Arquitetando por Yaro Burian – Afonso Torres

Vista da Matriz São José Operário, inaugurada em setembro de 1948 e projetada pelo arquiteto Yaro Burian

No dia 25 de outubro de 1942, o Arcebispo de Mariana, D. Helvécio Gomes de Oliveira, em visita a Monlevade, encomendou ao Dr. Burian um projeto para o Templo a se edificar na nascente Vila Operária de Monlevade, uma vez que, no ano anterior, em junho, ele desenhara a Igreja de Rio Piracicaba, cujas fundações se iniciaram em 17 de maio do ano posterior, 1942. Eram também da lavra do Dr. Yaro Burian, que chegara a Monlevade em 17 de abril de 1936, o anteprojeto da parte superior da cidade, apresentado ao Dr. Ensch no dia 10 de março de 1937; no dia 2 de abril foi a vez da apresentação do projeto da parte central, o futuro Grupo Escolar; no dia 15 do mesmo mês o projeto das casas da cidade baixa, sendo que no dia 30, mudou-se para uma delas, tornando-se o primeiro morador e cidadão monlevadense. Em um ritmo alucinado de trabalho que muito agradava ao Dr. Ensch e, por outro lado, compensava as dificuldades com o novo idioma, deu início, ainda em 1942, a 27 de novembro, à Vila dos Engenheiros, na Vila Tanque.

A famosa Vila dos Engenheiros, localizada no Bairro Vila tanque, um dos primeiros projetos do arquiteto Yaro Burian

 Este homem, entregue ao seu ofício de criar, ainda teria muito que fazer em termos de projetos e obras na nascente Monlevade e redondezas, mas, antes, precisava cumprir um compromisso assumido em sua terra natal, Chropyne, cidade tcheca localizada na região de Zlin, distrito de Kromeriz. Filho de Vicente Burian e Francisca Burianova, estava de casamento marcado com Marie Votavova no dia 17 de janeiro de 1939, para tanto, embarcou, rumo à Europa, no dia sete de novembro de 1938. Não poderia ser mais propícia, esta viagem. As exigências trabalhistas mal haviam lhe dado tempo para refletir sobre todas aquelas mudanças por quais sua vida passara nos últimos quatro anos. Desde que embarcara no navio Almirante Alexandrino, no dia 15 de agosto de 1934, com destino ao Brasil, onde fez uma escala em Recife por cinco dias, antes de conhecer a Capital Federal, Rio de Janeiro, de onde se dirigiu a Cachoeiro do Itapemirim, no Estado do Espírito Santo, para se encontrar com seu irmão mais velho – que já estava em terras brasileiras desde três de abril de 1925 – Vicente Burian – como o pai – que não fizera nada além de trabalhar e trabalhar. Estava feliz assim, exatamente para isso se preparara: edificar!… Sem domínio da língua, precisou da ajuda do irmão para compreender o edital que, através dos jornais da época, conclamava profissionais de diversos setores para a construção daquela que seria a primeira vila operária do país a ser plantada em pleno sertão das Minas gerais. Fora assim que todo se iniciara, como se uma mão invisível estivesse a lhe conduzir a um mundo novo que seria o berço de seus futuros filhos com Marie: Yaro, Maria Helena, Eva e Olga.

 Casado, retornou ao Brasil, com Marie, no dia 3 de fevereiro de 1939. Reassumiria o trabalho incessante se despedindo da solidão. Tinha, agora, para quem voltar aos fins dos dias… Assim, ia desenvolvendo o projeto para a Igreja de Rio Piracicaba, em 1941; em julho de 1942 deu início às plantas das novas casas em concreto e, dois meses depois, iniciou a planta do clube Curvelo e do mercado novo de Monlevade; no ano seguinte, em 9 de fevereiro de 1943, iniciou-se a construção do prédio da Assistência Médica e do mercado novo, sendo que, três meses depois, no dia 10 de abril, recebe nova encomenda do Arcebispo D. Helvécio: um projeto para o seminário de Santa Bárbara que lhe foi entregue no dia 28, ou seja, em apenas dezoito dias, envolto em vários projetos e outro tanto de obras, a encomenda foi entregue, mostrando o quanto empenhado estava o arquiteto, embora os trabalhos pareciam não ter mais fim… Em trabalho aplicado, entregou ao Dr. Ensch, no dia 29 de março de 1944 os primeiros esboços daquela que seria uma tocante homenagem à Marguerite Ensch, sua mãe: o Hospital Margarida e, portanto, estudado e projetado com desvelado carinho desde a sua excelente localização até os mínimos detalhes de sua construção; teve a pedra fundamental lançada a 27 de setembro de 1948 e a inauguração em 16 de novembro de 1952, com a presença do Governador do Estado, Juscelino Kubitscheck.

 Encantado com o trabalho do Dr. Burian, o Arcebispo de Mariana encomendou novos projetos, agora, para da escola Normal e do Internato de Caratinga. Isto em julho de 1943, quando também entregou a planta do Hospital de Rio Piracicaba. Sua fama estendeu seus trabalhos aos outros municípios. Em outubro do mesmo ano, entrega as obras do Hotel Monlevade, realizadas pela Construtora Mascarenhas & Roscoe; no dia 30 de junho de 1946, entrega a Igreja de Rio Piracicaba, para que receba as bênçãos do Arcebispo e seja entregue aos fiéis; um ano depois, o centro comercial da Vila Tanque; no dia 3 de abril, merecidamente, recebe o premio pelo projeto da Escola Profissional e, em 4 de março de 1948, era inaugurado o novo Cine Monlevade.

 E o Dr. Burian não parou por aí, até a sua morte, ocorrida em Belo Horizonte em 7 de fevereiro de 1994, foi deixando a marca de seus cuidadosos traços por vários locais em torno de Monlevade, inclusive, leva sua assinatura o projeto da Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Carneirinhos, uma encomenda de seu amigo Totó Loureiro. Mas, de tantas obras, aquela que se tornou a “Menina dos seus olhos” foi a mesma que a população local, quando consultada, cerca de cinquenta anos depois, elegeu para ser a “Imagem-Símbolo de Monlevade”: a Matriz de São José Operário, transformando-a no mais significativo monumento existente no emancipado município.

 A princípio, surgira um imprevisto: os dois locais onde se poderia instalar a sonhada matriz se tornaram indispensáveis à instalação de novos altos-fornos, foi quando, então, em um dessas imprevistas circunstancias da vida, a margem direita do Rio Piracicaba, ainda intocada, surgiu como a opção não só mais lógica, como também, de todo, a ideal. À esquerda do rio já se encontrava o “mundo material”, o trabalho, representado pela usina. Nada mais natural que à direita, complementando, a religião, o espiritual. A “Casa do Pai” se destacaria com a mata ao fundo. Deu-se início ao desmatamento e à terraplanagem e, um mês depois, aos 29 de novembro de 1942, foi lançada a Pedra Fundamental em meio a muitas comemorações, presença de autoridades, população engalanada, e discurso do Arcebispo cheio de agradecimentos ao Dr. Burian, o autor do projeto.

 Sendo, em todo mundo civilizado, uma das mais bem capacitadas em construções de concreto armado, a Christiane & Nielsen não só assumiu a construção, como ainda resolveu declarar que a obra seria um presente da Construtora para a amável população de Monlevade que tão bem acolhera seus engenheiros, técnicos e funcionários como se familiares fossem. Os cálculos da obra foram enviados para o escritório da firma, no Rio de Janeiro, e efetuados pelo escritório de arquitetura do escocês Robert Russel Prentice parceiro da Christiane. Junto com seu sócio, Anton Benjamin Floderer, Prentice já realizara várias obras junto com a Christiane & Nielsen, entre elas o Palácio da Itamaraty, no Rio, entre 1928 e 1930.

 Repousando entre duas encostas que formam um ângulo diedro natural, imponente e original, completamente harmonizada com a natureza, a Igreja foi surgindo formando um ângulo de 45º, aproximadamente um triangulo isósceles cujo vértice mais agudo apontava para a usina. O arrojo arquitetônico do Dr. Burian, dia a dia, ia se confirmando. A planta, em sua concepção original não encontrava semelhança em toda a história da rica arquitetura cristã e, no entanto, atendia à todos os preceitos dos cânones eclesiásticos.

 Dividido em seis corpos harmonicamente conjugados e superpostos, na fachada principal, persignando a larga testa de concreto, uma cruz com haste vertical de uns cinco metros de altura afirma a cristandade do majestoso santuário. Aproveitando o declive do terreno, ao rés do chão, na parte inferior, instalou-se uma espaçosa sala de reuniões e catequese e, como remate, as linhas castas, mas imponentes da Matriz de São José Operário levanta na parte posterior, a sua torre de pequena altura, em forma de prisma, limitada, em sua parte superior por um telhado de quatro águas. Em seu bojo, o campanário domina todo o majestoso conjunto arquitetônico e o sonido piedoso do sino denominado “Eloi”, sagrado pelo báculo pastoral de D. Helvécio e ali colocado, com ajuda de roldanas, cordas e muito falatório, por um austríaco de nome George Brunauer, conclama o povo devoto de Monlevade à oração, ressoando como o martelo de Santo Elói em sua tenda de ferreiro e ourives…

 No ponto onde as duas alas se anunciam, ainda no exterior do templo, uma imagem, em tamanho natural, de Santo Elói empunhando seu báculo e ostentando sua mitra episcopal, recebe os fiéis, indicando, com a mão direita, o caminho do céu. Por vir maior que o nicho a ela destinado, providenciou-se uma adaptação de última hora: serraram a base da imagem do santo…

 Determinou-se que o acesso ao templo seria feito em dois flancos, servidos, por sua vez, de dois patamares: do lado direito entrariam os homens, pela esquerda as mulheres. Por dentro, a Igreja é de uma simplicidade tocante. Não poderia ser mais contrastante, quando comparada com os riquíssimos e elaborados interiores das tradicionais igrejas barrocas espalhadas pelas cidades mineiras. Nada de colunas douradas, painéis multicoloridos adornando tetos, nenhum arabesco nos altares. Veem-se apenas, servindo de apoio às cúpulas rasas do templo, grandes arcadas, distribuídas em movimentos convergentes no topo. Na parte superior, já rente ao teto, em cujos vãos quadrilaterais, assomam os lampadários. Espalham-se, em todos os sentidos das paredes, em diversas dimensões, janelas abertas em perfil ogival.

 Afora a capela-mor, onde se encontra numa admirável sobriedade de linhas, o altar principal, com um único nicho ocupado pela imagem de São José, o padroeiro de Monlevade, existem ainda três naves: uma central, que vai da mesa de Eucaristia, toda em jacarandá torneado, até o Batistério, em mármore Carrara, e duas laterais, abrindo-se em “V”, convergente para o Altar-mor, que é visto de qualquer ponto em que se esteja. Sobre o batistério, quase despercebido, o coro domina a fachada interna de frente ao Altar-mor, com seus balaústres em jacarandá torneado, como a mesa eucarística e um órgão moderno que ressoa sob o comando do Sr. José Silva, funcionário mais antigo da CSBM e amante da música. Além do altar principal, existem mais dois laterais, um dedicado a Nossa Senhora das Graças, outro a Santa Bárbara. Merece especial referencia a “Via Sacra” entalhada em pedra, em meio relevo e tamanho natural, ocupando, cada uma delas, a área aproximada de dois metros quadrados. Desassemelhando-se de tudo já visto, como o Templo em geral, impressiona e fascina.

 Mais tarde, acrescentou-se a longa escadaria de quase cem degraus, dando ao conjunto arquitetônico, segundo aqueles pioneiros, o formato de um cálice de onde emerge a matriz, como uma hóstia, o Corpo de Cristo, mas que, também, pode ser o autor assinando a sua obra, a “menina dos seus olhos”: Um imenso “Y” de Yaro, o Arquiteto – o Número Áureo permeia toda a obra.

 Dª Maria Burianova, dinâmica como o marido, estava sempre em atividade. Disposta, não era mulher de pedir favores, botava logo as mãos na massa, gostava de fazer ela mesma o que tinha que ser feito. Em seu humor contido, desenvolvido no Leste Europeu, gostava, às vezes, de contar que, por pouco, seu casamento com o Dr. Burian quase fora pras cucunhas. É que, quando ele decidira acompanhar o irmão e vir para o Brasil, ela, muito inexperiente e insegura, se revoltou com o noivo e decidiu aceitar a corte de um outro rapaz, com quem chegou mesmo a se casar!… Para espanto dos familiares, conhecidos e vizinhos, ela, simplesmente, após as cerimonias, retornou a casa dos pais. Firmou pé e não acompanhou o “marido”, fiel ao noivo distante. Não havia quem a convencesse do contrário. Só se casara para se “vingar” do Yaro, não queria nada com aquele “palerma” que se sujeitara aos seus caprichos juvenis… Yaro, informado do acontecido, deu uma pausa em sua atribulada rotina em Monlevade, voltou a Chropyne, conseguiu anulação do casamento não consumado, no Vaticano, e se casou com sua amada – agora mais preparada a morar o Brasil – no civil e religioso, como mandava o figurino.

A Matriz São José Operário, construída sob o cinturão verde, em fotografia feita logo após a sua inauguração

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