Trabalho de Formiga! – Afonso Torres

* Afonso Torres da Silva

  A ARBED foi formada, em 1911, por um conglomerado de indústrias siderúrgicas luxemburguesas, cujos dirigentes Emile Mayrisch e Gaston Barbanson criaram o Sindicato do Brasil com o intuito de avaliar a instalação de usinas siderúrgicas para, então estabelecer relações comerciais no Brasil. Após a criação do Sindicato, uma missão técnica, liderada pelo engenheiro Pierre-Arent, foi enviada ao Estado de Minas Gerais, sendo recebida pelo, naquela ocasião, Cônsul Honorário da Bélgica em Belo Horizonte, Christiano França Teixeira Guimarães que, por coincidência, era, também, presidente da Companhia Siderúrgica Mineira, estabelecida em Sabará. Coube-lhe, por um dever funcional, receber a missão ARBED e facilitar seus estudos no Estado. Em um de seus contatos com Jean Pierre-Arent, o ilustre mineiro suscitou a possiblidade de vir o conglomerado a colaborar com a sua Companhia, mediante a ampliação da Usina Siderúrgica com o programa industrial que havia estabelecido para a construção da nova usina de proporções bem maiores na antiga herdade de João Monlevade.

  Consolidada a proposta, em fevereiro de 1921 firmaram o primeiro contrato e, a 11 de dezembro do mesmo ano, a Companhia Siderúrgica Mineira realizou uma assembleia geral para aumentar o capital de Cr$350.000,00 para Cr$ 15.000.000,00, inteiramente subscrito pelo Sr. Gaston Barbanson, presidente do consórcio siderúrgico europeu. Na mesma assembleia se resolveu, igualmente, adquirir as propriedades de Monlevade e do Andrade. Foram eleitos os membros do Conselho Administrativo da sociedade que, dois anos depois, passaria a ter por razão social o nome de Companhia Siderúrgica Belgo Mineira. Ficou, ainda, decidido que a Usina Siderúrgica seria ampliada em sua capacidade e que deveria, também, produzir aços e laminados, até que, com a chegada dos trilhos a Monlevade, se pudesse efetivar a nova usina.

  Para executar o novo plano, chegara, em 1921, o primeiro Diretor da Usina, o engenheiro Pierre Delville e, pouco depois, a primeira turma de técnicos luxemburgueses desembarcava em Sabará: Jean-Pierre Brimeyer (engenheiro civil e de minas), a quem se deve a construção do segundo alto-forno de Siderúrgica; Michel Michels, químico; Emile Simon, montador; Etienne Ross, eletrotécnico; Nicolas Munshausen, mecânico e Edouard Luja, engenheiro agrônomo.. Por não haver carvão mineral na região, o Luja foi contratado para fazer ensaios de cultura com essências florestais de rápido crescimento, pois as novas usinas iriam funcionar à base de carvão vegetal.

 Embarcaram em Amsterdã a 20 de julho de 1921 a bordo do navio “BRABANTIA”, do Lloyd Holandes e, depois de magnífica viagem, aportaram na deslumbrante Baía da Guanabara a 5 de agosto. Deixaram o Rio pelo expresso da Estrada de Ferro Central do Brasil às sete horas da manhã, chegando a Belo Horizonte às nove horas da noite. Etienne Ross, o eletricista, ficou em Sabará, os ourtros seguiram viagem até Santa Bárbara, ponto terminal da estrada de ferro. A viagem durava um dia.

 Em Santa Bárbara, hospedaram no Hotel Quadrado, um amplo e pesado edifício de um pavimento em madeira. No centro do hotel havia uma grande área descoberta para prender cavalos e muares. O rés-do-chão era adaptado para armazenar mercadorias e forragens para os animais, servindo de alojamento para os tropeiros. Depois de uma noite de repouso, partiram para a etapa final a lombo de burro.

 As bestas, tanto a de montaria quanto as destinadas à bagagem, foram arreadas e, por dois dias as cangalhas foram balançadas, lado a lado, pelo trote dos animais, enquanto as habilidades equestres dos luxemburgueses eram postas a duras provas. Á princípio, até que se divertiram. Bem assentados na sela, pés apoiados nos estribos, observavam a mata que beirava o caminho invadido pelo mato rasteiro. A cada galope, o chacoalhar dos intestinos dos animais soavam com uma ameaça de um tombo iminente. O cansaço, aos poucos, foi tomando conta dos inábeis cavaleiros. As dores foram despontando nos quadris, depois nas panturrilhas e, por último, nas nádegas. Um suplício. Dos mosquitos melhor nem falar! Melhor pular logo pra chegada à Fazenda Solar.

Na foto acima, datada de 1922, em frente ao Solar Monlevade, montados a cavalos, os luxemburgueses MM. Albert Peiffer, Jean Pierre Brimeyer e Edouard Lula, pioneiros no início da Usina da C.S.B.M.

Empoeirados e desconjuntados se encantaram com a construção em estilo palaciano, sustentada por delgadas colunas de secção circular, formando dobradas fileiras de esteio, pintadas de um desbotado azul, como as portas e as janelas. Foi inevitável imaginar aquelas varandas nas quatros faces do prédio, tanto inferior quanto superior, no auge do seu esplendor nos tempos do Pioneiro com seu séquito de escravos… Foram prontamente recebidos pelo Sr. Francisco de Barros e sua esposa Ana Ubaldina Fernandes Barros.

  Em 1897, não por incompetência técnica, Francisco Monlevade, então à frente da Companhia de Forjas e Estaleiros do Rio de Janeiro, se viu obrigado a desistir do sonho de reerguer a usina de ferro construída pelo seu avô, João Antônio Monlevade, pois nunca lhe faltaram esforços, ação e trabalho.

  Declarada a falência, adiantando fundos, o Banco Ultramarino do Rio de Janeiro, penhorou toda a propriedade, usina e demais materiais. Para que o patrimônio não ficasse ao abandono, sujeito a invasões, contratou-se os serviços de um filho de portugueses residente na, então Capital do País, o Sr. Francisco Mariano de Barros. Junto à família, por muitos anos foi o zelador do imóvel. Com a sua morte, seu filho, Francisco de Barros,à época, estudante no Seminário do Caraça, abandonou os estudos, pois, como primogênito, tinha que assumir as responsabilidades deixadas pelo pai: a mãe, os irmãos e a administração da Fazenda.

 O Sr. Francisco e a Dª Ubaldina formavam um alegre casal. Muito musical e de sólida formação religiosa. Ele, como já vimos, ex seminarista do Caraça e ela quase noviça de um convento de Mariana. Estiveram perto de abandonar tudo na fase em que um grupo de estudantes recém formados em Ouro Preto arrendaram a propriedade. Além de não ter o fogo sagrado do trabalho correndo nas veias, aliviavam a solidão compulsória promovendo festas memoráveis em companhia de “Damas Galantes” importadas de Santa Bárbara. Dª Ubaldina só falava em ir para a casa dos pais em Rio Piracicaba, “Onde já se viu tamanha imoralidade?!!…” Perguntava ao marido.

  À noite, após uma farta pratada mineira preparada por Dª Ubaldina, foram os luxemburgueses brindados por um autentico sarau. O Sr. Francisco, além de chegadinho numa poesia, tocava violão e bandolim e sua esposa era dona de uma voz afinadíssima, treinada nos acalantos que embalavam o sono do pequeno “Chiquito”, o quinto primogênito da família a receber o nome do Pobre Santo de Assis. Nascera ali mesmo no Solar, segundo Dª Ana, no dia 16 de junho de 1916, numa quinta feira, às cinco horas da manhã, no último quarto da segunda varanda que dá de rente para o Rio Piracicaba. Com a chegada dos técnicos o casal seguiu viagem para Rio Piracicaba, onde o Sr. Francisco se associou com o Sr. Dilinho Augusto, dono de uma fábrica de ferraduras na Fazenda do Engenho. “Gato escaldado tem medo de água fria!”, já diz o ditado… Cuidando da casa ficaram alguns trabalhadores que ali estavam desde o século passado. Entre eles uma preta velha, Dª Maria Francisca Martins, que narrou muitas das histórias registradas pelo Luja em seu “Relatório de Viagem ao Brasil”, publicada em 1952 pelo “Bulletin de la Societé des Naturalistes Luxembourgois” e traduzido pelo engenheiro Laécio Osse, que veio a substituir Edouard Luja no Serviço Florestal da C.S.B.M.

 Edouard Luja foi o primeiro plantador de eucaliptos da Companhia que, simultaneamente à sua fundação, 15 anos antes que se começasse a construir a Usina de Monlevade, realizou suas primeiras experiências de plantio de eucalipto no caminho da Mina do Andrade. Contando, inclusive com a ajuda de dois netos do Pioneiro Monlevade, filhos do João Paschoal com a Anna Cassemira Pimenta Figueiredo, a “S’Anninha do Baú”. A instalação do viveiro das futuras plantações de cedro e eucalipto foi “coroada” de dificuldades: seis meses se fizeram necessários para que as novas plantas semeadas estivessem prontas para o plantio no campo, pois, como se não bastasse a indolência dos trabalhadores que, sob pretexto de aniversários de qualquer santo, faltavam ao trabalho, tinha ainda ele de lutar, bravamente, com o verdadeiro flagelo que eram as enormes saúvas. Ao fim de seis meses, quando seriam transplantadas, verificou-se , com desagradável surpresa, numa bela manhã, que tudo havia, simplesmente, desaparecido!!! As Attas, verdadeiros flagelos agrícolas, tinham, vorazmente, cortado e picotado em pedacinhos, durante uma madrugada, todo o trabalho de meio ano e transportado tudo para seus ninhos a fim de criar os fungos que constituem o seu alimento exclusivo. Eram formigas tão grandes quanto mosquitos de Quimper. Com cabeças enormes e ferrões hábeis em cortar tanto as folhas grandes quanto os brotos das árvores. Formavam grandes ninhos. Quando os ninhos eram novos, ainda se podiam matar as formigas por meio de sulfeto de carbono, mas, uma vez crescidas, se fazia necessário cavar um buraco junto ao formigueiro, formar um fogo com plantas venenosas e, com um forte sopro, injetar a fumaça inseticida nas galerias, tendo o cuidado de obstruir os orifícios de saída que eram indicados pelas colunas de fumaça que por ali saiam. Foi quando o Dr. Luja compreendeu a célebre frase pronunciada um século antes pelo cientista-viajante Auguste de Saint-Hilaire – naturalista e botânico, como ele – ao se deparar com mais de quarenta diferentes espécies de formigas-cortadeiras onipresentes no país: “Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil!”

Seis meses se fizeram necessários para que as novas plantas semeadas estivessem prontas para o plantio no campo, pois, como se não bastasse a indolência dos trabalhadores que, sob pretexto de aniversários de qualquer santo, faltavam ao trabalho, tinha ainda ele de lutar, bravamente, com o verdadeiro flagelo que eram as enormes saúvas

*Afonso Torres da Silva (Afonsinho) é articulista do jornal “Morro do Geo”, ativista cultural, artesão e escritor

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