Especial: “Tião Pipoqueiro” conta histórias da velha Vila Tanque! – Por Marcelo Melo

Acima, a fotografia original que saiu publicada na matéria, cuja legenda está inserida abaixo

  Vamos falar sobre um dos bairros mais populares de João Monlevade, com mais de 50 anos de existência. Um local onde ainda perduram as casas de tábua e existiu um dia o “Campo da Lenheira”. Mostraremos um pouco da grande Vila Tanque, onde sus moradores reclamam da taxa de água  e do minério que sobe do Depósito de Carvão. Falaremos de um povo pacato e de suas lembranças, e das histórias das centenas de aposentados  que residem no bairro. Uma Vila que já teve seu tanque, perto de um local chamado “praça de guardar lenha”, daí o nome “Campo da Lenheira”, Da Vila que já teve o seu Palanque onde era celebradas as Missas, e das barraquinhas onde “Tatu” e “Capão” iam para roubar um pouco de pipoca.

  E, falando em pipoca, temos de lembrar do Sr. Sebastião Borges de Souza, de 77 anos de idade e há 37 deles vivendo na Vila Tanque. Mais conhecido como “Tião Pipoqueiro”, que desde os tempos em que ainda trabalhava na Belgo-Mineira vendia suas saborosas pipocas em seu velho carrinho de mão. E ainda hoje lá vai Sr. Tião, aposentado há 19 anos, pelas estreitas ruas do bairro.

Muito Minério!

  Com muito saudosismo, Tião Pipoqueiro lembra que, quando mudou-se para a Vila Tanque, “aqui só tinha minério. Na porta de nossa casa, aqui na Rua 22, era minério puro”. No entanto, disse o aposentado, era fácil viver. “Antigamente as pessoas eram mais solidárias e havia mais amizade. O salário era menor, realmente, mas a vida era bem mais barata. Hoje gasta-se muito com supérfluos. No meu tempo, o que ganhava ia para a cozinha, e ainda sobrava uns trocados para um aperitivo e uma cervejinha. Não havia luxo, mas era melhor para se viver”.

O Caso de Iracema!

  Tradicional morador da Vila Tanque, Sr. Sebastião Borges conhece bem suas histórias. Um fato curioso contado por ele envolvia Sr. Jassi e o Seu Laurindo, também saudosos, que eram vizinhos. Lembrou ele que todas as casas da Vila Tanque eram pretas, devido ao tratamento  por qual passava a madeira. Nisso, num belo dia, por volta das 11 horas da noite, lá vinha o Jassi do trabalho. Tinha largado o turno das 23 na Usina. Coincidentemente, a sua esposa tinha o mesmo nome da mulher do Laurindo. Ambas se chamavam Iracema. O Jassi, cansado do serviço, ao se aproximar da casa do vizinho, pensando se tratar da sua residência, acabou entrando quintal adentro. Como de costume, bateu a janela e gritou: – “Iracema, ô Iracema”. De dentro, o Laurindo respondeu: – “Ela já está dormindo”. O resto, ninguém viu (rs).

  Assim vivem vários aposentados do bairro que abriga o segundo maior Colégio Eleitoral de João Monlevade, sempre contando seus casos & causos. E Seu Tião Pipoqueiro fala conta também saudoso da construção da Igreja Nossa Senhora de Fátima, que viria para substituir o antigo Palanque. “Trabalhávamos igual touros pela Comunidade. Eu, seu pai Tião de Melo, Clemides Barros, Paulo Silva, Antônio Gonçalves, Paulo Moreira, Raimundo Barão, e muitos outros. Lembro o dia que cheguei mais cansado do trabalho na Belgo-Mineira e não me encontrava muito disposto a pegar no pesado na construção da Igreja. Virei para o seu pai, o Tião, e falei pra ele, que retrucou: – “Vá em sua casa, pegue a garrafa de café e vamos ao trabalho. A gente vai trabalhando e ao mesmo tempo descansando. E a coisa deu mesmo certo. Acabava sendo uma diversão”, falou sorrindo.

Progresso

  O Bairro da Vila Tanque, que acabou perdendo peças de sua história, também ganhou com a construção da Igreja, da Arpas, do Clube Recreativo, do Senai, da Escola Polivalente, do Centro Tecnológico e do próprio Hospital Margarida. Todos lembram saudosistas ainda do Bar do Alonso, com os vários engraxates à sua porta, e uma sinuca divina de boa. Do  Campo da Lenheira, onde o Atletic, Vila Nova e o Penharol fizeram histórias em partidas acirradas. Da famosa e tradicional Rua do “Sapo” (Rua 21) e do antigo tempo do Senai, quando o enérgico diretor Sr. João de Oliveira Freitas, João “Peixe”, deixava os alunos atordoados.

  Veio o progresso e a construção de novas casas. Aliás, a Vila uma lado interessante, pois residem pessoas de todas as classes sociais, e tem uma origem cristã e a maioria de seus moradores com base na Igreja Católica, sendo o saudoso Padre Hildebrando de Freitas, o popular Padre “Juca”, considerado o grande líder espiritual da Paróquia, conforme salientou o Sr. Sebastião Borges de Souza. “A figura do Padre Hildebrando era única. Mesmo bebendo sua cervejinha e pulando carnaval, era muito querido. Uma pessoa muito humana, acima de sua Batina”, disse.

  Eis a Vila Tanque e seus personagens, como o grande Tião Pipoqueiro, saudosista como a maioria de seus vizinhos e contemporâneos. Próximos ao “Redondo” ou “Mineirão”, ali na Rua 17, onde no passado abrigava uma grande feira. As estreitas ruas ainda prejudicam o tráfego d e veículos, mas fez parte da arquitetura que veio do Velho Continente e que poderia ter sido tombado e se hoje Patrimônio Histórico Municipal, para que fosse mantida a arquitetura das casas da Avenida Aeroporto e a estrutura das casas de madeira. Da Vila do Bar de Dona Nenen, ou da antiga Casa Philips do Sr. Laudelino Fonseca. Das Casas Pessoa de Seu Delvo e Dona Santa ou ainda das Casas Sampaio. Do Campo de Aviação, de Dona Maria da Lavagem e deste grande personagem, Seu Tião Pipoqueiro, que hoje nos recebeu em sua residência, na Rua 22,  para este dedo de prosa. Uma Vila do Tanque, ou Vila Tanque, onde filhos nobres se ausentaram por motivo de força maior. Mas que sempre terão este bairro em suas memórias.

Na foto abaixo, a matéria original publicada no “Jornal de Monlevade”, com a data aparecendo no cabeçalho

*De julho a dezembro de 1989, tive o prazer de produzir uma série de reportagens no extinto “Jornal de Monlevade”, periódico este fundado pelo amigo e jornalista Elmo José Lima – hoje residente em Belo Horizonte -, com algumas personalidades de nossa cidade, bairros e fatos curiosos sobre a história de João Monlevade, que estarei publicando em nosso Site.

OBS: O artigo está transcrito na íntegra, da forma como foi publicada na edição de nº 286 no “Jornal de Monlevade”, de julho/1989 a matéria no ano de 1989.

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