PROFESSOR DIMAS: A ALMA NO VIOLÃO!

Na foto acima, Dimas Rodrigues e o inseparável violão

Há em Dom Casmurro um episódio antológico em que Machado de Assis se refere a um barbeiro, também tocador de rebeca, relatando que,”sem ver fregueses, grudava a face ao instrumento, passava a alma ao arco, e tocava, tocava…”.

Dimas Rodrigues de Lima, nosso maior violonista, também dizia que “o violão é tão sublime que penetra muito bem na alma da gente”. Mas a gente pode dizer que o Prof. Dimas, não pelos mesmos motivos da personagem machadiana, era a alma de seu instrumento, tanto com ele se identificava. Em edição de junho de 1974, o antigo “Atualidades” o homenageou com uma arte que expressa exatamente essa ideia e que recupero aqui:

O desenho gráfico, que não traz assinatura, mas apresenta traços característicos de Luciano Lima, outro musicista consumado, revela-nos que Dimas nasceu em São Gonçalo do Rio Abaixo, de onde partiu para “penetrar nas cavernas sonoras do pinho”, mas perdeu a cidadania para João Monlevade, onde dedilhou sua “alma sensível, de vida interior vivida nas profundezas do bojo de um violão”.

Filho de Raimundo Augusto de Lima e de Custódia Moreira Pena, Dimas Rodrigues de Lima nasceu em 30 de outubro de 1933. O conhecimento com o violão é dos tempos de criança: morando com sua família em uma fazenda, observava encantado, violonistas belorizontinos que por ali apareciam com um toque mais desenvolvido e sofisticado que o dos tocadores de viola que conhecia. Pouco tempo depois, em 1947, ganhou de seu pai o primeiro violão, acompanhado de método criado por Américo Jacobino, o famoso Canhoto. Estudou e trabalhou em Santa Bárbara, vindo para João Monlevade no início dos anos 1960, trazido pelo Dr. Márcio Pessoa, para trabalhar no Senai. Integrou também o grupo inicial de professores do Colégio Kennedy, onde lecionou Geografia e Inglês.

Começou seus estudos musicais como famoso pianista João Rodrigues Lucas, de Sete Lagoas, com quem aprendeu repartição e harmonia e para quem fazia partituras com transcrição de músicas de Bach para violão. Logo que descobriu seu talento como violonista, cuidou de desenvolvê-lo. Foi aluno do Prof. Nelson Piló, de Belo Horizonte. Dominando tanto o clássico como o popular, foi seu talento como concertista clássico que o levou aos EUA, onde chegou a lecionar violão clássico por dois anos no American Instituteof Music, em Carolina do Norte.

Realizou inúmeros recitais aqui e fora de nossa cidade. Em muitas oportunidades, apresentava-se como prelúdio musical em eventos acadêmicos e culturais, preparando a plateia para palestras. E não se limitou à interpretação de peças alheias: tinha seu próprio repertório constituído de quase 300 peças, entre valsas choros, prelúdios, estudos e danças espanholas compostas ao longo de sua carreira, consubstanciada na gravação do Cd “Dimas Rodrigues – Meu violão, minha vida”. E não ficou nisso: alma de professor, desenvolveu método próprio de violão, baseado em escalas e harmonias, constituído de 30 lições. Faltaram-lhe recursos para publicá-lo e divulgá-lo. Paralelamente à vida artística, cumpriu carreira no serviço público municipal, como desenhista do setor de projetos da Secretaria Municipal de Obras, pelo qual se aposentou em 1993.

Casado com Dona Luzia Aranda Lima, teve cinco filhos: Dilermando (engenheiro civil na Prefeitura), Dênio, Maria Nádia, Maria Lívia e Daniel. Teve na família seus maiores incentivadores. Em família, nos momentos de privacidade, ainda com os filhos crescendo, estes o acompanhavam marcando com palmas o ritmo das peças executadas. Além de lhes ter legado o gosto pela música, dois deles, Dilermando e Maria Lívia, receberam nomes de renomados violonistas. Entretanto, sua vida, que poderia ter sido uma serenata sem fim, interrompeu-se inesperadamente em 31 de janeiro de 2003, sem que pudesse realizar tantos projetos artísticos sonhados e amadurecidos. Ficou-nos a lembrança de sua bondade e simplicidade e a grandeza de poder revisitar sua arte no CD que pereniza seu talento e criatividade.

Capa do primeiro disco do grande violonista clássico

*Matéria publicada na Coluna “Nossa Terra, Nossa Gente”, edição de nº 152 do jornal “Morro do Geo”, de agosto/2011.

*Pesquisa e Texto: Geraldo Eustáquio Ferreira (Professor “Dadinho”)!

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