LI & LAU – CENAS DE CINEMA – Afonso Torres

Na foto acima, Wladyslaw e Neli, do álbum de Casamento

Uma Vila de Operários metalúrgicos, em sua maioria de fé católica, não poderia deixar de evocar seus santos protetores.. Por ser invocada como benfeitora das pessoas que trabalham com fogo, Santa Bárbara, a Rainha dos Raios, tornou-se patrona dos monlevadenses; defensor de todo operário metalúrgico, Santo Elói, que foi ferreiro e ourives, foi declarado patrono e, por último, o de maior excelência, São José, o Carpinteiro Guia do Jesus Menino, foi entronizado o Padroeiro.

Por não ter um templo ainda edificado, os ritos religiosos eram praticados no pátio da Fazenda Solar e, posteriormente, no amplo vão em frente às instalações do Grupo Escolar e do cinema de madeira erguidos provisoriamente, como quase tudo àquela época, com madeira vinda de Coronel Fabriciano ou dos hortos florestais da Cia., no mesmo espaço em que se preparava a construção dos prédios que iriam compor o conjunto arquitetônico da futura Praça Ayres Quaresma. Apesar de construídos de forma acelerada, apresentavam um aspecto impecável, graças ao empenho e profissionalismo de Cezário Moura na serraria e do Francisco Dank, um alemão que chefiava a carpintaria.

Padres Missionários sempre passavam por Monlevade exercendo suas atividades eclesiais, assim, casamentos e batizados eram sacramentados, de forma coletiva, no amplo espaço aberto, sob a abóbada celestial, iluminados como dia, desde 1937, por um motor a gás de 1.130 Hp e um motor DIESEL DE 800Hp que complementavam o suplemento de energia gerada pelas Usinas de Carneirinhos que alimentavam a Usina.

Em agosto de 1942, durante as missões, o jovem Wladyslaw Cekiera, um aluno do recém criado SENAI, ( graças à uma canetada do Presidente Getúlio Vargas,), apesar de estar de três às onze na Usina, resolveu aproveitar o horário de refeição para dar um “pulinho” até a praça, junto com alguns amigos, afinal, a maioria da população local estava lá concentrada. Uma oportunidade de ouro para se aproximar de uma morena sestrosa, Porta Bandeira da Escola de Samba União Operária, organizada e dirigida pelo Zé Vicente, um sambista natural de Niterói. É que ele estava caidinho por ela fazia já um bom tempo!…. Não demorou muito para que ele a identificasse num elevado em frente, próximo à Pensão do Adelino, quase ao lado do Mercadinho de Hortifrútis da Dª Maria Portuguesa, a cabeça erguida como a

vislumbrar futuros. Com o vidrinho de água que trouxera para a cerimônia de benzedura apertado nas mãos, pensou: “ O mój Boże, jaka ona jest piękna!!!”(Meu Deus, como ela é linda!!!)

Apesar de estar com a tia “à tira-colo”, parecia ter se instalado à parte da multidão exatamente para que ele a encontrasse. “Jakie mam szczęście!” (Que sorte a minha!) – pensou. Ficou por ali de olho esticado, esperando uma oportunidade de se aproximar, esfregando o vidro de água benta nas mãos. O tempo passando, ele precisando voltar para o trabalho e nada da coisa evoluir à seu favor… Seus olhares, antes discretos, foram se tornando insistentes, ansiosos. A tia da menina acabou por se manifestar irônica:- Olha só como são as coisas, Neli!…. Nem faz tanto tempo assim – até parece que foi ontem – você e seu irmão estavam logo ali, hora chiando pelos montes de terra produzidos pelo serviço de terraplanagem, noutras buscando sacos de serragem para abastecer nosso fogão: e agora já tem gente grande “arrastando as asas” pro seu lado!

Encabulada, de braços cruzados sobre o peito, como a ocultar as transformações hormonais próprias da adolescência, a sobrinha reagiu: – Deixa disso, tia Nina!… Para de ficar inventando!… Não estou vendo nada disso, não!!!…. _ Ah, não?!…Vai querer me convencer que aquele gringo bonitão ali, com cara de Kirk Douglas, ’tá de olho é em mim?!… Deus tá vendo!!…

Neli, mais à vontade, já que a tia estava “campiando”, olhou de forma mais direta pro “Gringo”. Sabia quem era ele, claro! Num lugar tão pequeno todos acabavam por se conhecer. Sabia que ele era irmão da Gretchen, filhos do Sr. Josef e Dª Augustina Cekiera e goleiro do Independente Futebol Clube. Sabia também que tocava violino na turma de seresteiros liderada por seus tios. Já notara seus olhares faz tempo, mas sabia, também, que tinha amigas de olho nele… Melhor manter o recato sempre recomendado pela avó Mariquita….

Alto, cabelos claros, profundos olhos azuis, sempre “alinhado” e perfumado, branquinho!… Como não notar?!… Até se parecia com um daqueles astros de Hollywood que estampavam as páginas da Revista “Cinearte” – uma revista bimensal, criada em 1926 no Rio de Janeiro, cujos assuntos englobavam a vida pessoal dos astros do cinema, moda e fofocas. Tornou-se indispensável para os fãs que colecionavam as figurinhas, colando-as com grude nos álbuns editados com este fim e, ainda, recortavam as fotos de seus ídolos para com elas enfeitarem a frente de seus cadernos encapados com papel de seda extraído das caixas de sapato.

Como elas se mantiveram no lugar, o gringo resolveu se aproximar, afinal de contas era o dia do seu aniversário, 22 de agosto. Ele se daria aquele presente de qualquer jeito!…. Embora estivesse todo sujo de graxa por causa do

trabalho, foi se aproximando um tanto quanto inseguro, pois, com tão pouco tempo de Brasil – saíra da Polônia a 29 de agosto de 1939, um dia antes da “Operação Himmler”, em que os alemães encenaram um ataque polonês contra posições alemãs na fronteira e dois dias antes de Hitler dar início à “ Kampania Wrzesniowa (Campanha de Setembro), invadindo-a, dando início à Segunda Guerra Mundial. Não dominava, ainda, o novo idioma e o sotaque bastante carregado era um outro obstáculo quase intransponível. Olhando primeiro pra tia, nervoso, disse: – “Przepraszam… Nie!!!… Com licença?!… Percebendo que se divertiram com o embaraço dele, sentiu-se bem vindo, então se dirigiu à mocinha que se atracara aos braços da tia: “ Posso saber seu imie, Nie!!! Nome?…” Cabisbaixa, olhos brilhantes, coração aos pulos, respondeu: “Neli Cardoso. E o seu?…”Wladyslaw Cekiera, joden z twoich slug! …Nie!!… Um seu criado!… Desculpe, ainda não domino o idioma….

Pronto!…. Já se podia dizer que estavam namorando!…. Naqueles tempos era assim. Namorava-se de longe. Nada destas intimidades de hoje em dia!… Olhares, sorrisos, suspiros e só!

Dois dias depois iria ao cinema acompanhando a tia Milota, sabia que iria vê-lo. Precisava se aprontar!… Primeiro cacheou as pontas do cabelo com espuma de sabonete, depois separou seu vestido de seda estampadinha adquirida na Loja São José de Nova Era. Ia combinar bem com seus novos sapatos de camurça preta que tinha até um saltinho!… É verdade que o vestido pertencera à tia mas, depois de passar por uma reforma bem feita, parecia novinho em folha!… Ninguém diria ser o mesmo!… Ficara lindo com sua saia de godê duplo!… Podia muito bem vestir uma Rita Hayworth, uma Ava Gadner ou Bettie Page que elas não fariam feio!…

Wladyslaw ficou de plantão, vigiando se ela viria. Viu quando sua tia comprou um ingresso de segunda classe. Era mais caro, pois ficava mais distante da tela, mais confortável para o espectador. Correu para comprar o seu e alcança-las no interior do cinema, antes que um aventureiro sentasse ao lado de sua cobiçada pretendida. Enfiado em um terno confeccionado na alfaiataria do Sr .Costa, logo ali junto da farmacinha do Sr. Rogério, ao lado do cinema, o gringo mais parecia um galã. Quem era Errol Flynn?… Quem era Gary Grant?!…. Eles que se mantivessem distantes que o Clark Gable da vez era ele! Garantia-se!… Chamou o baleiro, escolheu algumas, pagou e pediu que entregasse às “meninas” que olharam em sua direção, permitindo-o a se aproximar. Exalando a “Eau de Cologne 4711” emprestada do pai, sentou-se. Os corações saindo pela boca, deixaram o cinema sem saber, sequer, qual filme estava em cartaz.

Funcionando desde 39, quando foi inaugurado com o filme “Prision Farm” com Lloyd Nolan e Shirley Ross, direção de Louis King – no Brasil recebeu o título “Penas de Amor” . narra a história de uma jovem que se apaixona por

um ladrão. Ela acaba sendo presa quando o visita e levada para uma penitenciária. Ficou em cartaz por mais de um mês e as pessoas assistiam por diversas vezes. o longa metragem de 67m. Os seriados às terças eram concorridíssimos, tanto na seção das 18, quanto na das 20 horas. Mas, naquele dia, tudo estava diferente, muito diferente…. Em meio a multidão que saia do cinema, a tia logo atrás, Wladyslaw ao lado, Neli pisava em nuvens, alheia a tudo e a todos, imersa em seus devaneios juvenis. De repente, sumiu!!!… Um dos buracos abertos para se fazer as fundações dos futuros prédios da futura praça a engolira!… Wladyslaw, aflito, logo se agachou e estendeu as mãos, perguntando se se machucara: “ Omőj Boże!… Czy mnie skrzywdziłeś, moj aniołku?!!!” (Ai meu Deus!… Machucou, meu anjo?!). Assustada, Neli estendeu as suas para ser içada daquela lama fina que se formara no fundo do buraco. Muito envergonhada, não quis sequer olhar pro rapaz e agradece-lo. Saiu correndo sem olhar pra trás. A saia pesava. Da combinação encharcada a lama escorria. Os pés chapinhavam dentro dos sapatos e ela corria com ele ao seu encalço. Resolveu tirar os sapatos para melhor correr, fugir dali com sua vergonha e ele atrás a chama-la: “Hej, czekaj na mnie!!!…” (Ei, espere por mim!!!), tal o seu desespero por não entender o que estava acontecendo no dia em que era para tudo ser perfeito!… Ela que já não tinha ouvidos pra nada de tão constrangida, ouviu menos ainda, só corria. Chegando em casa viu que sua vó, Mariquita de Sá, estava rezando seu terço de todo santo dia no quarto, seus tios ainda estavam na rua. Um pouco aliviada por não se sentir exposta à chacota da família, foi lavar os sapatos e recheá-los de pedaços de pano velho para que não perdessem a forma. O vestido podia ficar para o outro dia. Bastava colocar de molho.

No dia seguinte, lavado e enxuto o vestido precisou passar por uma nova reforma: o peso da lama despontara todo o godê da saia… Seguindo as instruções da avó, Neli marcou nova bainha e, a cada ponto que retrocedia para compor o ponto “pé-de-galinha”, ia recompondo, junto, as lembranças do noite anterior. Foi então que se deu conta de que , pela primeira vez, segurara nas mãos de um namorado!… O que ela, então, não sabia e nem sequer podia imaginar é que dentro de três anos ela, de véu e grinalda, estaria adentrando a Igreja Matriz de São José Operário , cuja pedra fundamental fora lançada a 29 de novembro de 1942 e devidamente abençoada pelo Arcebispo de Mariana, D. Helvécio Gomes de Oliveira no ano de 45, para se casar com aquele Gringo Galanteador, naturalizado Ladislau. Abençoados pelo Capelão-Cura Padre Almir de Resende Aquino, tornaram-se companheiros de uma vida inteira e com ela assinando embaixo: Neli Cardoso Cekiera.

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