Vida e Obra de Gerhart Michalick – Pesquisa: Professor Geraldo Eustáquio Ferreira (Professor “Dadinho”)

Aprendemos com os estudiosos que ler significa colher, uma vez que ambos têm a mesma raiz, o étimo latino légere. Dessa forma, a leitura se transforma num ato criador, porquanto seja a arte de colher idéias. O que os estudiosos não sabem – e provavelmente jamais virão a sabê-lo – é que pescar e pintar, mesmo não tendo a mesma raiz, pode confluir em ato criador, como o ato de ler.

Essa teoria – ainda um tanto mal elaborada – não é à primeira vista defensável, mas, se alguém se dispuser a fazê-lo, mergulhe a fundo na vida e na obra de Gerhart Michalick (foto). Nela existe um fio condutor que, ligando leitura e escrita, caneta e pincel, tela e caniço, anzol e papel, texto e aquarela, nos leva de novo à leitura, à coleta de idéias, à cata de sonhos e à fruição do prazer estético. Ele mesmo nos ensina nas páginas iniciais de seu livro que “escrever é remar com a pena”.

Com efeito, artista acabado, Gerhart Michalick, esse homem tranqüilo e de fala mansa, integrou aquele elenco de pessoas que, no início de Monlevade, sem descuidar de suas obrigações profissionais, imprescindíveis à construção da cidade que nascia, cuidaram de humanizá-la, pontuando com arte os novos tempos e espaços que se abriam.

Nascido em Lavras, em 1915, Gerhart Michalick chegou a Monlevade exatamente em março de 1940, para trabalhar na Usina de Monlevade. Admitido como escriturário, era o responsável pelo ponto dos funcionários e operários, testemunhando também os primeiros tempos do povoado que se formava no entorno da então Companhia Siderúrgica Belgo Mineira, com as naturais dificuldades de cidade que se iniciava. Amante de uma boa festa, deixou registrada, em depoimento dado ao Projeto Resgate de História, da ADEMON2 , a lembrança de “precário salão, com chão de terra batida, onde se dançava, só que, no dia seguinte, todo o mundo amanhecia gripado por causa da poeira que se levantava”.

Foi por ocasião de uma dessas festas, no dia do lançamento da pedra fundamental da construção da Matriz de São José Operário – o povoado cheio de pessoas de fora – que conheceu Anita, moça da sociedade da vizinha cidade de Nova Era, também presente à solenidade. Pouco tempo depois, em 13 de maio de 1944, com ela se casou, constituindo família, e tiveram quatro filhas: Sônia, Sandra, Sueli e Selma. Posteriormente sua esposa atuaria também na educação profissional local, ministrando, através do SESI, cursos de corte-e-costura e arte culinária para esposas e filhas de operários da Usina.

Com o passar do tempo, Gerhart Michalick passou a atuar no Laminadouro e, após cursos de qualificação profissional, lecionou Desenho no Senai, mantido àquela época pela Usina de Monlevade. Trabalhou na Usina até os anos setenta, quando se aposentou após trinta e cinco anos de serviço. Essa trajetória profissional não conflitou com profícua atividade cultural exercida paralelamente como contista, cronista, colunista de jornal e artista plástico consagrado.

Nilton de Souza, colega de trabalho no Senai, precocemente falecido, prefaciando “Três Amigos e um Cachorro”, único livro editado por Michalick, assim o apresenta: “Esse incorrigível amante da natureza, humilde, cultor de História e Folclore, pintor, miniaturista, era expert em caçadas e pescarias. Sempre parcial para o lado dos bichos, só matava – e com que prazer! – mosquitos itinerantes que lhe provavam o sal da pele ou zumbiam na sua orelha. Livre de pensamento, irreverente sem ser pornográfico, categórico e zeloso para com a cultura, era ele a nossa primeira enciclopédia que consultávamos…”

Pode-se afirmar, sem sombra de dúvida, que foi o primeiro escritor monlevadense ou, pelo menos, o primeiro a escrever sistematicamente em jornais e revistas, o primeiro a ser premiado em concursos literários, o primeiro a lançar livros, como o já citado “Três Amigos e um Cachorro”, editado em 1976 sob os auspícios da Prefeitura Municipal de João Monlevade.

Além de escrever regularmente nos jornais Atualidades do Vale, O Popular, A Notícia Regional, onde assinava a coluna Pintando e Rabiscando, participou e foi premiado em diversos concursos literários como:

1.         Concurso Estadual de Contos da Prefeitura de Belo Horizonte. Classificado em 3º lugar com o conto A Caverna, publicado em 1960 no Estado de Minas.

2.         IIº Concurso Estadual de Contos da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais. Menção Honrosa com o Conto A Morte do Porco, publicado em 1973.4 

3.         Concurso de Contos, Crônicas, Poesias e Peças para Teatro da Prefeitura Municipal de João Monlevade. Classificado em 2º lugar da categoria com a crônica Monlevade, Força que Atrai, em 1985.5 

Para marcar esse pioneirismo literário, o Conselho Superior do IES-Funcec, por indicação minha, instituiu, em 2002, o I Prêmio Gerhart Michalick de Literatura, justa homenagem a ele atribuída ainda em vida. Este prêmio consagrou a obra A Gosto do Acaso, do então aluno de Letras, José Nonato Mendes Neto, adotada no Vestibular 2003 daquela instituição.

Interrogado sobre seus escritos, safava-se modestamente: “Ah! Só fiz algumas crônicas de pescarias e caçadas. Mesmo assim, caçada em que não se matava nada: era só passeio. Além do mais, em pescaria acontece tanta coisa que a gente não precisa inventar nada, é só ajeitar as coisas…”6  Essa modéstia não impediu que se tornasse referência obrigatória quando o tema era cultura.  Tanto assim que foi, por largos anos, atuante conselheiro da Fundação Casa da Cultura de João Monlevade.

Indicador ainda de seu grande talento criador é a quantidade de quadros de sua autoria, conservados carinhosamente por parentes e amigos. Desse acervo, algumas telas se destacam: a tela intitulada “O Sol é um Maestro”, segundo depoimento do autor uma de suas preferidas e  exposta no salão de Festas do Social Clube; outro painel seu, também de rara beleza, feito em parceria com Márcio Diniz, pode ser visto na parede de fundo do Restaurante Rampa’s; finalmente, é impossível não mencionar sua misteriosa “Bailarina”, inspiradora de tantos sentimentos.O talento para as artes plásticas é marca de família: seu pai Francisco Thimotti também foi pintor; uma irmã de criação, Adelaide, também artista, é que lhe ensinou a pintar; finalmente, sabe-se que pelo menos uma de suas filhas, a Sônia, e dois de seus netos, o Luciano e a Helena, vêm-lhe seguindo os passos, desenvolvendo algum trabalho no campo das artes plásticas.

Geharth Michalick faleceu em 2006.

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