1879: A Construção de outra Usina Siderúrgica no lugar da que foi construída pelo Pioneiro Jean Monlevade! – *Edelberto Augusto Gomes Lima

Na fotografia acima, a Família do pioneiro Jean Félix Dissandes de Monlevade, estando entre eles um dos herdeiros, João Pascoal Monlevade

  Em 1872 falece, aos 81 anos, o pioneiro francês, Jean Antoine Félix Dissandes de Monlevade, depois de ter, com recursos próprios, construído, em 1826, em João Monlevade, uma moderna (para os padrões da época) fábrica de aço, e na região hoje se localiza a Solar Monlevade (Fazenda Solar).

  Em outubro de 1879 (sete anos após o falecimento do pioneiro e 53 anos da inauguração da Usina pioneira) um indivíduo com o nome de João Antônio Monlevade solicita da Assembleia Provincial (Assembleia legislativa da Província de Minas Gerais na época do império), incentivo para, após organizar uma companhia, fundar uma fábrica de ferro na fazenda de sua propriedade, à margem do Rio Piracicaba, no município de Santa Bárbara (São Miguel de Piracicaba nesta fase, pertencia a Santa Bárbara). 

  Segundo João Antônio Monlevade, o seu objetivo era o de fundar uma companhia para levantar uma indústria para fabrico de ferro, através do moderno sistema catalão, construir altas fornalhas para derreter e correr o ferro fundido debaixo de todas as formas, além de extrair minério de ferro nas jazidas do Piracicaba, em terreno e áreas de sua propriedade e na melhor localidade. Tinha o propósito ainda de assentar as máquinas a vapor para enxadas, ferraduras, cravos e tornar necessária todas as atividades da fábrica. João Monlevade prometia não somente a introdução de forjas catalãs, como também de laminadores e outras máquinas aperfeiçoadas. 

  Segundo Gorceix (veio da França a convite de Dom Pedro II, para fundar em Ouro Preto a famosa Escola de Minas, existente até os dias de hoje), só em certa zona da Província de Minas havia minério de ferro bastante para abastecer os mercados do mundo inteiro, por espaço de mais de dois séculos. 

Literalmente, constou dos Anais da Assembleia Provincial na Sessão de 27 de outubro de 1879: 

  “………..João Antônio Monlevade pede……(pelo prazo de 50 anos, um incentivo) ……com que pretende, ORGANIZANDO PARA ISSO UMA COMPANHIA, FUNDAR UM FABRICO NORMAL DE FERRO…” (Letra garrafal por minha conta). 

De imediato, duas indagações se ressaltam: 

  1ª –    Quem se apresentou perante a Assembleia Provincial com o nome de João Antônio Monlevade? (no final eu esclareço). 

  2º –      De acordo do que constou dos anais de Assembleia, o pedido era com o objetivo de FUNDAR, e não ampliar, restaurar etc, a fábrica fundada pelo pioneiro Jean Antoine Félix Dissandes de Monlevade. 

  O pioneiro faleceu com 81 anos e, entre o seu falecimento e a postulação decorreram sete anos; teria a fábrica original, neste período, tornado-se improdutiva e arcaica após 53 anos, já que no local João Antônio Monlevade desejava fundar outra? 

  Juliana Ma. Do Nascimento Passos, em seu livro “Monlevade, Vida e Obra”, concorda que “Durante alguns anos depois da morte de seu fundador, a Forja Monlevade ficou um pouco desleixada…mas…” – pág. 91. Porém, na página seguinte, afirma que João Monlevade procurou recursos para expandi-la. 

  Discordo nesse aspecto da ilustre historiadora. É que nos Anais de uma Assembleia reproduzem documentos oficiais, transcritos imediatamente após os pronunciamentos e são portadores de fé pública (cuja presunção de verdade somente é destruída por provas robustas em contrário, o que desconheço na espécie).  

Na hipótese, constou expressamente neste documento, duas afirmativas claras: 

  A 1ª Que João Antônio Monlevade iria fundar uma companhia e não dar continuidade a existente. 

  A 2º, de que ele iria FUNDAR uma fábrica de ferro. 

  Ademais, pode ser até que ele tenha herdado a fábrica original, já que consta dos Anais, que a companhia a ser criada por ele, tinha o seguinte capital inicial: 

  Terrenos que iam ser explorados; as matas que iam fornecer o combustível para as forjas; os edifícios que já existiam construídos para a fábrica. 

  No capital da nova companhia constava edifícios já construídos, o que leva a dedução de que ele iria utilizar remanescentes da antiga fábrica. 

  Desde o dia 20 de outubro de 1879, os Deputados que integravam a Assembleia Provincial realizaram diversas Sessões no decorrer do tempo, sendo que houve intensos debates entre eles. Uns a favor, outros contra. 

  Gorceix (Claude Henri Gorceix) deu parecer favorável, ao argumento, em síntese de que: – O estabelecimento de um alto forno na Província de Minas seria de grande vantagem, eis que a produção sendo muito maior, a agricultura não teria que lutar com as dificuldades provenientes da falta de instrumentos para a lavoura. 

  Naquela quadra da vida na Província mineira, havia cerca de 120 fábricas que adotavam um sistema bastante primitivo, enquanto a que se pretendia instalar utilizaria os modelos de alto-forno já utilizados entre os países adiantados da Europa. 

  Entre outras restrições colocadas por alguns Deputados para não se conceder o incentivo, constavam as seguintes: Não bastava a força motriz suficiente, nem o minério em quantidade, nem as matas virgens, era necessário para o custeio do estabelecimento em grande escalas, da chamada pedra calcária, pedra esta que não era encontrada no local e nem nas adjacências de onde se pretendia instalar a fábrica, mas em São João do Morro Grande (Atual município de Barão de Cocais). 

  Outras restrições foram apresentadas, tais como a de que a produção de enorme quantidade de ferro, muito superior ao consumo era impossível de exportar o excedente, por falta de vias de comunicação. 

  Ademais, segundo a corrente contrária, iria levar à falência todos os outros fabricantes de ferro, não só da bacia do Piracicaba, mas ainda de um extensa zona circunvizinha que ainda utilizavam o sistema primitivo de cadinhos que herdaram, talvez, dos africanos ou criaram através de grandes esforços. 

  Além disto, segundo esta corrente, seria preferível uma indústria mais elementar, mais atrasada, porém que satisfizesse a necessidade dos consumidores e servida por muitos produtores, à uma indústria mais aperfeiçoada, produzindo abundantemente, mas concentrada nas mãos de um só. 

Os argumentos favoráveis de outros Deputados prevaleceram 

  Contudo, embora a Assembleia Provincial tenha aprovado a proposta de João Antônio Monlevade, ele não conseguiu levar avante o projeto por não ter conseguido os capitais necessários e, segundo dedução do próprio, para que fosse lucrativa teria que exportar o excedente e não havia como, por falta de vias de comunicação. 

  Ademais, segundo João Antônio Monlevade, antes de qualquer lucro ele prezava o próprio nome e não quis arriscar, nem os seus e nem os capitais alheios, em uma empresa que não podia dar resultado satisfatório e que, portanto, teria de sobrecarregar consideravelmente os cofres da Província. 

Quem era João Antônio Monlevade, que com este nome se apresentou à Assembleia

  O nome completo dele, já portuguesado, era João Pascoal Monlevade, conhecido como Joãozinho Monlevade, filho e herdeiro do pioneiro Jean Monlevade. Em 1882, ele tentou novo incentivo, mas dessa vez a Assembleia recusou. 

  Por não conseguir realizar seu sonho, Joãozinho Monlevade vendeu a antiga fábrica, construída pelo seu pai, para a Companhia Nacional de Forjas e Estaleiros que colocou à frente do empreendimento, na tentativa de soerguê-la, Francisco de Paes Leme de Monlevade, filho de Joãozinho Monlevade e neto do pioneiro. 

  A fábrica sobreviveu aos trancos e barrancos até que seu proprietário de então, Gaston Barbanson, em 1924, a aliena à Companhia Siderúrgica Belgo Mineira. A partir de quando a Belgo Mineira assumiu o controle acionário e construiu a Usina Siderúrgica de João Monlevade e a própria cidade, ela irradiou progresso e emprego para toda a região. 

  Nesta fase, surge um novo pioneiro, a quem toda a região, incluindo Sabará, deve gratidão eterna. Trata-se do engenheiro luxemburguês Louis Jacques Ensch (1895/1953). 

Abaixo, máquinas das Forjas Catalã

*Edelberto Augusto Gomes Lima é advogado aposentado e historiador amador, responsável por diversos livros sobre a história antiga de São Domingos do Prata, sua terra natal, e de Sabará, do qual é Cidadão Honorário. Foi ainda, quando criança, morador em João Monlevade e Sabará, quando, ainda menor, trabalhou como contínuo na Usina da Belgo-Mineira. 

*Fontes: Anais da Assembleia Provincial, cujo texto integral está inserido em seu livro “São Domingos do Prata no período imperial”. 

“Monlevade Vida e Obra”, excelente livro de Juliana Ma. Do Nascimento Passos. 

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