As “Holandesas”: pioneiras sociais de Monlevade!

Prédio da ARPAS, grande realização das “Holandesas”

Era 1955 e eu tinha pouco mais de dez anos de idade. Morando nas imediações da Igreja de São José, fazia do adro da Igreja meu campinho de “pelada” e ponto de encontro com meninos de minha idade para brincadeiras de rua. De vez em quando, ou quem sabe na maioria das vezes, perturbávamos o repouso e as reflexões dos padres da Igreja que, do alto, das janelas da casa paroquial, punham alguma ordem no caos que e ele, conhecido na época como “Sociedade das Obras Sociais”, cuja atuação está na gênese de todo o trabalho social que se aprendeu e se pratica hoje em nossa cidade. As “Holandesas” – é assim que elas eram identificadas – vieram para dirigir o corpo de enfermagem do recém-inaugurado Hospital Margarida. Depois, ocuparam-se das mais diversas atividades: catequese escolar, catequese paroquial, pastoral litúrgica, canto pastoral, formação de catequistas, administração do Alojamento das Professoras, magistério no Ginásio Monlevade, formação profissional feminina, clube de mães… Criaram uma cooperativa de trabalho, a Unilabor. Fundaram também uma escola profissional para meninas e adolescentes, a Escola Santa Marta. A ARPAS – Associação Regional de Promoção e Ação Social – também é fruto de uma parceria articulada por elas, no início dos anos setenta, entre o Governo dos Países Baixos e a comunidade de João Monlevade. Entregue atualmente à Mitra Diocesana, a ARPAS, que vem funcionando como Centro de Formação Pastoral, acolhe pessoas e entidades para treinamentos, encontros, cursos, seminários, congressos, retiros espirituais e atividades afins.

Dona Guilhermina Hunsche, professora de inglês no Ginásio Monlevade e Assessora do bispo de Itabira, Dom Marcos Noronha


As “Holandesas”, que não residem mais em Monlevade, mantêm ainda duas casas no Brasil: uma em Belo Horizonte, outra em Lagoa da Prata. Tendo atuado durante tanto tempo em João Monlevade, merecem, todas elas, um registro na memória que construo desta “NOSSA TERRA, NOSSA GENTE”. Na impossibilidade de fazê-lo integralmente, pelo menos por enquanto, citem-se com carinho e gratidão:

Maria José van Leeuwen, integrante do grupo inicial como superiora e presente até o final das atividades na cidade, reside atualmente em Lagoa da Prata;

Guilhermina Hunsche (in memoriam), também integrante do grupo inicial, professora de Inglês no antigo Ginásio Monlevade e, posteriormente, assessora do Bispo de Itabira, Dom Marcos Noronha;

Alberta Maria Pecx, que muito marcou a Escola Santa Marta com seu trabalho;

Adinda van Den Bruele, de grande presença e atuação nos programas sociais da ARPAS;

Joana Maria van Doormnalen, que teve seu nome muito ligado aos Clubes de Mães e, principalmente, à Unilabor.

Aparecida Carneiro Pontes, brasileira que se integrou ao grupo e que atuou longo tempo em João Monlevade.

Essas missionárias passaram a integrar o nosso dia-a-dia e, apesar de provocarem estranheza por causa dos costumes diferentes e do pouco domínio de nosso idioma, não se pode negar que prestaram um serviço extraordinário à educação do povo e à formação de sua consciência social e solidária. Em suma, O Instituto Unitas, por sua atuação em João Monlevade, não ficou limitado no tempo e espaço, mas soube adaptar-se totalmente à nova linha de pastoral da Igreja, constituindo-se em pedra viva na construção do Reino de Deus.

Tendo convivido, com as “holandesas” desde minha infância, acabei registrando alguns “causos” que testemunhei e que passo a relatar. Um dia, pouco antes da missa na Igreja de São José, Dona Maria José pediu-me que desse um recado para uma pessoa que estava em um dos dois cômodos (sacristias) situados um de cada lado do altar. Para me desincumbir da tarefa, tive que passar umas três vezes diante do altar, de um lado para outro. Voltei e dei-lhe o retorno. E ela, bem baixinho, quase segredando: “Muito obrigada! Você está de parabéns, porque fez todas as genuflexões, direitinho, todas as vezes que passou perante o sacrário”! Ela sabia que criança aprende, mas precisa ser valorizada! E foi importante para mim, pois jamais esqueci esse acontecimento.

Dona Luzia, Joana Doormnalen e Aparecida Carneiro Pontes

Dona Adinda, Dona Maria José e Dona Alberta, holandesas integrantes do Instituto Unitas. (Foto dos anos 80)


Não me esqueci também de como o uso do idioma, desconhecido para seus padrões germânicos, provocava hilaridade. Meu Deus! Como confundiam o gênero das palavras! No Ginásio Monlevade, uma delas, de nome Josefina, lecionava Trabalhos Manuais. Quando soube, lá no fim de minha quinta série, que eu iria no ano seguinte para o Seminário de Mariana, incentivou-me: “Dadinho, vôce é um menina muita piedosa. Vai serr uma ótimo sacerrdote!” De outra feita, estava no Alojamento das Professoras fazendo um mandado qualquer e Dona Guilhermina pediu-me um favor: “Vôce passe na Secretaria e me traga meu pequeno rede que esqueci lá.!” Após uma boa pesquisada com os olhos, descobri que seu “pequeno rede” era uma daquelas sacolas artesanais, tecidas de linha e formando uma malha como rede, para levar objetos leves.

Para demonstrar o bem espiritual que elas certamente legaram a todas as crianças da época, registrei, também, uma pérola de música religiosa, ensinada por Dona Maria José ou Dona Guilhermina. Na verdade não sei mais quem foi, só me lembro de que foi numa aula de religião do meu curso primário e de que as palavras desse hino ensinaram-me o valor da Palavra de Deus, como base e fundamento da fé cristã. Era mais ou menos assim:

Qual, irmãos, é vossa Fé?
Declarai-a tal qual é:
– É a Fé católica,
Que confesso íntegra! Creio! Creio!Mas dizei com precisão
Desta Fé qual a razão:

É que Deus é veraz
E de engano não é capaz! Creio! Creio!

E qual é o manancial
Deste ensino doutrinal?

É a Palavra divinal
Quer escrita, quer oral! Creio! Creio!

Missões Redentoristas em João Monlevade (1951). Entre os sacerdotes, Padre Higino e Padre Drehmanns

E passaram-se os anos. A cada dia testemunhava fatos e mais fatos de como a presença das holandesas influenciou a vida em Monlevade. Tenho certeza de que, se eu chamasse meus colegas de infância e de ginásio para conversarmos sobre aqueles belos tempos, muitas histórias inéditas seriam reveladas sobre a vida e atuação dessas missionárias. De outra coisa também não duvido: ficou plantada em nossos corações, e está dando fruto, a semente do Evangelho de Cristo, a quem elas serviram e testemunharam com a alegria de seu coração e a generosidade de sua vida.

*Pesquisa e Texto: Geraldo Eustáquio Ferreira (Professor Dadinho)

Matéria publicada na edição de nº 133 do jornal “Morro do Geo”, de maio/2009.

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