PADRE DREHMANNS: O MISSIONÁRIO DA PRIMEIRA HORA!

SS o Papa João XXIII recebe em audiência particular o Padre José Maria Drehmanns

Foi no início dos anos 50. Tudo acontecia em Monlevade pela primeira vez: a primeira fábrica, o primeiro emprego, a primeira loja, o primeiro armazém, a primeira escola, a primeira formatura, a primeira igreja, o primeiro pároco, o primeiro hospital, o primeiro… E houve também a primeira missão: desembarca em Monlevade o primeiro missionário, Padre Dr. José Maria Drehmanns, holandês, liderando um grupo de missionárias leigas, integrantes do Instituto recentemente fundado por ele na Holanda. Vinham com a missão de atuar no Hospital Margarida e na Paróquia de São José, ajudando na catequese, na Liturgia e na formação social. Essas missionárias, oficialmente denominadas “Sociedade das Obras Sociais”, acabaram sendo conhecidas simplesmente como “as holandesas” e fizeram excelente trabalho ao qual se referirá mais adiante.

O que todo mundo perguntava é o que vinha fazer em Monlevade um padre relativamente velho (68 anos) com um grupo de mulheres que mal conheciam a língua portuguesa. É bem verdade que a Usina de Monlevade estava repleta de “gringos”, mas lá dentro da usina a realidade era outra… Quem nos responde à pergunta é o próprio Padre Drehmanns: “Muitas vezes me perguntam o que vamos fazer no Brasil. Minha resposta é: eu sei e não sei. O que eu não sei é o modo concreto em que o empreendimento se desenvolverá e qual será o melhor modo de combinar o material com o espiritual. (…) E estou satisfeito de não saber, pois assim entregamos tudo a Deus confiando plenamente em sua direção”. E Maria José van Leeuwen1 completa: “O que sabia ele mostrava-nos bem claramente: o mais importante não é aquilo que pretendemos fazer no Brasil, mas a nossa presença lá, uma presença que procura colocar o próprio Deus presente por nosso ser (…) levar outros a essa união íntima com Deus”.

Para entender esse testemunho de fé e espiritualidade, esse amor entranhado a Deus e essa preocupação obstinada com a propagação de Seu Reino na terra, é preciso conhecer a trajetória desse Missionário, cuja ação à frente de seu Instituto está na base de todo o trabalho social realizado nesta cidade. Pierre Joseph Marie Hubert Drehmanns nasceu em 1º de maio de 1882, em Roermond, na província de Limburgo, na Holanda. Seus pais, Hendrikus Joseph Hubert Drehmanns e Carolina Schoolme Sters, eram de família extremamente católica, tendo seu pai, como pioneiro do partido católico de Roermond, atuado a vida inteira em favor da causa católica contra os liberais.

Na infância, a diversão era pouca: passear e brincar aos domingos, nos arredores da cidade, na chamada Capela da Areia. Ele admitiria mais tarde: “A gente aprendia a se contentar com pouca coisa, o que foi uma vantagem para minha vida posterior”. Após a morte da mãe – ele tinha três anos – foram morar, ele e seus irmãos, com a avó paterna, com quem aprendeu o francês e o alemão. Foi por ocasião do término do curso primário, que teve o sonho de se tornar missionário, já com opção clara para a Congregação Redentorista. Tal opção não teve o apoio da família, que tudo fez para demovê-lo da idéia. Mais tarde, quase concluído o curso de Filosofia e Teologia em Rolduc, transformou-se em pivô de uma disputa que envolveu a Congregação Redentorista e a Diocese de Roermond, cujo bispo era seu tio. Entretanto, de caráter extremamente alegre, ele sempre se referia a essa série de opções aparentemente inexplicáveis e mal feitas, mas que, no final, davam certo: “Minha vida foi conduzida por caminhos determinados por Deus, por toda a eternidade. No momento em que as coisas aconteciam, não podia imaginar, mas depois reconhecia”.

Assim, foi ordenado sacerdote em 08 de abril de 1905, como padre secular para servir a diocese de Roermond, contrariando seu desejo de ser missionário redentorista. Pouco tempo depois, obteve do bispo a licença para ser missionário, fazendo votos na Congregação Redentorista em setembro de 1909. Mesmo depois de Redentorista, foi instado por seus superiores a estudar mais e tornou-se doutor em Direito Canônico em 1911. Logo após, foi nomeado secretário do Cardeal Willem Marinus van Rossum, holandês, indo atuar com ele no Vaticano, adiando mais uma vez seu sonho missionário.

O Cardeal van Rossum sempre ocupou altos cargos no Vaticano, e o Pe. Drehmanns, como seu secretário de 1911 a 1930, exerceu também funções importantes na Igreja: foi, por longos anos, Consultor de dois órgãos importantes do Vaticano: da Congregação do Santo Ofício2 e da Sagrada Rota Penitenciária, 3 participando, também, da Comissão que codificou o Direito Canônico. Na Congregação da Propagação da Fé, ocupou a Secretaria Geral do Óbolo de São Pedro4 por sete anos. Data dessa época a grande amizade com o Mons Ângelo Giuseppe Roncalli (futuro Papa João XXIII), que ocupava outra Secretaria no mesmo órgão. Naquela época, boa parte dos cardeais italianos não via com bons olhos a presença de estrangeiros na Cúria Romana. Assim, após a morte do cardeal, o Pe. Drehmanns perdeu seus cargos e voltou para a Holanda em 1930. “O Pe. Drehmanns, com seu temperamento forte – explica sua biógrafa Maria José van Leeuwen – muitas vezes se irritou com a burocracia (…), mais ainda quando se tratava de assuntos importantes como a extensão do Reino de Deus. Era muito franco, de modo que não podiam ser evitados choques até mesmo com um ou outro cardeal.”

De volta à Holanda, atua como Professor de Direito Canônico até 1932. Escreveu inúmeros artigos em revistas teológicas da Europa, além da biografia do Cardeal van Rossum e vários livros de espiritualidade como Rezar (1935), Em Busca da Plenitude da Felicidade (1939), Rezar e Sacrificar-se com Cristo (1948), Para a União entre os Homens (1947), entre outros.

Em 1940, com a ocupação da Holanda pela Alemanha, e estando a Itália aliada a esse país, tornaram-se precárias as relações entre Roma e a Igreja da Holanda. Nesta crise, o Pe. Drehmanns, que passara 20 anos de sua vida no Vaticano, estando agora na Holanda, servia de intermediário para esse contato, utilizando-se de seu bom trânsito nos dois países.
Foi também por esse tempo que começou a projetar-se como Diretor Espiritual. Como relata sua biógrafa, “tinha o carisma especial de perscrutar o íntimo das pessoas e de reconhecer a sua sede de Deus. Tinha um modo especial de orientá-las no caminho da perfeição”. Certamente foi do fato de sua direção espiritual ser muito solicitada que surgiu a idéia de reunir essas pessoas sedentas de uma vida mais plena em um Instituto leigo.

O grupo inicial foi constituído em 15 de outubro de 1942, conhecido exteriormente pelo nome de “Clube de Retiros Santa Teresa de Ávila”. Era um Instituto Secular. Neste sentido, o Pe. Drehmanns foi profético: vislumbrava formas de vida consagrada a Deus que só mais tarde seriam oficializadas pelo Vaticano II. Seu Instituto, cujo nome eclesiástico era “Sociedade das Obras Sociais”, receberia posteriormente o nome de Instituto Unitas (únitas, em latim, significa unidade). A inauguração deste Instituto se deu de forma muito simples e despojada: um ato particular, ocorrido numa sala humilde, adaptada para este fim, de um Convento de Amsterdan, situado no Gueto dos Judeus, em plena segunda Guerra Mundial.. “Esta sobriedade – relata Maria José van Leeuwen – acentuava ainda mais a importância daquilo que estava se passando na vida interior das presentes. Todas experimentaram a grandeza do momento. Todas (onze) fizeram seus votos perpétuos, todas se sentiam incendiadas pelo amor que o fundador irradiava.”
Em 1949, com o Instituto instalado também em Luxemburgo, por sugestão de seu Superior Geral que constatara a necessidade de padres para o Brasil e achava que um grupo de missionários leigos poderia suprir tal falta, aceitou vir para o Brasil para realizar, finalmente, seu sonho missionário.

No Brasil, o Instituto objetivou exercer seu apostolado particularmente na faixa feminina do povo, preparando a mulher para a sublime tarefa de mãe e apóstola leiga, do seguinte modo:Formar apóstolas leigas. Membros do Instituto poderão trabalhar duas a duas, em lugares aonde raras vezes chegam sacerdotes.

Estimular vocações sacerdotais e ajudar a desenvolver essas vocações.

Dar à mulher uma formação cultural em sentido cristão, atingindo principalmente professoras e estudantes.

Ajudar na pastoral da paróquia: principalmente catequese e liturgia.

Embora o plano inicial destinasse a missão para Coronel Fabriciano, uma providencial disposição de Dom Helvécio Gomes de Oliveira, Arcebispo de Mariana, direcionou o Pe. Drehmanns e suas missionárias para João Monlevade. Era 1950. O Pe. Drehmanns, que com 10 anos tivera o sonho de ser missionário, sonho que acalentara aos 20 anos, que vira distanciar-se aos 30, realiza, aos 68 anos, em João Monlevade, o grande sonho de sua vida.

Em Monlevade o Padre Drehmanns e suas “holandesas” atuaram inicialmente no Hospital Margarida, supervisionando os trabalhos do Corpo de Enfermeiras e propiciando conforto aos doentes. Paralelamente o Pe. Drehmanns atuava como Coadjutor do Cônego Higino, responsabilizando-se, entre outras atividades, pela celebração das Missas das 8h15 (a Missa das Crianças) e das 9 horas.

Sempre sob a orientação segura do Pe. Drehmanns, adscrito nesse tempo à Casa dos Redentoristas de Belo Horizonte, pouco a pouco, as “holandesas” foram diversificando sua atuação: administraram, por longo tempo, o Alojamento das Professoras no antigo Grupo Escolar Central, atuaram na Catequese Escolar, preparando as crianças para a Primeira Comunhão, formaram catequistas, orientaram o povo nas Celebrações Litúrgicas, dirigiram o canto pastoral, lecionaram no incipiente Ginásio Monlevade, entre tantas atividades.

Foi no auge dessa efervescente atividade que o Padre Drehmanns, em 17 de setembro de 1959, morreu repentinamente na Fazenda Holambra, em São Paulo, vindo a ser enterrado na capital mineira. Tinha sido recebido, poucos dias antes, em audiência especial, pelo Papa João XXIII, amigo pessoal e antigo colega de trabalho no Vaticano. A notícia de sua morte causou, principalmente em João Monlevade, a mais profunda consternação. Embora tenha sido enterrado, por decisão da Casa Redentorista à qual era adscrito, em Belo Horizonte, recebeu, por ocasião da Missa de Sétimo Dia, na Igreja de São José Operário, as homenagens que lhe eram devidas pela cidade que o acolhera. As “holandesas”, a que chamava carinhosamente de “filhas”, mirando-se em seu exemplo, prosseguiram a luta por seus ideais e continuaram sua missão: fundaram a Unilabor, cooperativa de trabalho que atuou durante anos no ramo de confecções, e criaram a Escola Profissional Santa Marta, onde educavam as meninas para exercerem atividades do lar, dando-lhes sólida formação profissional e religiosa. Ali também nasceram os Clubes de Mães tão disseminados em Monlevade e região. Esta Escola Profissional Santa Marta foi, sem dúvida, o embrião de outra grande obra do Instituto Unitas: a construção da ARPAS – Associação Regional de Promoção e Ação Social – que vem funcionando há mais de 40 anos como Centro de Formação Pastoral (hoje entregue à Mitra Diocesana), acolhendo pessoas e entidades para treinamentos, encontros, cursos, seminários, congressos, retiros espirituais e atividades afins.

As “Holandesas”, que mudaram-se depois de João Monlevade, mantiveram ainda duas casas no Brasil: uma em Belo Horizonte, outra em Lagoa da Prata, onde vieram a falecer. Tendo atuado durante tanto tempo em João Monlevade, merecem, todas elas, uma referência na biografia de seu Mestre e Diretor. Na impossibilidade de fazê-lo integralmente, pelo menos por enquanto, citem-se com carinho e gratidão:

  1. Maria José van Leeuwen, integrante do grupo inicial como superiora e presente até o final das atividades na cidade;
  2. Guilhermina Hunsche ( in memoriam), também integrante do grupo inicial, professora de Inglês no antigo Ginásio Monlevade e, posteriormente, assessora do Bispo de Itabira, Dom Marcos Noronha;
  3. Alberta Maria Pecx, que muito marcou a Escola Santa Marta com seu trabalho;
  4. Adinda van Den Bruele, de grande presença e atuação nos programas sociais da ARPAS;
  5. Joana Maria van Doormnalen, que teve seu nome muito ligado aos Clubes de Mães e, principalmente, à Unilabor;
  6. Aparecida Carneiro Pontes, uma dentre as brasileiras que se integraram ao grupo, que trabalhou em João Monlevade.
    O Instituto Unitas, por sua atuação em João Monlevade, tem demonstrado que, graças à orientação básica e profunda de seu fundador, não ficou limitado no tempo e espaço, mas soube adaptar-se totalmente à nova linha de pastoral da Igreja, constituindo-se em pedra viva na construção do Reino de Deus.
    Finalmente, fique registrado que o nome do patrono da Escola Estadual Padre Drehmanns, missionário da primeira hora nessas terras do Senhor de Monlevade, já inscrito no coração da cidade por sua obra magnífica e por sua fé e santidade, figure também no panteão dos grandes Pioneiros de nossa História.

As Irmãs Holandesas que muito trabalharam em Monlevade nas obras sociais: Guilhermina, Maria José e Alberta

NOTAS E REFERÊNCIAS:
1- Maria José van Leeuwen, integrante daquele grupo inicial, trabalhou como Missionária em João Monlevade e dirigiu a ARPAS até meados da década de 80, quando se retirou para Belo Horizonte. É autora de uma bela biografia do Padre Drehmanns, infelizmente ainda não publicada, que me serviu de referência básica para este trabalho.
2 – A função desse órgão era guardar a integridade da Fé e defender a moral cristã de tudo o que pudesse prejudicá-las.
3 – Esse era um tribunal pontifício onde se examinam os casos reservados ao Papa, ou seja, as questões de consciência, de foro internos, as indulgências, as dispensas etc.
4 – Este órgão tinha a função de financiar a construção de seminários e subsidiar a formação do clero em terras missionárias. Cerca de dois mil sacerdotes indígenas devem seus estudos e formação a essa Obra

*Matéria publicada no jornal “Morro do Geo”, em sua edição de nº 104, de dezembro/2006, atualizada!

*Pesquisa e Texto: Geraldo Eustáquio Ferreira (Professor Dadinho)!

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