Juju Alves: a vida de um seresteiro apaixonado! Por Marcelo Melo

A fotografia acima foi feita durante um baile de gala no Social Clube, na década de 1960. À frente o grande cantor Juju Alves, em seu pedestal e o microfone, sempre elegante em seu terno preto, presenteando um grande público. Ao lado os músicos Geraldo Orozimbo (Percussão), José Pereira (Violoncelo), Caroço (Bateria), Eustáquio Ambrósio (Acordeon) e o saxsofonista Cuité. Época de ouro

Qual monlevadense da antiga conhece José Francisco Alves? Talvez alguns poucos. Mas qual monlevadense da antiga já ouviu falar em Juju Alves? Ai eu diria que quase todos. Pois é, mas foi com este nome artístico que o grande cantor e seresteiro Juju Alves encantou várias plateias de diversas cidades de muitas regiões.

Em nome do jornal “Morro do Geo”, estive em sua casa no último dia 21 de outubro, no Bairro Cidade Nova, em Belo Horizonte, acompanhado do casal Jarbas Oliveira (Jarbinhas) e Rachel, também monlevadenses que residem no mesmo bairro. E tivemos o prazer de estar ao lado do grande Juju por quase duas horas naquela tarde de sexta-feira, quando pudemos ouvir longas e interessantes histórias. Desde quando deixou Alvinópolis, sua terra natal, aos seis anos de idade, até hoje, quando ainda canta em algumas casas da noite em BH, nos seus 80 anos completos.

Esta foto é datada de 12 de julho de 1958, durante uma festa julhina no Grêmio . O cantor Juju Alves e seu Regional, que animava também as festas de São João. Ele aparece o primeiro da esquerda, em pé, ladeado pelos músicos Agostinho Engrácio, Diôgo, Paulo Cardoso, Antônio, Diquinho, Nova Lima e Antônio Honório

Da Música ao Amor

José Francisco Alves nasceu em Alvinópolis em 24 de julho de 1931. O mais velho de uma família de cinco filhos, aos seis anos seus pais mudaram-se para João Monlevade. O patriarca vinha para trabalhar dentro da Usina, que acabava de ser instalada no Distrito de Rio Piracicaba. E, acompanhando a cultura da época, aos 15 anos incompletos, precisamente em 24 de junho de 1946, lá estava o menino ainda de calças curtas com os pés dentro da Cia. Siderúrgica Belgo-Mineira. Como o primogênito, já ajudaria nas despesas da casa. O salário, conforme consta na sua primeira Carta de Trabalho e que ele guarda até hoje, era de C$ 0,90, noventa centavos de cruzeiros.

Mas a paixão pela música era paralela ao serviço na Usina e, desde criança, ele arriscava em tirar umas notas. Gostava de ouvir rádio e os programas de auditório na Mayrink Veiga e na Nacional eram seus preferidos. Disse que, aos 9 anos, quando trabalhava de engraxate e boieiro, adorava cantar a música “Juracy”, e tirou uns versos; “Desde o dia que te conheci, Juracy, nunca mais tive alegria. O meu coração ficou daquele jeito, dando pinote dentro do meu peito”… Andava cantarolando a música e chamava a atenção dos mais velhos.

E, unindo o trabalho às artes, conhecer seu primeiro e único amor foi questão de tempo. Assentando com classe e sempre em poder dos óculos escuros, na cobertura de seu apartamento, Juju Alves relatava feliz sobre o seu passado. Naquela época, entre os anos 1940, sempre teve um grupo de seresta que lhe acompanhava pelas noites monlevadenses. E de forma poética, como todo artista, sensível, foi logo falando: “Fazíamos uma serenata junto ao grupo e eu cantava a música “Frio Em El Alma”, numa casa da Rua de Tábua. Naquele instante apareceu um rostinho tão bonito na janela entre aberta, mas tão bonito que parecia uma procissão de São Sebastião. Foi amor à 1ª vista. Casei-me com a Matilde Sima em 1952. Eles moraram primeiro na Rua Tabajaras e mais tarde mudaram-se para a Avenida Amazonas. Mas o palco onde Juju e a esposa Matilde passaram maior tempo foi em uma casa da Rua 22, no Bairro Vila Tanque, onde os filhos cresceram. O casal já completou 59 anos de matrimônio, entre a felicidade do contato com os filhos, genros, noras e netos.

Na foto, Juju Alves com a companheira Matilde e uma das netas

A Glória na carreira

Durante os 27 anos que trabalhou na Usina de Monlevade, sempre dividia o tempo entre a família, o serviço na área da Mecânica e a música. Era Cronner na orquestra de Monaliza e também tinha o Conjunto, chamado “Ideal”, do qual era o vocalista. Faziam parte do grupo, entre alguns músicos,  Zé Teco, Chiquito, Antônio Onório, Geraldo Macêdo, Francisco Martins, Nova Lima, Paulo Cardoso, Caroço e Eustáquio Ambrósio. Eles sempre se apresentavam nos finais de semana na Boate “Taquara”, que havia na época, e ainda Ideal Clube, Social, Caça e Pesca e também em cidades da região. Em sua carreira musical por Monlevade, trabalhou ainda na Rádio Cultura, desde sua fundação, que se deu em abril de 1961. Na época a emissora tinha uma grande equipe de profissionais e ele fazia programas de auditório e também locução.

Abaixo, o  conjunto “Ideal”, do qual Juju Alves era vocalista. Aqui, durante uma apresentação no salão nobre do Ideal Clube, onde aparecem, da esquerda para a direita: o maestro Geraldo Macêdo, Antônio, Walter, o cantor Juju Alves, Nilo, Cica, o percussionista Nova Lima e Antônio Honório

Mas a voz de Juju Alves não somente encantava o seu fiel público monlevadense. Ele ultrapassava as fronteiras e também se apresentava em emissoras de rádio da capital, principalmente na Inconfidência, aonde chegou a participar do Jubileu de Prata da emissora, cantando ao lado de Clara Nunes e outros artistas. Em João Monlevade, quando diretor do Ideal Clube, trouxe até a cidade o fenômeno na época, por volta de 1963, o cantor Cauby Peixoto. Eles se apresentaram juntos e, após o show, Cauby fez um convite para que Juju Alves se mudasse para o Rio de Janeiro, prometendo-lhe que sua carreira artística estaria assegurada. Durante a conversa em sua casa, ao falar sobre o assunto, ele se mostrou modesto, mas somente não aceitou o convite por já ter filhos e deixar a família não valeria a pena. Preferiu continuar cheirando o pó e fabricando aço na Usina da Belgo-Mineira. Mas, segundo Juju Alves, foi um entre outros convites que recebeu para seguir a carreira como intérprete.

Na foto abaixo, Juju Alves, durante show com Cauby Peixoto, realizado no Ideal, em João Monlevade, na década de 1960, quando era diretor social do Clube. Ainda na foto a cantora Popi, natural da Indonésia e que morou alguns anos em João  Monlevade. Era a época de ouro em  João Monlevade e era comum a presença de cantores renomados. Nesta oportunidade, Cauby Peixoto chegou a convidar Juju Alves para se mudar para o grande centro e seguir a carreira de cantor

Mudança para a capital

Monlevade e seus fãs o perderam em 1973, quando foi transferido da Usina de Monlevade para a unidade de Sabará. Acabara o Setor de Mecânica em Monlevade e todos os operários das turmas do SOC-1 e SOC-2 foram transferidos. Foram 36 anos de cidadania monlevadense e, entre os quais, 27 anos de Usina. Depois trabalhou por mais 12 anos em Sabará e outros 8 anos em uma pequena unidade da empresa, em Contagem. Ao total, disse orgulhoso, “foram 48 anos de serviços prestados à Belgo-Mineira, onde fiz muitos amigos e ainda tenho saudade”. E também falou ddo carinho que tem por João Monlevade e pelas coisas de cá. Das serenatas, dos bailes, dos shows sempre com grande platéia, dos músicos que o acompanhavam, entre eles de Monalysa, Zé Teco, Paulo Cardoso, Agostinho Engrácio, Antônio Onório, Diquinho e tantos outros. “Foi um tempo maravilhoso e que tive a oportunidade de recordar no início da década de 90, durante o Encontro de Monlevadenses Ausentes – EMAD -, quando cantei novamente ao lado de Monalysa e de outros amigos da época”, disse saudosista. Juju Alves fez questão de lembrar que tem uma saudade toda especial pelos seus companheiros da Loja Maçônica Harmonia V, a quem mandou um grande abraço fraterno.

Hoje vive tranquilo em seu apartamento de cobertura no Cidade Nova, ao lado da esposa e de uma filha (os demais são casados), um bairro residencial e bem localizado, próximo à entrada do trevo que dá acesso a Sabará. Segundo ele, tem o prazer de reencontrar os monlevadenses e sempre nas manhãs de sábado faz seu ponto na “Feira dos Produtores”, ali mesmo no bairro, quando tem uma prosa com os velhos conhecidos. E ainda canta, como mesmo disse, pelo prazer e amor que tem pela música. “Jamais cantei por dinheiro. Nunca. Faço pela paixão de cantar”.

Continuando, Juju Alves disse que ainda se apresenta certas vezes em algumas casas e restaurantes da capital, entre eles no “Porto”, uma casa de culinária portuguesa e que fica localizado à Rua Conselheiro Lafayete, entre os bairros Cidade Nova e Sagrada Família. “Ali gosto de dar minha canja pelo prazer de fazer as pessoas felizes. Sempre pego o meu violão atendendo convite dos donos da casa e por lá ficamos algumas horas. O cantor pra mim é uma parte de minha vida e faz feliz o meu coração”, terminou falando ao lado de um violão feito por encomenda por um lutier, residente em Sabará, cujo valor é inestimável.

*Esta Matéria foi publicada no jornal “Morro do Geo”, na edição de nº 155, de novembro/2011.

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