Ninguém sabe, Ninguém viu! – Afonso Torres

Na foto, o Cruzeiro, que foi erguido em frente ao local, antes mesmo da construção da Igreja Nossa Senhora da Conceição, em Carneirinhos. A braúna foi abatida na região da Pacas e o registo foi feita pela câmera fotográfica do Sr. de Totó Loureiro, que participou de toda a empreitada

Totó Loureiro era um homem simples. A força do trabalho e o empreendedorismo tornaram-se a sua marca e foi com ela que tomou frente na busca de solução para inúmeros problemas comunitários que atordoavam a população do pequeno vilarejo de Carneirinhos.

Chegou por aqui em 1944, na condição de encarregado da construção das casas do Baú, Areia Preta e Vila Tanque, a convite do Dr. Gilberto Xavier de Alcântara. Decidido a aqui fincar raízes, homem de visão que sempre foi, trouxe a família – mulher e quatro filhos – e passou a não medir esforços em aplicar suas qualidades em tudo que fazia. Não foi diferente quando – depois de convencer seu compadre Dr. Yaro Burian a criar um projeto para a Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Carneirinhos e começar a edifica-la promovendo as “Procissões dos Ladrilhos e das Telhas” e outros festejos que possibilitassem a participação de todos naquele empreendimento – pôs-se à frente da equipe montada para erguer no adro da mesma um cruzeiro que santificasse aquele espaço, sendo símbolo da crença do povo e elemento falante na paisagem humanizada.

Um grupo de Missionários que por aqui passava, coisa muito comum à época, usando de seus conhecimentos, deu as instruções indispensáveis para que se erguesse não só um madeiro em forma de cruz, mas sim que ficasse ali em frente a Igreja como uma forma de oração, um convite à reflexão: como um catecismo de madeira, isso sim, e, portanto, todos os que estivessem envolvidos naquela sagrada tarefa se reconciliassem com Deus através do, também sagrado, Sacramento da Confissão, o que seria um exercício de humildade e os faria crescer em todas as virtudes.

João Benício, um fazendeiro local, logo ofereceu uma braúna que reinava em suas terras sobre as outras árvores ereta, esguia, altaneira. Um pouco longe, era verdade, mas valia o sacrifício… E lá se foram eles!… Umas duas dezenas de homens, devidamente paramentados com suas ferramentas, empoleiraram-se na carroceria do maltratado Fordinho 42 do Totó e seguiram viagem rumo às Pacas em busca daquela preciosidade. Quando chegaram próximo à “Volta Fria” – aquela curva mais fechada quase no final da Av. Getúlio Vargas, no final do Bairro Santa Bárbara, já era possível ver a tal árvore. Não restava dúvida, fora talhada pela natureza para aquele destino. Se destacando na mata, parecia desafiá-los. Totó que gostava de registrar tudo com sua máquina fotográfica, desceu do carro e registrou os últimos instantes de seu reinado.

Abatida a braúna, era hora de transportá-la. Não tinham se preparado para aquele colosso. A árvore era maior que a encomenda… Improvisar era preciso. Um carro de boi que Totó vira encostado na estrada pareceu-lhe uma boa solução. Estava acostumado a tomar decisões de última hora e confiava na sua intuição que nunca lhe faltara: o reboque não poderia se ajustar melhor. Adaptado ao eixo do caminhão, aquele carro de boi sustentou a braúna pelos esburacados caminhos como se só para isso tivesse sido feito. Benção de Deus!!!… Todos diziam. As comemorações não se restringiram aqueles homens envolvidos até a alma – homens de fé que sempre foram – as crianças que eles encontravam pelo caminho se encarapitavam no tronco, felizes. Muito felizes. Lembravam aos adultos a frase do Mestre: “Deixai vir a mim as criancinhas, delas é o Reino dos Céus!…” E o característico canto emitido pelas rodas do reboque improvisado fazia coro à alegria da meninada…

O tronco seria preparado nas dependências da C.S.B.M.. Uma vez aplainado e lavrado o corpo e braços do cruzeiro retornaram para seu destino final. No adro da futura Igreja, fiéis endomingados fizeram uma festiva recepção. e começaram a opinar sobre formas de erigir o monumento. Estava claro que era tarefa pra gigantes… Ninguém se intimidou: Deus sempre providencia!… Alonso Leite, rodeado por suas crianças, falou que na Montagem da Belgo existia um guincho que daria conta do recado, era só falar com Paulo Hoffman. Lá se foi Totó e seu caminhãozinho de volta a Monlevade. Trouxe não só o guincho, mas também uma condição imposta por Paulo: confiava a máquina exclusivamente às mãos de Alonso Leite, pois já a manipulara em seus tempos de encarregado da Montagem.

O que ninguém esperava aconteceu: Alonso se recusou a obedecer a imposição dos missionários.” Não era homem de sair por aí abrindo sua vida pra qualquer um, ‘inda mais prá homem de saia!… On’ já se viu, gente de Deus?!!… Confessar ‘tava fora de cogitação!…”

Impasse criado, o cruzeiro jazia sobre a escadaria em frente a construção, o buraco que o sustentaria já estava escavado esperando sua ocupação, os cordames atados e as estacas de apoio em seus devidos lugares e o povo ansiando ver o “seu” cruzeiro erguido às alturas que lhe fora destinado.. Quem conhecia não tinha dúvida: Alonso seria irredutível, o jeito era convencer os missionários. A pressão surtiu efeito. Os padres dariam uma benção coletiva à equipe comandada por Alonso Leite, isentando-o da obrigação imposta aos outros. Assim se fez e o cruzeiro foi entronizado, não sem muito esforço. Aplausos emocionados dos fiéis, abraços entre os amigos envolvidos e uma missa campal foi celebrada encerrando os festejos e, sobre a paisagem, o símbolo da cristandade passou a se impor solene….

Madeira verde que era – não tivera o tempo indispensável para secar – logo surgiu uma rachadura de fora a fora no corpo do cruzeiro, provocada,, evidentemente, pela contração com a perda da água mas que logo foi identificada pelos caboclos locais como culpa do Olavo Leite e sua rejeição ao confessionário: ‘Uma heresia, Deus nos livre!”

Este cruzeiro, assim como seu antecessor – o cruzeiro que ficava em frente à Capela do Cemitério de Carneirinhos , erigido por volta de 1830 com todos os signos que lhe cabiam, desapareceu sem deixar vestígios: ninguém sabe, ninguém viu!!!…

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2 comentários “Ninguém sabe, Ninguém viu! – Afonso Torres”

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