me concedeu com exclusividade  uma  entrevista  para  o  jornal  “A Notícia”,  ele disse  ter  se  arrependido  de  tal  declaração (Matéria será publicada capítulos à frente).

Um Sentimento de Traição em minha primeira frustração na vida pública!

Como descrevi anteriormente, um pouco da fama subiu à minha cabeça no início da profissão e topei tentar a vida pública. Aceitei o convite para sair como candidato a vereador. Havia me desfiliado do PT há alguns anos, onde era filiado desde 1981, e filiei-me ao PMDB, apoiando a chapa Nelson Cunha e Ulete Mota. Mas foi meu grande erro, primário, entrando numa  bela  “fria”  e que  me  custou  o  emprego  na  Rádio Tiradentres/Globo, e  também me  afastaria da imprensa escrita por um período. Ou seja, daquilo que mais gostava de fazer. Acreditei  que,  por  ser conhecido  através  de  meu  trabalho  profissional,  somando-se à história  de  meu  pai  na  política  e  no  trabalho  comunitário, desenvolvido  principalmente  na  Vila  Tanque,  estaria  eleito. Mas  não foi  assim  que  aconteceu!   Mas,  naquele  ano,  com  a

inflação  nas  alturas,  representada  por  um  Dragão  na  mal sucedida  política  do  sinistro  e  sanguessuga  José  Sarney  – peemedebista  por convenção -, e  que  entrou  pelas  portas  dos  fundos  no Palácio  do  Planalto  em  razão  da  até  hoje  interrogativa  e misteriosa  doença e morte  do  então  presidente  eleito  pelo  Colégio Eleitoral,  o  mineiro  Tancredo  Neves,  naquele  21  de  abril 1985  –  o  PMDB  carregava  um fardo  pesado.  Tudo  isso  refletiria negativamente  nas  campanhas eleitorais  do  partido  pelas  cidades de  todo  o  país.  E João Monlevade  não  seria  uma  exceção! Dessa  forma,  o grupo  encabeçado  por  Nelson  Cunha  não  saía  do  terceiro  lugar nas pesquisas de opinião pública, que eram novidades naquele ano  eleitoral.  Nas  primeiras  prévias  realizadas,  o  ex-prefeito Lúcio  Flávio  aparecia  disparado  à  frente,  enquanto  o  PT de Leonardo  Diniz  corria  atrás.

Meu pai se despedia ainda naquele Novembro de 1988!

Era  madrugada  do  dia  4  de  novembro de 1988, há 11 dias das eleições municipais. O  telefone  toca  no  pequeno  apartamento  do  Vale  do Sol, onde residia com minha esposa, Marilene. Havia me casado em fevereiro de 1987.   Atento, já  preparado  para  receber  a  notícia  da  morte  de  meu pai,  Sebastião  Gomes  de  Melo,  acamado  há  sete  anos.  Do  outro lado  da  linha,  minha  Tia  Lilia.  O  velho  descansara,  após  uma luta  heróica  pela  vida,  acometido  por  uma  doença  que  chegou de  surpresa,  quando  trabalhava  na  Usina  da  Belgo-Mineira  em Sabará,  para  onde  nunca  deveria  ter  ido.  Sua  vida  estava  toda  em João  Monlevade,  com  seus  amigos,  suas  obras  comunitárias, seu  trabalho  como  voluntário.  Mas,  com  o  fim  do  Soc-2  (Turma da Mecânica) na Usina de Monlevade, foi feita a transferência de  todo  o  pessoal  para  Sabará.  E  ali  papai  perderia  sua identidade  e  se  apaixonaria.  Foi paixão mesmo, tipo banzo! Afinal,  o  seu  amor  por  João  Monlevade  e  sua  afinidade  com  o  povo  daqui  jamais  seriam substituídos.  Até  a  doença,  foi  um  passo.  Em  novembro  de  1977 sofreu  uma  trombose,  uma  semana  depois  de  passar  por  um check-up  e  nada  ter  sido  detectado  nos  exames  médicos,  pouco antes  de  ver  nascer  o  seu  primeiro  neto,  Gustavo.  Foram  1 1  anos de  enfermidade,  e  sete  de  cama. Muito sofrimento para um homem tão justo, trabalhador, honesto, voluntarioso e que sempre viveu para a família e sua comunidade! E na vida política foi vereador eleito nas eleições municipais de 1972, junto com o prefeito Dr. Lúcio Flávio, e presidente da Casa Legislativa nos anos de 1974 a 1976, até encerramento de seu mandato.

Voltando  à  campanha eleitoral daquele ano,  faltavam  alguns  dias  e  parecia  selada  a vitória  do  ex-prefeito  Dr.  Lúcio  Flávio.  Mas,  durante  a  última semana  de  campanha  –  quando  ainda  era  permitida  a  boca  de urna  até  no  dia  das  eleições  –  a  militância  petista  invadiu literalmente  as  ruas  e  fez  o  que  mais  sabia:  jogou  pesado, investiu  em  marketing  e  deixou  João Monlevade  toda  panfletada  de estrelas,  feitas  em  papelões,  e  pregadas  nos  postes,  muros e  casas em vários bairros.  A cidade  amanheceu  vermelha  na  manhã de  15  de  novembro de 1988,  dia  das  eleições.  Se  aquilo  refletiria  a vontade  popular,  não  haveria  dúvidas,  ao  final  da  votação:  a vitória  seria  do  Partido  dos  Trabalhadores, infelizmente.

*Do Livro A Saga: Memórias de um Jornalista do Interior” – Parte XIX

Autoria: Jornalista Marcelo M. Melo!

Compartilhe esta postagem

Deixe um comentário

Postagens relacionadas

Notícias por Categoria

Esportes

Causos

Gerais

Seja assinante!

Assine agora mesmo por apenas R$ 59,90 Semestrais!

Já é assinante?

Faça seu login!