A História é a Mãe da Estória – F. de Paula Santos

Moro há mais de 20 anos num bairro bem urbanizado, com ruas largas, asfaltadas e quadras bem definidas. Aqui a maioria dos vizinhos se conhecem – apesar dos muros – e alguns até se relacionam, principalmente através da religião, com orações nas casas daqueles que comungam da mesma fé. Além dos católicos, tem evangélicos que fazem da religião um momento de homenagem com uma suave e harmoniosa seresta a seus irmãos de fé, quando aniversariam. Tem também os que passam de porta em porta – como também fazem os católicos na campanha “do quilo” de São Vicente de Paula -, fazendo trabalho de evangelização.

Mas eu quero falar dos meninos e dos ovos. Parece estranho? Pois é. Eu também acharia. Contudo, vejam vocês o que se passou comigo há cerca de uns dez anos. Um grupo de garotos – eram três ou quatro -, com idade em torno de 12 anos, mais ou menos, chegavam a certo ponto do muro da minha casa e atiravam ovos que se espatifavam e escorriam na parede da garagem, como só os ovos conseguem. E havia ainda os que caiam no telhado, tornando a limpeza mais difícil. Como eu já estava aposentado – coisa que nossa geração é uma das últimas a se gabar de sê-lo -, ocorria, às vezes, estar em casa na hora. Ao ouvir o barulho que eu já identificava, corria ao portão a tempo de ainda ver os peraltas na sua fuga para não serem apanhados. Isto deve ter durado de dois a três meses, ocorrendo de quando em vez, fato que começou a incomodar também a minha esposa, pois, quando eu não estava, ela se assustava e temia sair para ver o que era. Como se criou certa rotina, até com hora marcada, passei a observar melhor o movimento dos garotos para um possível flagrante. Assim, certo dia, até o fato se repetir, fui rapidamente ao portão acompanhando de longe a direção tomada pelo pequeno grupo. Aproveitando a boa urbanização do bairro, corri em uma rua paralela, apostando num possível encontro na transversal. E foi o que aconteceu! Ao me deparar um pouco mais à frente com três “anjinhos” amedrontados com o velho barbudo que vinha na mesma direção tentando demonstrar tranquilidade – embora as pernas bambas e o coração quase saindo pela boca pelo esforço da corrida -, dava-se para perceber certa tensão no ar. Buscando não assustá-los mais do que, possivelmente, já estavam, cumprimentei educadamente e perguntei se podíamos conversar. O menor deles, porém não menos esperto, perguntou sobre o quê. Eu disse: ovos.

Procurando parecer o mais natural possível – que a ocasião permitia -, convidei-os a passar lá em casa – e eles sabiam onde era – para nos conhecermos melhor e, quem sabe, tomar um refrigerante. Eles não sabiam o que responder, mas assentiram discretamente. Seguindo na direção contrária, continuei andando como se nada tivesse acontecido, acrescentando ainda que os esperava, uma hora dessas. Imaginei que a história tinha acabado ali, ou até que uma posterior chuva de ovos seria a resposta. Pensei também que não teriam coragem de me procurar, pois, naturalmente, “esse velho quer mesmo é saber onde a gente mora, para procurar nossos pais”. Mas não foi o que aconteceu.

Uma batida suave no portão. Atendo e dou de cara com meus três mais novos amigos – receosos e cabisbaixos. Chamei minha esposa e apresentei: – “os meninos dos ovos”. Sorrisos sem graça e a apreensão estampada naqueles belos rostos infantis. Ato contínuo mostrei nosso modesto jardim, os espaços; onde os ovos caiam e lhes falei do trabalho que vinham me dando com a limpeza exigida. Eles quase não falaram. Apenas me acompanharam e disseram que num lote vago que havia por perto, colhiam os ovos dadivosamente depositados por galinhas da vizinhança. Tomamos coca-cola e criamos uma camaradagem. , da parte deles, ainda desconfiada.

Assim que saíram eu não sabia como conter a alegria. Só me passava pela cabeça a coragem daqueles garotos e a dignidade como se portaram, superando o medo e acreditando no perdão. Naturalmente tinham – e que Deus permita ainda ter – pais que lhe deram educação. `altura e que os mostraram a importância de nobres valores. Não cheguei a conhece-los de fato. Nunca mais os vi. Mas aposto, sem medo de errar: longe das travessuras a que toda criança tem direito, aqueles meninos são hoje grandes homens. E seus pais, com certeza, dígnos dos maiores elogios.

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