CAUSOS DA USINA – Que Noite! – Francisco Bernardino (Baiano)

Conforme mostra a foto acima, a trágica enchente de 1969 deixou um rastro de destruição em João Monlevade, principalmente na região de Carneirinhos. Os bombeiros da Belgo-Mineira e da região tiveram muito trabalho, como aparece aqui, tirando entulhos do córrego, saendo observado pelos populares.

Novembro de 1969! Uma data que não dá para esquecer. Para ser exato, dia 10 de novembro, um domingo. Vamos aos acontecimentos e matar a curiosidade da galera.

  Lembro-me que cheguei à recepção do Hotel Santo Eloi para pegar a chave do quarto, após uma exaustiva e penosa noite de 23 às 7 horas na Usina. De cara e em tom de brincadeira o atendente inquiriu-me, se eu ia perder um dia quente e lindo como aquele! Não pensei duas vezes. Seria um despautério ir dormir numa manhã como aquela. Melhor adiar o cochilo para mais tarde. Num átimo peguei a bolsa e os instrumentos de distribuir sapatadas nas peladas sabáticas e domingueiras na ACM e me mandei pra Carneirinhos – de lotação é claro -, carro era artigo de luxo e para poucos.

  Depois das precatadas, o folguedo e a cornetagem com os amigos, ainda sob um sol escaldante, capaz de fazer papagaio perder a cor e sol de deserto parecer estação de esqui, dei nos calos de volta. Impossível suportar o calor. Parecia uma verdadeira sucursal do inferno. No coletivo, descendo a Getúlio Vargas – única avenida do bairro naquela época – sentia-se o mau cheiro horroroso exalado pelo córrego Carneirinhos (um verdadeiro esgoto a céu aberto), provocado pela reação química do forte calor com os coliformes fecais (merda viva)! Aquela fedoba desgramada ficava impregnada nas narinas por um bom tempo. O ar tornava-se irrespirável! Um horror, minha gente! Enfim, após um refrescante banho e um reparador sono, preparei-me para mais uma “tenebrosa noite”, porém tinha que seguir um ritual domingueiro: assistir à sessão das “oito”, no Cine Monlevade, antes de encarar mais um “desgastante turno”! Naquele pedaço da praça, como rolava mulher bonita! Tanto as que iam ao cinema, como as que iam se esbaldar na “hora dançante” do “Ideal Clube”, além das mulatas do “União”. Estas eram a praia preferida da galera! O mulherio era um colírio para os olhos. Bem, depois de assistir o rito dominical, me pirulitei para a Usina. Meu camarada, trovões ribombavam pra tudo quanto é lado e relâmpagos ricocheteavam o firmamento querendo unir a terra ao céu. Num espetáculo aterrador! Causava assombro!

  Mal cheguei ao Setor-1, Eloi Vieira, supervisor do Turno, foi se mandando com medo do que se avizinhava. Pouco tempo depois, começou cair um fortíssimo aguaceiro ininterrupto, acompanhado de trovões e relâmpagos.

  Cada pingo d’água parecia um tambor. Estávamos tão assustados, que nem dera tempo de dar uma “olhada” no “Estadão” trazido por Hugo Esteban, supervisor dos Altos Fornos. Uma hora e meia depois, a chuvarada continuava no mesmo ritmo, “direto igual cantiga de grilo”. Enfim, com armação do temporal, começou a telefonação dos familiares dos operários pedindo socorro. E vinha de toda Monlevade, para toda Usina. Avaliem o caos que estava se transformando. Hugo Esteban nos avisou que por precaução reduzira a marcha dos Altos Fornos e nos instruiu a manutenção das áreas essenciais. Àquela altura, muitos da peonada conseguira liberação para ir para casa. Neste ínterim a boataria corria solta. Diziam que Carneirinhos tinha sido arrasado. Não sobrara nada! A confusão se generalizou! A Usina virou um pandemônio, com todo mundo querendo saber notícias ou ir embora. Muitos chorando iguais crianças. Os poucos telefones de Carneirinhos – que ainda funcionavam – ficaram mudos devido ao congestionamento das linhas. Haja logística para arrumar transportes para tanta gente!

  Lá pelas tantas, com a Usina inteiramente parada, Guido Magalhães, colega de setor e supervisor mecânico, foi dar um rolé em Carneirinhos, com um jipe da empresa para verificar in loco como estava. Não chegou até ao centro. As ruas estavam intransitáveis. Voltou perplexo e apavorado com o que vira. O bairro virara um mar de lama e areia. Botijões de gás, móveis, eletrodomésticos e materiais de construções encontravam-se espalhados por todos os lados! As três pontes que faziam ligações de uma margem a outra (das ruas Geraldo Miranda, Andrade e Duque de Caxias) tinham sido danificadas, sendo a que dava acesso para a antiga Peroba fora para o beleléu. Casas destelhadas e destruídas eram o que mais se viam. Infelizmente uma pessoa tinha sido levada pela enxurrada. Os prejuízos foram enormes, principalmente dos negociantes que ficavam próximos ao córrego. Durante o dia, os jornais “Estado de Minas” e “Diário da Tarde” e a TV Itacolomi fizeram ampla cobertura da tragédia, noticiando que houvera uma tromba d’água. Várias pessoas ficavam estupefatas e baratinadas, andando pelos escombros feitos zumbis. Sem saber o que fazer. Foi estarrecedor! Muito triste!

A lama tomou conta da Avenida Getúlio Vargas, como mostra a fotografia abaixo, e funcionários da Prefeitura fazem a limpeza, exatamente em frente à residência do então prefeito da época, Germin Loureiro (Bio).

  Foi naquele clima desolador que a solidariedade humana e o espírito empreendedor do povo monlevadense se mostrou à prova. Não faltou quem ajudasse aos mais necessitados e o poder público fez sua parte – Bio era o prefeito -, iniciou a canalização e a pavimentação do córrego Carneirinhos, dando lugar a esta bela e esfuziante avenida que é a Wilson Alvarenga. Depois daquela tempestade, Carneirinhos não seria o mesmo. Tomou outro rumo! Sem dúvida, muito melhor!

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