Estórias dentro da História! Geraldo Eustáquio Ferreira (Professor Dadinho)

A foto acima mostra descendentes de Jean Félix Dissandes de Monlevade, o francês pioneiro que aqui chegou no século XVIII e deu início à siderurgia nacional. Entre as pessoas que estão na fotografia, feita em frente ao Solar Fazenda Monlevade, estão o filho Francisco de Monlevade (assentado), Rita Paes Leme de Monlevade, o neto do patriarca, Jean Antoine, e ainda Pascoal de Monlevade e a esposa Sofia. Três gerações deste grande homem, responsável pela nossa cidade

Era o início do mês de abril de 1872 e eles dirigiam-se ao Solar Monlevade.
Dias antes, primeiro domingo do mês, fora com a família, como de costume, à missa mensal celebrada na Capela de Nossa Senhora da Conceição. Após a missa, o Padre Cassiano, em ligeira conversa com seu pai, combinara:

– Como é, Seu Joaquim, o senhor nos acompanha na visita ao Capitão João
Antônio de Monlevade na próxima semana? Precisamos acertar alguns detalhes da Festa do Bom Jesus e, sabe como é, o velho Capitão, com a idade, prefere que nos encontremos em sua Fazenda Solar. Prometi levar alguns fazendeiros da região para discutirmos o assunto de modo a atender aos interesses de todos. Posso contar com o senhor?

– Com certeza, Seu Vigário! É só marcar o dia e a hora que lá estarei!

– A propósito, Seu Joaquim! Por que não leva também o pequeno Luiz Prisco
para visitar o Solar? O menino é inteligente, observador, e tenho certeza de
que lhe será de grande proveito conhecer a fábrica de ferro do Capitão. Além do mais, poderá conhecer o Francisco, neto do Capitão, que lhe fará boa companhia, já que têm os dois quase a mesma idade.

  Aquela conversa deixara seu coração em sobressaltos. Ouvira falar algumas vezes da Fazenda Solar e morria de curiosidade em conhecê-la. Agora realizava seu desejo. Vestido com sua melhor roupa, conjunto de calças escuras, camisa branca e colarinho fechado por um laço de veludo preto, afigurava-se mais magro, e o traje salientava a brancura de sua tez. Sob o céu de límpido azul, repassava as recomendações da mãe no sentido de se comportar em casa de gente tão fina. Naquela bonita manhã de abril, leve brisa acariciava-lhe o rosto aotrote suave da montaria. Estava feliz.

  Haviam deixado há pouco a fazenda da família e tomavam a direção do povoado. Aqui e ali o grupo era acrescido de um ou outro cavaleiro que o aguardava à beira do caminho. Antes de pegar a estrada que margeava o Ribeirão Carneirinhos, a alegre caravana passou diante da Capela de Nossa Senhora da Conceição e do pequeno cemitério, situado em seu entorno. Persignaram-se todos, em sinal de fé e respeito, e seguiram viagem.

  O menino, alheio à conversa dos adultos, seguia silencioso, imaginando as
aventuras que iria viver naquele dia. Meia hora depois, absorto em seus
pensamentos, quase não percebeu que já se avizinhavam da Fazenda do Baú, quando a rotina da viagem foi quebrada pela chegada de um cavalheiro de meia idade, ar senhoril, barba espessa, que se juntou ao grupo. Pela consideração e atenção que recebeu da comitiva, percebeu que se tratava de alguém muito especial. E era. Joãozinho Monlevade, assim denominado para se distinguir do pai, entendia da fabricação de ferro e ajudava o pai na administração da fábrica. Sempre tivera uma grande predileção pelo sítio da família situado no Baú, aonde ia com frequência, motivo pelo qual prosseguira com o grupo a partir daquele lugar.

  Devagarinho, o menino foi percebendo que ficara para trás a paisagem bucólica do povoado com suas pastagens e campos cultivados, e que se abriam diante dele caminhos pedregosos, escuros, cobertos por uma poeira marron-avermelhada, pontuada aqui e ali de pedras que faiscavam à luz do sol. Observou também que havia uma presença maior de pessoas, principalmente de escravos, que andavam para cima e para baixo, numa movimentação intensa, uns transportando pessoas, outros conduzindo ferramentas, outros ainda carreando víveres e animais domésticos próprios para abate. Pouco a pouco seus ouvidos, esquecidos do mugir de bois e vacas da fazenda do pai, vão-se habituando a ruídos diferentes como o
estrondo de máquinas que levantam nuvens de fumaça e de poeira no fabrico do ferro. Sentia-se fascinado por aquele mundo totalmente diferente.

  Não demorou muito para que menino avistasse a Fazenda Solar. Imponente, ela se destacava no centro de quatro grandes conjuntos de construções destinadas às residências de escravos, ao armazenamento de colheitas, ao depósito de ferramentas, arreios, carros de bois, bem como outros estabelecimentos ou galpões necessários ao funcionamento da fábrica de ferro. A casa tinha dois pavimentos, com varandas em suas quatro faces, o que facilitava a administração e inspeção do estabelecimento. Encantou-se o menino com uma série de jabuticabeiras plantadas com esmero e muita simetria, em circunferência, tendo no centro um lindo e bem acabado repuxo que atirava água a grande altura, coisa muito fina, bastante agradável de se apreciar e muito rara naqueles rincões. Ao longe, descia da serra uma bonita cascata que fornecia a água para o repuxo e para as outras necessidades da casa. Era fascinante, para o menino, todo aquele cenário que, impregnando-se em suas retinas, despertava-lhe a imaginação.

Não tardou que fossem recebidos na Fazenda Solar pelo Senhor de Monlevade e Dona Clara Sofia. Na sala principal, Padre Cassiano e mais alguns fazendeiros de São Miguel do Piracicaba, que chegaram um pouco mais cedo, aguardavam os recém-chegados para o início da reunião. Dona Clara Sofia, tendo-os acomodado na grande sala, após os cumprimentos e saudações de praxe, retirou-se para passar o serviço às mucamas da casa. Não pôde deixar de ver o menino que, discretamente, se afastara dos adultos e se quedara mudo na contemplação daquele repuxo que jogava água a seis metros do solo.

– Bem me disse o Padre Cassiano que teríamos um menino aqui entre nós! Você é o…

– Luiz Prisco de Braga, minha senhora! Sou filho de Joaquim José de Braga,
lá de Carneirinhos. Estava ansioso por conhecer esta Fazenda tão grande e
bonita!

– Meu Deus! Que menino encantador! E como você conversa direitinho! Já tem uns dez anos, presumo…

– Completei dez anos em janeiro, Dona Clara. Sabe que vim montado sozinho em minha montaria?

– Olhe só! Então já é um homenzinho… Sabe que tenho um neto praticamente da sua idade? Deve estar andando por aí, observando as máquinas. Já, já ele aparece. Fique á vontade, que vou providenciar um café para as visitas.

  Lá dentro, a reunião prosseguia animada. Não era sem tempo, pois a Festa do Bom Jesus, tradicionalmente realizada em maio, estava próxima: o mês de abril estava se escoando depressa… O menino aproveitou o tempo e explorou as dependências da casa: viu os quartos, amplos e numerosos, e as salas; acompanhou o trabalho das escravas na cozinha e passou rapidamente pela Capela, dedicada a São João Batista. Da varanda do segundo pavimento, contemplou ainda, por longos momentos, extasiado, o belo repuxo diante da fachada do Solar. Quase não notou que estava sendo observado.

– Ah! Achei! Então é você o menino que veio lá dos Carneirinhos! Sou o
Francisco Paes Leme de Monlevade, neto do Capitão. Vovó me disse que seu nome é Luiz…

– Luiz Prisco de Braga, seu criado. Muito gosto em conhecê-lo. E você mora
aqui?

– Não. Infelizmente. Até que gosto muito daqui, mas fico muito mais tempo
com meus outros avós, no Rio de Janeiro, onde estudo. Agora, estamos vindo com mais frequência, eu e meu irmão, porque o Vovô anda muito tristonho, cheio de saudades… Mas vamos descendo que vou lhe mostrar a casa…

– Então você estuda no Rio de Janeiro! Também tenho muita vontade de
estudar. Temos por aqui o Colégio do Caraça e o Seminário de Mariana, mas eu quero mesmo é estudar em Ouro Preto. Levo muito jeito para a Matemática, sabe?

– Eu também! Mas meu irmão, o João, que é um pouco mais velho que eu, é
apaixonado pela História Natural e pretende ser médico… Meu sonho é fazer engenharia e vir para cá para conduzir a fábrica de ferro do meu avô.

– Quando vinha para cá, ouvi o Seu Joãozinho Monlevade falar com os
fazendeiros sobre essa fábrica. Gostaria de conhecer mais…

– Pois é, Joãozinho Monlevade é meu pai. Sei que ele ajuda muito meu avô,
mas ele gosta mesmo é da agricultura. Além do mais, as coisas aqui não andam muito bem mais não. Não sei se posso falar, mas andam dizendo que meu avô é muito generoso, e os escravos se aproveitam…

– Eu queria mesmo é ver as máquinas…

– Venha comigo. Pouco abaixo daqui tem a fábrica velha. Olhe essas duas
rodas hidráulicas. Elas são movimentadas pela água que vem do ribeirão através daquele bicame que Vovô mandou fazer. Essas rodas, por sua vez, é que movem os pilões que reduzem em pó as pedras de ferro. Fico muito tempo aqui espiando esse movimento… Ainda não entendo muito, não, mas gosto muito…

– Você tem razão. É realmente muito divertido… Mas a fábrica ainda produz
muito, não?

– Ah! Sim! Meu pai me disse que ela já chegou a produzir umas trinta arrobas de ferro por dia! Agora, com o ferro se fazem bigornas, pás, enxadas, ferramentas de serrar madeiras, moendas para espremer a cana…

– E essas ferramentas vão ajudar os fazendeiros no cultivo da terra, estou certo?

– Com certeza! É bem verdade que essas terras não produzem tanto como as de Carneirinhos, onde se produz muito milho e feijão. Mas um escravo me contou que elas dão muita batata doce e mandioca. Meu avô me falou que é porque são meio arenosas…

  A conversa entre os meninos prosseguiu manhã afora. O menino de Carneirinhos estava encantado com tantas descobertas. Entretanto, o ponto alto daquela excursão foi o almoço. Não pelo almoço em si, mas porque, não podendo participar das conversas à mesa, pôde concentrar sua atenção no grande Capitão João Antônio de Monlevade, de maneiras tão fidalgas, atencioso e bondoso, que a todos encantava com sua conversa. E ele registrou uma fala do dono da casa, de que jamais se esqueceu:

– Vocês sabem, meus amigos, que não vou viver muito mais. Afinal, estou para completar 83 anos de idade. Mas dou-me por satisfeito. Este lugar, que já foi inteiramente deserto, está hoje frequentado por numerosas tropas que aqui entram e daqui saem, não mais apenas a serviço desta casa, mas também para outros gêneros de negócios… E estão utilizando as estradas e as pontes que eu abri e a todos disponibilizei. Tenho mostrado ao Presidente da Província a necessidade de se construir na região uma boa estrada de ferro, porque dela pode depender o futuro grandioso desta Província.

  Horas depois, retornando com seu pai para Carneirinhos, o menino ia conferindo tudo o que aprendera. E, apesar da pouca idade, já entendera que a “estrada para o futuro grandioso desta Província” acabara de ser construída por aquele homem altivo e refinado no trato e nas maneiras, que exercia grande fascínio sobre as pessoas e por quem todos sempre tiveram o mais profundo respeito e grande veneração.

 

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