Monlevade: Gente e História! – Marcelo Melo!

Vila Tanque, vista do alto, aparecendo abaixo a Rua 21, famosa “Rua do Sapo”, além da Rua Bela Vista e a Igreja Nossa Senhora de Fátima

Monlevade tem muitas pessoas históricas, mas também conta com a história dessas próprias pessoas. Por ter sido praticamente criado no bairro da Vila Tanque, próximo à “Rua do Sapo”, obviamente conheço mais passagens dali. E como Monlevade tem histórias!

Um certo dia o (*) “Mú”, massagista e roupeiro do Recreativo Metalúrgico, e também o braço direito daquele clube, descia com sua bicicleta Monark à toda do alto da Vila. Chegando na curva da Contorno com a Rua 22, perdeu o controle do guidon e foi bater diretamente no alpendre  da residência de (*) Paulo Moreira e Dona Nini. A força do choque foi tanta que, com a cabeça, “Mu” quebrou parte dos azulejos da casa de Seu Paulo. Em coma durante vinte dias, a vítima acordou, ou melhor, “ressuscitou”. E durante anos Seu (*) Paulo Moreira cobrou dele o reparo dos ajulezos (rs).

Há também o caso do (*) “Tatú” que, guiando uma bicicleta, bateu na traseira de um Jeep e, devido a alta velocidade que fazia sobre as “duas rodas”, passou por sobre o veículo, ultrapassando-o de maneira sensacional.

As peladas no campo da Lenheira, onde é hoje o Polivalente, os jogos de sinuca e os engraxates no Bar do Alonso. Aliás, todos conhecem o (*) Seu Alonso, da  Tupis ao bairro de Lourdes. Suas origens italianas, seus óculos, seu bar, que por vários anos agitaram as noites da Vila. E uma tradição interessante: nenhum outro comerciante conseguiu sucesso no local onde funcionou o Bar do Alonso. Mas tem também o Bar de Dona Neném! Quem não conheceu Dona Neném, com seu sorriso maternal, onde, em tantos anos instalada ali, juntamente com o seu esposo, Seu Adílio, na Contorno. À sua frente (*) Dona Santa, mais o marido (*) Seu Delvo, tendo começado com um carrinho vendendo laranjas. Tornaram-se grandes comerciantes!

Abaixo, o famoso “Bar do Alonso”, onde aparece à frente ele, sua esposa, família, amigos e clientes do famoso estabelecimento

Na foto abaixo, o casal Dona Santa e Seu Delvo que, de vendedores de laranja, fundaram uma grande loja, as “Casas Pessoa”

Outra pessoa maravilhosa e que hoje vive em sua varanda, observando a calçada, e a (*) Vovó Rosinha, juntamente com (*) Seu Mundico. “Não dá nem pra ir à reza mais, Marcelo. Não consigo andar direito”. Mas está forte, a Vovó Rosinha, irmão do meu avô paterno, (*) Manoel Gomes de Melo, jequizeiros da gema. A reza, como para outros tantos idosos, entra em sua casa pela televisão, às 7 da manhã. A comunhão vem dos céus.

Vovó Rosinha e Seu Mundico, um casal que deixou história na Vila Tanque

Mas um dia essa história ficou meio triste, com casas vermelhas penetrando durante a escuridão do minério, sobre nossa Monlevade. Os ventos vieram das bandas de lá e por fim fizeram sucesso. Não falam mais em coisas feitas e enraizadas aqui. Muitos monlevadenses, da gema, pouco sabem sobre a sua Monlevade. Desconhecem sua própria história, seus causos. Como o do (*) “Tião Pipoqueiro” ou de (*) “Dona Maria da Lavagem”, de (*) Pereira, das caçadas de  (*) Michalick, do Senai de (*) João Peixe, dos áureos bailes dançantes do Grêmio. Também o tempo do Social Clube; do boliche, do pique-bandeira, do ticutin-queimado. Hoje falam de outras coisas e expressam nenhuma poesia nas palavras.

Queria ter 60 anos e ter cantado junto com (*) Seu Cardoso, (*) João Félix, (*) Lelé. E alguém se lembra hoje desses grandes mestres da música? Talvez Tó Vilela se lembre! Mas a maioria, infelizmente, tem poucas recordações de grandes homens, como Seu Lelé, que hoje se encontra no Espírito Santo, cuidando dos netos, acompanhado de Dona Enir. Ele, quem criou aquele Coral bonito que cantava nas missas de sábados e domingos na Igreja da Vila Tanque. Seu Lelé tocava nos casamentos. Do violão ao órgão, o Mestre Lelé fez muita gente se tornar madura. Ele me faz até lembrar do grande poeta Vinícius de Moraes, com seus cabelos compridos. Seus 60 anos são superiores a todos os preconceitos idiotas de muitos jovens, agora que ele faz curso para cabeleireiro. O carpinteiro, o violeiro, o organista, o maestro e o agora cabeleireiro. Seu Lelé tem história e quem o conhece sabe disso.

O Mestre Lelé, Maestro de todos os Corais, aqui com seu Piston

Mas é verdade que eu também queria ter 60 anos, e ter ouvido, quando mais moço, o grande cantor e compositor Claudionor Cruz, parceiro de tantos mestres e entre eles Ataulfo Alves. Ter presenciado Luiz Vieira cantar “Canção pra ninar gente grande”. Mas tudo tinha de ser sacramentado aqui em Monlevade, onde a esperança e o amor por esta terra velem muito mais que o minério e sua riqueza.

Ver as colunas do Colégio Estadual, fortes, hoje esmagadas pelo canto triste de Cartola. Ver a praça do mercado hoje é ser masoquista. Ter visto ela ontem, onde foi montada toda uma estrutura para acompanhá-la, foi lindo! Em cima do colégio, um cinema, uma farmácia, dois clubes, um sanitário público, uma emissora de rádio, a parada dos coletivos, a portaria principal da Belgo-Mineira, os engraxates, os boieiros. Do lado esquerdo, outro clube e um complexo rústico de lojas e mercados. Uma Delegacia de Polícia e havia ainda a Leiteria e o túnel que ainda sobrevive. Túnel ou viaduto, me pergunto. A escadaria que dá acesso à Rua Tamoios. Muitas lembranças…

Falo de cima para baixo, da estação e do apito do trem de ferro que vai para Vitória. Das praias de janeiro. Nova Almeida, leva-me contigo! Lá era como se estivesse em Monlevade. Mas hoje, nem aqui estarei. Pois é, uma sensação de alívio com amargura; saudade com poesia; prazer com frustração. Um apanhado de mensagens luminosas vinda de lá, da Igreja Matriz de São José Operário, da Tieté. O (*) Otacílio Caldeira, que nunca se candidatou a nada em nem precisava. Já tinha os votos de toda João Monlevade! (*) Seu “Totó”, sempre sorridente. (*) “Santa Bárbara”, com a cara fechada, lembrando do meu pai, mas de um coração imenso.

Estação Ferroviária: a linha que nos levava ao litoral capixaba especialmente a Nova Almeida

A praça, naquela época, era dos parques e do povo. As procissões lindas da Semana Santa e os desfiles de 7 de setembro, com a fanfarra do Estadual, que dava “água na boca”. Os times de futebol de salão que o Grêmio sempre montava e o campo do Jacuí. A boa rivalidade entre Metalúrgico e o Vigilante. O Belgo-Minas e o Vasquinho não eram do meu tempo. E foi um tempo muito bom…

Quem presenciou as enchentes do Piracicaba? As forças de suas águas e o visual amargo visto do Ramp´as ou da Rua Piracicaba, “xará” do rio. A Siderúrgica em festa e os hotéis. O Bar da Ponte ainda é vivo, ou ao menos seu nome. A antiga Rodoviária. O que restou dali? Triste, mas fatos que se consomem com o progresso da cidade. Mas, o que devia haver é sensibilizar as pessoas que chegam de fora para que passassem pelo ritual de saber o que já foi Monlevade. Do seu folclore e das suas figuras folclóricas. Da sua história, em prosa e versos. Da magia em ver as luzes da Matriz acesas e conhecer os causos dos coroinhas que tanto “roubaram” do vinho do (*) Padre Higino.

A história prossegue e nunca se apagará, pelo menos a nossa. Assim será João Monlevade, uma cidade que vive às custas de sua gente, que nela trabalha e nela acreditou!

A Rua Beira-Rio e a antiga Rodoviária. Onde tudo por aqui passou

(*) Falecidos – Esta crônica foi publicada no jornal semanário “Tribuna de Monlevade”, na edição de nº 77, de 26 de junho de 1986.

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