Pra não dizer que não falei do samba… – Por Marcelo Melo.

*Em Memória a Luiz do Cavaco, Zaru do Pandeiro, Julião do Surdo, Luizão do Cavaquinho, Neide Roberto, Severino Miguel, Mestre Cardoso e ao Mestre João Félix!

Na foto acima, durante as comemorações dos meus 5.1, em junho de 2010, na residência do casal de amigos Paulo Roberto Reis e Simone Reis, uma festa toda organizada pelos amigos Márcio Passos e Paulo Roberto, e com a presença de amigos e uma tradicional “Roda de Samba”

O samba surgiu da mistura de estilos musicais de origem africana e brasileira. O samba é tocado com instrumentos de percussão (tambores, surdos, timbau) e acompanhados por violão e cavaquinho. Geralmente, as letras de sambas contam a vida e o cotidiano de quem mora nas cidades, com destaque para as populações pobres. O termo samba é de origem africana e tem seu significado ligado às danças típicas tribais do continente.

As raízes do samba foram fincadas em solo brasileiro na época do Brasil Colonial, primeiramente na Bahia, com a chegada da mão-de-obra escrava em nosso país. O primeiro samba gravado no Brasil de que se tem conhecimento foi  “Pelo Telefone”, no ano de 1917, cantado por Bahiano. A letra deste samba foi escrita por Mauro de Almeida  e Donga. Tempos depois, o samba toma as ruas e espalha-se pelos carnavais do Brasil. Neste período, os principais sambistas são: Sinhô, Ismael Silva  e Heitor dos Prazeres .

Na década de 1930, as estações de rádio, em plena difusão pelo Brasil, passam a tocar os sambas para os lares. Os grandes sambistas e compositores desta época são: Noel Rosa (autor de Conversa de Botequim); Cartola (autor de As Rosas Não Falam); Dorival Caymmi (O Que É Que a Baiana Tem?); Ary Barroso (Aquarela do Brasil); e Adoniran Barbosa (Trem das Onze).  Nas décadas de 1970 e 1980, começa a surgir uma nova geração de sambistas. Podemos destacar, entre compositores e intérpretes: Paulinho da Viola, Jorge Aragão, Roberto Ribeiro, Nelson Sargento, Carlos Cachaça, João Nogueira, Paulo César Pinheiro, Beth Carvalho, Elza Soares, Dona Ivone Lara, Martinho da Vila, Clementina de Jesus, João Bosco, Arlindo Cruz, Bezerra da Silva, Sombrinha e Zeca Pagodinho, além, obviamente, da Turma do “Fundo de Quintal.

Outros importantes sambistas de todos os tempos: Pixinguinha, Ataulfo Alves, Carmen Miranda (sucesso no Brasil e nos EUA), Elton Medeiros, Nelson Cavaquinho, Lupicínio Rodrigues, Aracy de Almeida, Demônios da Garoa, Isaura Garcia, Candeia, Clara Nunes, Wilson Moreira, Elizeth Cardoso, Jacob do Bandolim e Lamartine Babo.

Na foto abaixo, onde tudo começou com o “Samba Fulô” subindo o morro do Geo, nos carnavais de rua dos anos 1950

“Samba agoniza, mas não morre, vem alguém e te socorre antes do suspiro derradeiro”.

Com este verso, de autoria do compositor Nelson Sargento, eu começo a contar a história de um samba feito por muitos bambas. E que também aqui em Monlevade acabou por ser tornar um de seus berços.

Monlevade: onde o morro também desce!

Por obra do destino e pela glória dos talentos musicais que já passaram por esta terra, e os que aqui ficaram, João Monlevade também tem um pedaço do morro, que aqui desceu quando ainda o samba não era uma música tão difundida naquela Vila Operária. Aos poucos se foi difundindo e muito se deve a pessoas da Velha Guarda, dos amantes dos sambas de terreiro e dos incansáveis personagens que sempre lutaram em descer a avenida com suas escolas de samba, desde a Boca de Lobo, passando pela Boca Branca, Boca Negra, o Bloco do Samba Furô, que subia o morro do Geo e, mesmo sem nenhum trio elétrico, era acompanhado pela multidão de foliões/operários. E de figuras que se tornariam folclóricas pelo fato de proporcionar alegria ao povo, entre eles o sempre lembrado “Zé Liga”, o baluarte e fundador da Escola de Samba Estrela da Vila.

Escola de Samba “Estrela da Vila” e seu grande criador, ao centro, o Mestre e saudoso “Zé Liga”, com seu tradicional bigode

Assim, através dos carnavais de rua e dos carnavais de salão, Monlevade foi-se tornando um pouco o berço do samba, onde se destacavam alguns excelentes cantores que tinham carisma e competência para desfilar as suas vozes, interpretando sambas de enredo que faziam sucesso nos carnavais do Rio de Janeiro, entre os quais Severino Miguel, Geraldo Di Noite e da voz feminina da grande artista Neide Roberto. Dos carnavais de salão, destaques para dois grupos, assim denominados: Banda do Julinho e Banda do Edmo. Era sucesso garantido devido aos talentos dos cantores e dos músicos. Nas ruas, personagens como Acrízio Engrácio, o irmão Agostinho, Geraldo Orozimbo, Donde, Wilson Puaia, Cuinha, grandes atrações dos carnavais de rua. Dali a semente estava plantada. E também o grupo de Samba “Som-7”, que fez muito sucesso nos anos 1960, cujos integrantes eram Ladinho Bexiga, Severino Miguel, Afonso (Boca de Lobo) entre outros. O grupo fez fama nos anos dourados do Grêmio e União operário. E ainda os cantores Geraldo “Di Noite” e a grande Neide Roberto, que fazem parte desta linda história!

Severino Miguel (à direita), um dos grandes cantores da noite de João Monlevade e que mostrou sua voz em vários pontos deste país. Cantou na noite, nos festivais da Canção e animou vários bailes carnavalescos ao som da Banda do Julinho, como nesta fotografia, onde se apresenta no baile carnavalesco no salão do Social Clube

O cantor Geraldo “Di Noite” (em 1º plano), junto aos amigos da Banda do Julinho, durante um descanso no carnaval no Social Clube. Grande intérprete de de sambas de enredo e outros gêneros

No início da décadaa de 1980, além do nascimento da Escola de Samba Rosas de Ouro e do Bloco Bonequinhas de Elite, a grande revolução viria com o Bloco Reunião de Bacanas, criado entre amigos dos bairros Vila Tanque e Centro Industrial e que tinham paixão pelo samba de raiz. Samba no pé com passistas levando o samba no asfalto. Foram alguns anos até que, em 1988, tinha fim o carnaval de rua em João Monlevade. E com ele, sucumbindo aos poucos até também chegar ao seu epílogo, os carnavais de salão.

Geração “Afilhados do Sereno”: Revolução cultural

Mas, mesmo antes de sucumbir os carnavais de rua e de salão em João Monlevade, no final da década de 1970 nascia um novo grupo e com uma proposta inédita. Diria que a semente teria brotado nos tempos de República, entre as ruas Camélia, Junquilhos, Java, Fausto Alvim, Campos Sales, junto aos bairros Nova Suíça e Gameleira, em Belo Horizonte. Um grupo de amigos e amantes da boa música. Era uma turma de estudantes e “malandros” que gostavam de uma farra e do bom samba de raiz. Tudo misturado à cachaça e ao violão e panelas; “todo mundo bamba”, como diria Martinho da Vila. Entre eles, eu, Gerson Caldeira, Louis Bonifácio, Licão, Liquin, Mocréia, Zaru, Celso, Véio, Zé Beto (Mocréia), Gaguinho e depois o já cantor Rômulo Ras também viria para somar e contribuir diretamente para fundar um Grupo de Samba. Três dos principais fundadores seriam os republicanos Rômulo, Louis Bonifácio de Oliveira, o “Luiz do Cavaco”, e Gilson Rosa, o “Zaru do Pandeiro”. Eles então já tinham contato com outros dois amigos e dali nasceu o “Afilhados do Sereno”. Além de Rominho, Luiz e Zaru, vieram José Antônio Pereira e José Ricardo Roberto (irmão de Rômulo). Assim o quinteto nascia e começava sua trajetória. Pouco depois um sexto sambista era convidado e completava a percussão junto a Pereira e Zaru: José Afonso, o moço do atabaque, tornando-se um sexteto.

Abaixo, uma das primeiras fotos feita do Grupo “Afilhados do Sereno”, na década de 1980, onde aparecem, da esquerda para a direita: Zé Afonso, o saudoso Gilson Rosa (Zaru), Rômulo Ras, o saudoso Louiz Bonifácio (Luiz do Cavaco), José Antônio Pereira e José Ricardo

Outra foto do Grupo, também das antigas, juntos aos amigos e irmãos Márcio e Mário Paciência

Aqui o Grupo “Afilhados do Sereno” participando de um Festival da Canção de João Monlevade, ainda nos anos 1980

E, do nascimento do “Afilhados do Sereno”, houve um encontro de gerações e senhores da Velha Guarda como os mestres e saudosos Seu Cardoso (cavaquinho) e João Félix (Bandolim) sempre estavam integrados a eles em várias apresentações. Era a experiência e a juventude num propósito único, o de levar o melhor do samba de raiz e de suas tradições ao público. E o sexteto também serviu de influência para que outros fossem criados, como o “Amigos do Pagode”, onde integraram outros bons nomes do samba, entre eles Didi, Cao, Julião, Heloíso, Djalma, Dalson, Carlinhos e Vicentinho do Violão, que também deixou marcada a sua história. E outro nome que não pode ser esquecido é do popular “Nova Lima”, que também integrou o grupo, sendo um dos principais baluartes que deu apoio a essa nova geração de sambistas em nossa cidade. Pouco depois uma nova turma surgia com o “Mistura da Raça”, integrado por Dica, Leopoldo, Geraldinho, Djalma, Reginaldo e Binha. Muita gente boa punha o pé na estrada. Sem contar outros feras das cordas e da percussão, entre os quais José Maria (Cavaquinho – filho de João Félix), Pelé do Cavaquinho, Paulinho do Cavaco (irmão do saudoso Luiz), Luizão do Cavaco, Didi do Pandeiro (irmão do saudoso Zaru), Ernani Braga (percussionista), Guilherme (sobrinho de Paulinho) e outras novas revelações.

Um dos ícones do samba em nossa região, e muito inspirou o Grupo “Afilhados do Sereno”, o saudoso e grande músico, Seu Cardoso, que aparece à direita, cantando. É um exímio cavaquinista e violonista. Ainda na foto, o populares e saudosos Nova Lima e Perboire, membros também da Velha Guarda do Samba

Outro grande Mestre da Velha Guarda que fez sua história em João Monlevade e região, ao lado de seu Bandolin, Sr. João Félix, também saudoso

E os filhos de Seu João Félix herdaram do seu DNA Musical, e aqui três de seus filhos, todos talentosos: O saudoso Zely, Zé Maria e Hélio

Em João Monlevade, o “Afilhados do Sereno” teve a fase embrionária dentro de dois tradicionais botecos, de forma bem natural. Entre o “Hora-Extra”, do saudoso “Pisca”, e o antigo “Chora na Rampa”, do Remo, ambos próximos à ACM. Ali acontecia a noite em Monlevade naquele período, cuja região recebeu o apelido de “Nossa Savassi”, referindo-se ao famoso bairro boêmio de Belo Horizonte.

Mas dali os meninos ganharam fama e se expandiram. Atravessaram fronteiras e, o “Afilhados do Sereno”, pode-e dizer, foi a grande novidade cultural surgida na região naqueles fins da década de 1970 e início de 1980, e era referência em qualidade do bom samba de raiz. Com um repertório de primeira, o público monlevadense, principalmente, começou a ter acesso a grandes nomes entre os compositores e intérpretes dos bons sambas de roda, samba de terreiro e o partido alto, através do grupo, destacando-se Martinho da Vila, João Nogueira, Bezerra da Silva, Jorge Aragão, Roberto Ribeiro, Nelson Sargento, Nelson Cavaquinho, Cartola, Paulinho da Viola, Beth Carvalho, Clara Nunes, Paulo César Pinheiro, João Bosco, Gonzaga Júnior, Grupo Fundo de Quintal etc. Era a efervescência musical que tomava conta dos bares e as casas noturnas.

Nas fotos abaixo, durante apresentação durante o programa que produzíamos na Rádio Cultura, o “Plantão Cultura”, quando sempre levávamos músicos da cidade. Aqui, flagrantes durante shows ao Vivo com os integrantws do “Afilhados do Sereno”, que sempre nos davam uma canja

Mas, como nem tudo que é bom dura eternamente e como naquela época ninguém vivia de música, os músicos foram se dispersando. Cada qual seguindo seu destino em sua vida profissional e familiar. Além disto, um trágico acidente automobilístico, ocorrido no dia 1º de agosto de 1991 levou o amigo Louiz Bonifácio de Oliveira, o “Luiz do Cavaco”, na BR-381. E no ano 2000, falecia o outro sambista e outro grande amigo, Gilson Rosa, o popular “Zaru”, o do Pandeiro.

De todos, apenas Rômulo Ras, “Rominho” vive dessa bendita cachaça, que é a música. E hoje, sem compromisso, os eternos sambistas, amantes do samba de raiz, encontram-se nos bares, nas festas de amigos, para a tradicional roda de samba, com muito tempero. Em qualquer bar da cidade, no quintal de alguma casa ou em cidades vizinhas. Só convidar, porque onde houver um bom samba, lá estarão para apresentar o melhor do partido alto em qualquer roda.

Abaixo, alguns momentos de rodas de samba, durante apresentações oficiais ou em aniversários de amigos, ou mesmo nos bares, fosse em João Monlevade ou em Belo Horizonte. Ou no quintal da minha própria casa e em sítios na região metropolitana de BH. Sempre acompanhei os amigos desde a antiga, até as novas gerações que foram surgindo, após o fim do “Afilhados do Sereno”. Outros bons sambista vieram, conforme já citamos acima. E aqui, ficam as fotografias para que possamos recordar dos bons momentos das rodas com um bom samba de raiz, e fica a nossa homenagem ao grande Grupo “Afilhados do Sereno!

Compartilhe esta postagem

Compartilhar no facebook
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no twitter
Compartilhar no email

4 comentários “Pra não dizer que não falei do samba… – Por Marcelo Melo.”

Deixe uma resposta

Postagens relacionadas

Notícias por Categoria

Cultura

Esportes

Colunas

Seja assinante!

Assine agora mesmo por apenas R$ 47,90 Anuais!

Já é assinante?

Faça seu login!