Nilton de Souza: Polêmico, Erudito e Popular! *Geraldo Magela Ferreira

Conheci o professor Nilton de Souza em meados dos anos 70 quando um grupo de jovens escritores resolveu se organizar para debater e produzir literatura. E lá estava ele, pequenino e falante, com seus inseparáveis sapatos salto plataforma. Foi aí que nasceu o Grêmio de Estudos Literários, o GEL, que home-nageava o histórico “Armazém do GÉO” que lembrava o pitoresco “ burro do GÉO”, algumas da paixões memoriais do Tim Mirin.
A partir daí nasceu uma boa amizade , com a troca de idéias, produção de livros, jornais e análise de trabalhos literários. Teve um episódio que eu não me esqueço. Ele ficou tão impressionado com “a estrutura formal e a força narrativa” de um miniconto que eu havia escrito e não dera a devida importância, que acabou indo na minha casa e disse assim para o meu pai: “ Este caboclo é um grande artista!” Bondade do professor, que possuía uma alma muito generosa.

Mas a nossa convivência também foi marcada por divergências no campo artístico-cultural. Nilton de Souza, como todo bom intelectual, era bastante polêmico e, por que não, um tanto quanto teimoso e ranzinza, no bom sentido. Nunca aceitou Drumond como o nosso poeta maior, ignorava Oswald de Andrade e vários outros modernistas que eu, particularmente, adorava. Mas apreciava, e muito, o genial Mário de Andrade. Não gostava da poesia concreta e de outras interessantes experiências de vanguarda. Sem falar nos dogmas religiosos que ele defendia e que o mestre Gerhart Michalick, outro dos seus grandes amigos, sempre ironizava, para o seu desespero. Em compensação, Tim me apresentou a obra do mestre do absurdo, Franz Kafka, que ele conhecia e estudava profundamente. Querem alguém mais moderno do que Kafka?

Nilton de Souza se transformava em Marco Aurélio quando escrevia contos fantásticos e em Heleno quando publicava as suas divertidas crônicas nos jornais locais. E também era artista plástico competente, com um estilo bastante particular. E ainda lecionava no curso técnico de metalurgia do Centro Tecnológico Joseph Hein, onde divertia os alunos com suas estórias e uma didática muito própria para explicar termos técnicos. Para definir algo grande, o Tim tinha a mania de dizer: “era um catatau de pedra que vocês não fazem idéia…” Ele era um sujeito erudito apaixonado pela cultura popular.

Tive ainda o prazer de conviver e de debater idéias com ele, Gerhart Michalick, Ademar Soares d´Oliveira, Márcio Wagner, Beatriz Silva, Tavim Viggiano, Joel da Páschoa, entre outros, no Conselho Curador da Fundação Casa de Cultura nos início dos anos 80. Felizmente, anos antes da sua morte precoce, tive a oportunidade de encontrá-lo várias vezes no centro da cidade, durante as suas caminhadas. Entre causos rápidos e piadinhas maliciosas, que ele contava baixinho com um sorriso meio infantil, chegamos a manter um diálogo fraternal, sem maiores conflitos intelectuais.

Em referência à sua memória, deixo aqui um agradecimento ao inesquecível professor Nilton de Souza, por ter contribuído e muito na minha formação cultural. Valeu, Tim! Um dia, quem sabe, nós ainda vamos nos encontrar para continuar aquela velha polêmica…

*Geraldo Magela Ferreira é jornalista, escritor e poeta. Monlevadense da gema, residente no Distrito Federal.

Este artigo foi publicado na edição de nº 126 do jornal “Morro do Geo”, em outubro/2008!

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