De Barra Longa para a Vila, o centenário Sr. Marinho é o Personagem do “Morro” – Por Marcelo Melo

Na foto acima, na varanda de sua casa, à Rua 11, Vila Tanque, Sr. Marinho com alguns filhos, noras, netos, a cunhada Adelma e a sobrinha Georgeta

O Vila Tanque é considerado o bairro onde reside o maior número de aposentados que trabalhou na Belgo-Mineira. Com certeza, é nele que encontra-se a simpática “Velha-Guarda” da Usina, homens que deram muito suor e até sangue na produção do aço e consequentemente para o desenvolvimento social e econômico de nossa João Monlevade. Muitos desses operários já se foram, assim como as suas companheiras, exímias donas de casa, esposas, mães e cuidadoras do lar, mas ainda alguns estão entre nós para contar suas belas histórias, mesmo que uns tenham enfrentado mais dificuldades, mas munidos de muita religiosidade e fé. Isto nunca lhes faltou. E um destes personagens é o Sr. Marinho Benedito dos Santos, natural de Barra Longa, onde veio ao mundo em 3 de março de 1918. Aos 100 anos de idade, é de uma vitalidade invejável, tanto que religiosamente aos sábados sai de sua casa, onde mora, ali à Rua 11, na famosa Vila, pega um coletivo e vai até Carneirinhos, onde compra seu frango e um quiabo. E no domingo, prepara o seu prato preferido, à espera dos filhos e agregados, que é o frango ensopado com o “babão”, conforme costuma brincar. Não há quem resista ao seu tempero (rs). E é de uma lucidez impressionante, e a idade não lhe impede de ter sua independência. Afinal, é ele até os dias de hoje que vai ao banco receber seus vencimentos e quem cuida de suas finanças. Como ele mesmo frisou: – “Como não aprendi a dirigir, ando mesmo de ônibus e adoro ir a Carneirinhos”.

  Nascido de uma família de oito irmãos, filho do pedreiro Antônio Egídio e da dona de casa D. Georgeta. O pai tinha o ofício de pedreiro, mas nas horas vagas era músico. Um excelente baixista e tocava na Corporação Musical de Barra Longa. Faleceu quando Marinho tinha apenas 10 anos de idade, durante uma apresentação da Banda. Dos irmãos, alguns herdaram a musicalidade do pai, entre eles o Marinho, que era chamado “o menino do prato”, o seu instrumento. Naquela época, após a partida do pai, ele e os irmãos trabalhavam no garimpo em busca de ouro, que na época ainda era encontrado na região. No entanto, com a crise no mercado, e as dificuldades para a sobrevivência, o jeito foi buscar trabalho em outras terras. Dessa forma, em meados dos anos 1940, um dos irmãos, o Manoel Marcelino, também musicista, resolveu arriscar a sorte em João Monlevade, onde a Cia Siderúrgica Belgo-Mineira acabava de abrir sua Usina e estava admitindo novos operários. Havia um conhecido, Sr. José Silva, também músico, que já trabalhava na Usina e ocupava um bom cargo de bombeiro hidráulico, o que poderia ser um facilitador para que Manoel conseguisse uma vaga, que também era bombeiro. E assim foi, e tão logo desembarcou na Portaria-1, muito cansado da viagem, procurou pelo Sr. José Silva. Ao encontra-lo, apresentou-se como tocador de clarineta e de sax, e bombeiro como profissão. Foi a senha para ser admitido na Belgo-Mineira. Assim, meses depois vieram os outros irmãos, entre eles Seu Marinho, que aqui chegou no ano de 1946, com a esposa Maria José dos Santos e no colo o primogênito Geraldo, o único entre os 12 filhos que nasceu em Barra Longa; os demais são todos monlevadenses da gema. A viagem era a pé até Dom Silvério e só depois conseguia uma condução até Monlevade. Tão logo chegou na nova cidade também começou a trabalhar na Usina. Moraram todos em uma Barraca num lugar conhecido como “Padaria Velha”, próximo ao Depósito de Carvão, no Bairro Amazonas.

  Seu Marinho chegou a Monlevade e as coisas começaram a melhorar. Juntos a outros irmãos, a mãe, família sempre unida, e os filhos chegando. Conforme ele conta, era serviço pesado na Usina, onde sempre trabalhou no Laminador. “A gente trabalhava muito, mas sempre convivi bem com meus chefes, entre eles o Antonine Batista e Delvo Pessoa. O serviço era duro, mas mesmo assim consegui fazer um curso profissionalizante pelo Senai e foi graças a ele que obtive uma promoção. Lembro que fui falar com o chefe geral da Laminação, o engenheiro Paulo Cordeiro e assim que mostrei a ele o meu diploma, ele autorizou e passei ao comando de cabine. Isso me encheu de orgulho”, relatou emocionado Seu Marinho, sempre sorridente. Lembrou, no entanto, que não tinha uma vida social, porque era do trabalho pra casa e de casa pra a Usina. “Eram muitos filhos e nem televisão havia em casa. Tanto que assistíamos TV na casa de Seu Armando, um senhor que tinha um comércio perto da linha férrea, ou no Bar do Jesus. “Era a única diversão da época”, contou.

Mudança para a Vila Tanque

  No entanto, no ano de 1962 conseguiu a casa na Vila Tanque e mudou-se para a Rua 11 com a família. Foi um tempo com um pouco mais de conforto e, como os irmãos eram muito unidos, um deles acabou sendo seu vizinho do lado. Aposentou-se da Belgo-Mineira em novembro de 1977 e aí sim, com os filhos criados e já trabalhando, teve mais tempo para passear com a esposa. Visitar a terra natal fazia parte de seu roteiro de férias. Ocorria todos os anos. Como Seu Marinho fala, “nunca me esqueci de Barra

  Longa, jamais. Mas adoro João Monlevade”. No entanto, com a aposentadoria, ele e a patroa puderam também fazer viagens mais longas, tanto para Aparecida do Norte – a família é muito Católica – quanto para o litoral capixaba.

  Marinho Benedito dos Santos, que festejou seu centenário no início do ano, onde reuniu a família e amigos durante uma linda recepção realizada na Arpas, ficou viúvo em 2003. D. Maria José se foi aos 76 anos e deixou um vazio, mas que foi preenchido pela presença constante dos filhos, noras, genros, netos e bisnetos, e também pela fé. Um homem bom, generoso, sempre de bom astral, mas também duro com a educação até hoje, e muitos respeitado. Durante nossa conversa, deu exemplo disto, quando fez questão de frisar que adora ver os filhos reunidos, jogando uma partida de truco nos finais de semana, e da qual ele também gosta de participar, mas cachaça é estritamente proibida. “A cervejinha faz parte e eu até tomo um golinho vez ou outra. Mas pinga aqui em casa não entra. Sabe, para evitar coisas erradas”, falou com convicção. Sr. Marinho, um exemplo de pessoa e Deus lhe dê muita saúde e paz, para curtir ainda mais seus 12 filhos, os 15 netos e os 3 bisnetos!

Dona Adelma: a Esposa do desbravador Manoel

  Também presente durante a nossa boa prosa na sala da casa de Seu Marinho, a senhora Adelma Mendes, sua cunhada, viúva do Manoel, o desbravador que primeiro chegou a João Monlevade e foi o responsável pela vinda dos outros irmãos e de sua mãe para a cidade. Residente no Bairro São Jorge, também é natural de Barra Longa e completou 103 anos de idade em maio último. Nasceu em 1915. Tem seis filhos estava acompanhada de uma delas, a Georgeta. Muito simpática, Dona Adelma é muito conhecida pelos vizinhos e pelas pessoas que frequentam a Igreja. Afinal, é uma Católica fervorosa e até pouco tempo ia à missa sozinha, religiosamente, quase que diariamente. E faz parte do Apostolado da Oração e de uma fé imensurável. Como disse a filha, ela é muito devota do Padre José de Anchieta que, por essas providências, é conterrâneo do seu avô.

Na foto abaixo, no sofá da sala de Seu Marinho, ele com a cunhada Adelma; simpatia em pessoas

  Sobre a vinda do seu esposo para João Monlevade, na década de 1940, Dona Adelma disse se lembrar das palavras que ele falou ao lhe perguntar para onde iria. “Ele olhou paa mim e respondeu: – “Vou até onde Nossa Senhora da Conceição me mandar”. E acabou chegando aqui. Já a filha Georgeta contou com riqueza de detalhes sobre o caso que mais parece uma aventura. “Impressionante como o pessoal tinha coragem naquela época. Ele veio a pé de Barra Longa até Rio Piracicaba. Depois pegou uma Jardineira até Monlevade. Conseguiu emprego na Belgo-Mineira, através do Sr. Zé Silva, que era maestro do Coral Pio X e também seresteiro. Como meu pai também era músico, e tocava Sax e Clarinete, foi até mais fácil conseguir ser admitido na Usina. Depois de alguns meses fichado, voltou para buscar mãe, que estava grávida. O incrível é que, ao contar a história para a sogra dela, que já era viúva, a nossa vó Georgeta se sensibilizou com a situação e, para não deixá-la vir sozinha para um lugar estranho, resolveu acompanhar a nora. E logo em seguida vieram os outros irmãos e aqui ficaram”.

  Esta é a história de pessoas comuns, bem próximas de nós, mas que às vezes se confunde com a de retirantes, que deixam suas terras em busca de uma vida mais digna, menos sacrificada e mais farta. E graças a eles, esta gente simples, justas, religiosas, que podemos sonhar com dias melhores e mais paz entre o povo! Obrigado ao Seu Marinho e à Dona Adelma pelos exemplos!

*Entrevista publicada na edição de nº 169 do jornal “Morro do Geo”, de agosto/2018.

Hoje Sr. Marinho está com 102 anos e Dona Adelma com 105 anos.

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